Olimpicamente Dopados (artigo de Gustavo Pires, 27)

Olimpismo 15-01-2016 20:44
Por Gustavo Pires
O doping só não é o grande tema desportivo do momento porque a hipocrisia que reina entre os dirigentes do Movimento Olímpico é muito maior. Após tomar conhecimento do relatório elaborado por uma Comissão Independente a Agência Mundial Antidopagem (AMA), tal qual “Branca de Neve” veio agora denunciar “o fracasso total” da Associação das Federações Internacionais de Atletismo (IAAF) na luta contra o doping e a corrupção. E, como é usual nestas situações em que ter um negro à mão dá sempre jeito, a tal Comissão Independente considera Lamine Diack senegalês, antigo presidente da IAAF de 1999 a 2015 e membro do Comité Olímpico Internacional como sendo “o principal responsável pelos atos de corrupção e encobrimento de casos de doping”, como se tudo começasse e acabasse nele sem que houvesse mais ninguém!

Agora, toda a gente, principalmente os dirigentes desportivos e políticos, parece que ficam muito admirados com a situação como se nunca tivessem ouvido falar de doping e de corrupção no mundo do desporto. Contudo, só por hipocrisia podem ficar espantados. Há muito que se sabe que os Jogos Olímpicos estão carregados de droga e corrupção e até há muita gente a viver à conta do assunto. Contudo, os dirigentes perece que se esqueceram de Ben Jonhson, de Katrin Krabbe, de Diane Modahl ou, entre outros, de John Ngugi ou, até, dos abortos provocados que se praticavam na ex RDA como forma de aumentar a capacidade atlética das mulheres que competiam em nome da pátria amada. E Ilona Slupianek lançadora de peso da ex-RDA, em entrevista ao jornal "El País" de 19/12/89, até dizia que a RDA tinha sido pioneira em acabar com o tabu do sexo, nas atletas de alta competição. O problema é que parece ninguém aprendeu e, por cá também não, pelo que, depois da institucionalização de cerca de duas dezenas de centros de alto rendimento contra os clubes em particular e o associativismo em geral, resolveram dizer que “a camisola de Portugal deve usar-se por dever” e, à semelhança do que se passava nos países de leste, o desporto foi transformado num “desígnio nacional”.

Entretanto, mediante os escabrosos acontecimentos que envolvem a IAAF, todos choram “lágrimas de crocodilo porque, afinal, está tudo dopado. E o incrível de tudo isto é que se fazem muito admirados quando só não sabe quem não quer. Os próprios JO de Londres (2012), tidos como os Jogos “quase perfeitos”, ficaram debaixo de enormes suspeitas:

• Mais de 800 atletas ficaram suspeitos de terem recorrido a substâncias proibidas;

• Sete britânicos apresentaram testes suspeitos;

• Houve atletas como, por exemplo, a campeã do heptatlo Jessica Ennis-Hill, que perderam ao competirem com atletas que ficaram debaixo de suspeitas;

• Dez vencedores de medalhas ficaram sob suspeitas de terem utilizados produtos proibidos;

• Em algumas finais um dos três atletas medalhados ficou debaixo de suspeitas.

• 80% das medalhas ganhas pelos atletas russos são duvidosas. Recordo que nos Jogos Olímpicos de Moscovo participaram 5923 atletas não se tendo registado qualquer caso de controlo anti-doping positivo !!!

• O Quénia teve 18 atletas debaixo de suspeitas.
Claro que, hoje, há muitos dirigentes desportivos, políticos e económicos que: (1º) sem qualquer vergonha, escravizam os atletas que não têm outro meio de vida; (2º) obrigam-nos a processos de treino e de vida absolutamente desumanos; (3º) promovem centros de alto rendimento financiados pelo Estado em prejuízo dos clubes onde decorre a verdadeira prática desportiva; (4º) deixam os treinadores à solta sem qualquer espécie de controlo; (5º) depois, ficam muito admirados porque os atletas se dopam. E quando surge qualquer notícia nos jornais, como aconteceu recentemente entre nós, não tratam de apurar o que é que se está a passar a fim de darem as devidas explicações ao país. Pelo contrário, ficam é muito ofendidos porque houve uma fuga de informação. E fecham-se em copas.

