O Palhaço de Viena (artigo de José Antunes de Sousa, 28)

Espaço Universidade 07-01-2016 10:32
Por José Antunes
Há dias e neste mesmo espaço, falei no impressionante drama do palhaço de Viena que, sendo abençoado instrumento de riso para tanta gente, eis que buscava alívio e ajuda para a sua imensa e profunda tristeza no consultório de um famoso psiquiatra, Sigmund Freud.

Sem dúvida que este caso é bem paradigmático do sofrimento que corrói quem vive fora de si – viver no exterior, no exclusivo domínio da rijeza do físico e do despotismo inebriante do social é, afinal, viver nos arredores de si, é viver em permanente estado de fuga de si mesmo. É como a criança que morre de medo do papão escondido no escuro: quanto mais grita e esbraceja mais real e presente este se lhe torna. A fuga é o combustível favorito de nossos fantasmas.

Parece, e bastantes fontes o confirmam, que, por exemplo, nos EUA, toda a gente tem o seu psicanalista que, nas palavras do impagável e imperdível cronista brasileiro Nelson Rodrigues (1956) «se tornou tão necessário e cotidiano como uma namorada. Ou seja, antes de um desses actos gravíssimos, como seja o adultério, o desfalque, o homicídio ou o simples e cordial conto do vigário, a mulher e o homem praticam a sua psicanálise».

E, referindo-se ao futebol, o famoso cronista pernambucano observa quão carente anda (andava e continua a andar) a selecção brasileira do seu psicanalista para, de seguida, acrescentar: «cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o dedicadíssimo estado emocional do jogador. E, no entanto, (...) já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma (...) que é incontestável», porque, se pensarmos bem, havemos de concluir que é a alma «que ganha e perde as partidas».

A Rádio e a Televisão, através dos seus iluminados e inefáveis comentadores, espalham o alarme e o pânico pelos quatro cantos do mundo com o que lhes parece ser uma preocupante lesão, ainda por cima na região do joelho, do Nico Gaitán – é possivel que não possa dar o seu contributo à equipa na próxima partida.

Mas ninguém, absolutamente ninguém, liga patavina àquela silenciosa mas devastadora dor de cotovelo que chega ao ponto de inibir o inditoso portador de tal maleita na simples execução do lançamento de linha lateral.. Para não falar noutras dores, uma delas mais acima dos cotovelos e que costuma afectar sobremaneira a visão – é quase sempre o último a ver.

Há, no interior de um grupo que se dedica a proporcionar divertimento aos outros sempre quem ache pouca graça ao ofício de palhaço – como aquele de Viena.

Há, convenhamos, os mais diversos tipos, como ensina a Psicologia: os que adoram rir e ver como se riem os outros à sua custa – são os mais óbvios e lisos e a felicidade processa-se neles ao mesmo ritmo a que se processa a digestão do cozido à portuguesa. Como há os que, mesmo que queiram fazer rir, não há neles modo de vencer o nevoeiro emocional que os impede de uma genuína e divertida gargalhada. Como há os que só gostam mesmo é daquilo que a profissão de fazer rir lhes dá – muito dinheiro: «não há dinheiro, não há palhaço!». E muitos mais haverá, que é interminável a variedade dos tipos do humano.

Ora, quando é da natureza mesma de um grupo que os seus membros assumam a sua condição de palhaço o problema surge justamente quando alguém se nega prestar-se