Por isso, o referido relatório que só aconteceu porque a comunicação social obrigou, não pode causar qualquer surpresa quando afirma que aconteceu um colapso total das estruturas diretivas da IAAF e uma absoluta falta de responsabilidade por parte dos dirigentes. Na realidade, o verdadeiro colapso ultrapassa a IAAF porque está é a acontecer no Movimento Olímpico. E é um colapso mental cujos primeiros sintomas começaram a ser percebidos na Agenda 2020 do COI que, tal qual voz a pregar no deserto, Gentil Martins teve a oportunidade de denunciar nas páginas do jornal Público. Quer dizer, um colapso de valores em que a irresponsabilidade dos dirigentes políticos e desportivos, salvo honrosas exceções, também é total. Por isso, se a última coisa que se pode admitir às políticas públicas é que pretendam transformar o desporto num “desígnio nacional”, quando se trata de organizações privadas como são os Comités Olímpicos Nacionais (CONs) tal desiderato ainda se revela mais desapropriado na medida em que segue completamente à revelia da Carta Olímpica na medida em que o Olimpismo não é só desporto:

• O Movimento Olímpico, do ponto de vista orgânico, assenta sobre quatro pilares fundamentais: (1º) Comité Olímpico Internacional; (2º) Federações Internacionais; (3º) Comités Olímpicos Nacionais e, (4º) Comités Organizadores dos Jogos Olímpicos. Estas organizações têm missões próprias que não passam por transformar o desporto num “desígnio nacional” seja ele desportivo, económico ou político.

• O Movimento Olímpico, do ponto de vista ideológico, assenta sobre seis pilares fundamentais. (1º) educação; (2º) cultura; (3º) paz; (4º) ambiente; (5º) desenvolvimento e; (6º) desporto. É sobre estes seis pilares que um Comité Olímpico Nacional deve assentar a sua ação.
Datam dos anos sessenta as primeiras preocupações sérias sobre os problemas da dopagem no desporto. A Comissão Médica do COI foi fundada em 1967. Desde os Jogos Olímpicos de Grenoble e México em 1968 começaram a ser processados controlos obrigatórios. Em 1967 aconteceu uma reunião de Ministro do Desporto dos Países membros do Conselho da Europa sob o título "Dopagem e Saúde" em que foi produzida uma resolução (67/12) relativa à utilização abusiva de substâncias dopantes. Em 1984, foi adotada a "Carta Europeia Contra a Dopagem". Em 1988 o COI solicitou a todas as Federações Internacionais que adotassem a "Carta Internacional Olímpica Contra a Dopagem no Desporto". E, em 1989, foi aprovada a "Convenção Contra a Dopagem". De então para cá não faltou informação acerca do assunto. Na era da informação, ninguém minimamente ligado ao fenómeno desportivo pode alegar que em 2016 desconhece o que se está a passar.

E não têm sido poucos os avisos. Em 1983, portanto há mais de trinta anos, Dou Miller, CEO do Comité Olímpico dos Estados Unidos dizia: "estamos a transformar os nossos atletas em vigaristas e mentirosos. Existe na realidade, um problema de droga. É altura de tomarmos medidas". Agora, Sebastian Coe o atual presidente da IAAF está debaixo de enormes pressões na medida em que não pode alegar que nada sabia não só acerca do doping como da corrupção que grassava na IAAF. Contudo, ele, candidamente, diz que é necessário “voltar a ganhar a confiança”. O problema é que, desde há muito que a IAAF, a FIFA e outras organizações internacionais não são merecedoras confiança e o COI, depois de uma extraordinária liderança de Jacques Rogge, agora sob a liderança de Thomas Bach, corre também o risco de deixar de merecer confiança. O problema é que, hoje, as políticas tanto públicas como privadas da generalidade dos países não são merecedoras de qualquer confiança. A ver bem, são portadoras das maiores desconfianças por parte dos cidadãos contribuintes que assistem incrédulos a serem lançados milhões de euros em organizações desportivas cujo objetivo é transformar o desporto num incrível “desígnio nacional”.

O dinheiro tomou conta do desporto. Os próprios Estados têm vindo a claudicar na medida em que, em vez de equilibrarem os Sistemas Desportivos com políticas a montante, acabam por acentuar ainda mais as assimetrias de que o desporto já padece, obcecados com a obtenção de medalhas olímpicas. Por outro lado, as condições económicas e políticas de muitos países estão cada vez mais a determinar um ambiente propício aos processos ilícitos de conquista de resultados como, mais uma vez, se veio a constatar com o relatório a que nos temos vindo a referir. As organizações estão implicadas em milhões pelo que não estão dispostas em serem prejudicadas só porque alguém se lembrou de fazer um controlo antidoping sério ou a combater a corrupção. É este o sentimento da generalidade das pessoas relativamente àquilo que, para além de um ou outro “bode expiatório” apanhado numa “rede de malha larga”, tem vindo a acontecer nos grandes eventos desportivos internacionais e nos Jogos Olímpicos. Em consequência, os responsáveis optam ou por ignorar os controlos; ou montar sistemas sem qualquer espécie de credibilidade. Claro que a lista de mortes não para de aumentar desde que Tom Simpson morreu em 13 de Julho de 1967 vítima de um colapso cardíaco.

Hoje, o verdadeiro problema é que, terminada a "guerra fria", os estuporados sistemas engendrados nos países de leste passaram a ser utilizados pelos países de economia de mercado. E, à imagem e semelhança daquilo que se passava na União Soviética e seus satélites, assistimos incrédulos a serem montados sistemas que replicam o que se passava naqueles países. E foi o que aconteceu em Portugal desde o XV e XVI Governos (PSD/CDS), incrivelmente, continuado pelos XVII, XVIII, XXI Governos (Partido Socialista), que depois de, pomposamente, prometer “uma nova agenda para o desporto” focalizada no social, parece estar a limitar-se a servir mais do mesmo pacote PSD/CDS. E um grupo de “académicos espertalhões” até arranjou um modelo mais ou menos expedito conhecido como SPLISS que pretende explicar como é que se ganham medalhas olímpicas. Contudo, atrás de cada medalha olímpica pode estar a tragédia do subdesenvolvimento.

Relativamente à questão do doping e da corrupção, há muito que se sabe que existem três eixos fundamentais a ter em conta na luta:

1. A utilização do desporto para fins nacionalistas (do tipo “desígnio nacional”) é, simplesmente, imoral; A utilização do desporto para fins comerciais deve ser sujeita a critérios perfeitamente definidos que preservem a dignidade atual e futura dos atletas;

2. A existência de um número excessivo de competições a nível das modalidades individuais deve ser contra balanceada com políticas desportivas a montante centradas em modalidades coletivas com os consequentes programas de suporte nos diferentes fatores;

3. A falta de garantias dos desportistas quanto ao seu futuro deve ser prevista através do estabelecimento de carreiras profissionais perfeitamente estabelecidas e regulamentadas de maneira a que a dignidade do desportista profissional não caia ao nível degradante de ter de vender as medalhas olímpicas.

Por isso, o Senhor Secretário de Estado da Juventude e Desporto devia tomar em conta o seguinte:

1. Ao assumir o desporto como um “desígnio nacional” está a transformá-lo num instrumento de cariz miseravelmente nacionalista. Quer dizer, está a fazer o pior que qualquer político pode fazer ao desporto. Se o está a fazer consciente ou inconscientemente é outro tipo de problema;

2. Se olhar para as modalidades desportivas pode verificar que, para além do caso especial do futebol (e mesmo assim), a generalidade do desporto nacional é feita de modalidades individuais e à custa das famílias dos atletas. Como é que, em nome das crianças e dos jovens, e não de qualquer “desígnio nacional” mais ou menos idiota, se pode começar a superar esta dramática situação;

3. É revoltante ver em que situação socioprofissional ficam a generalidade dos antigos campeões portugueses que, pelas mais diversas razões, não cuidaram de conseguir uma situação profissional alternativa à competição desportiva. É necessário estabelecer os mecanismos legislativos necessários a fim de garantirem um conforto futuro àqueles que competem ao serviço do País.

Portanto, não vale a pena andar-se a chorar lágrimas de crocodilo relativamente aos degradantes acontecimentos relativos à IAAF nem a esconder o que se está a passar em Portugal. A resolução do problema passa por novas mentalidades, novos processos e novos objetivos. Não é com ideias que foram as grandes responsáveis pelo estado moral lastimoso em que o desporto se encontra que, alguma vez, será possível construir uma nova agenda para o desporto.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
Ler Mais
19:51  -  13-12-2015
João Wengorovius Meneses e o Aniversário Neokitsch do COP (artigo de Gustavo Pires, 25)
23:18  -  29-11-2015
Uma Nova Agenda para o Desporto (artigo de Gustavo Pires, 24)
21:14  -  22-11-2015
O XXI Governo e a Galinha das Medalhas Olímpicas (artigo de Gustavo Pires, 23)
19:12  -  08-11-2015
O Catalisador Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 22)
15:53  -  26-10-2015
Educação Física & Desporto: Um Absurdo Epistemológico (artigo de Gustavo Pires, 21)
18:07  -  20-09-2015
Programas Eleitorais – Partido Socialista (artigo de Gustavo Pires, 19)
22:59  -  31-07-2015
A Síndrome Blatter e o Futuro do Movimento Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 17)
17:40  -  15-07-2015
Francisco Lázaro – A Primeira Morte nos Jogos Olímpicos Modernos (artigo de Gustavo Pires, 16)
16:49  -  11-07-2015
A Desgraçada Moeda Olímpica (artigo de Gustavo Pires, 15)
22:30  -  19-06-2015
Olimpismo e Direitos Humanos (artigo de Gustavo Pires, 14)
20:20  -  07-06-2015
De uma Cultura de Balneário para uma Cultura de Clube (artigo de Gustavo Pires, 13)
17:59  -  24-05-2015
Olimpismo e Cultura de Participação (artigo de Gustavo Pires, 12)
00:38  -  18-04-2015
Olimpismo e Desenvolvimento: Um Processo Amigável (artigo de Gustavo Pires, 11)
22:49  -  10-04-2015
Um Movimento Olímpico Vazio de Significância (artigo de Gustavo Pires, 10)
22:37  -  02-04-2015
Espírito Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 9)
22:27  -  26-03-2015
Thomas Bach versus Pierre de Coubertin (artigo de Gustavo Pires, 8)
16:50  -  21-03-2015
Thomas Bach e a Educação Física (artigo de Gustavo Pires, 7)
19:02  -  26-02-2015
A Educação da Violência (artigo de Gustavo Pires, 6)
15:43  -  22-01-2015
Pierre de Coubertin, Olimpicamente Neoliberal (artigo de Gustavo Pires, 5)
23:58  -  14-11-2014
As Olisipíadas: Para uma Cultura de Autenticidade (artigo de Gustavo Pires, 4)
19:04  -  31-10-2014
Pierre de Coubertin e o Modelo Europeu de Desporto (artigo de Gustavo Pires, 3)
17:43  -  14-10-2014
A Competição em Pierre de Coubertin (artigo de Gustavo Pires, 2)
18:53  -  29-09-2014
«Ver longe... Ser Competente... Organizar o Futuro...» (artigo de Gustavo Pires, 1)
Comentários (0)

Destaques

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais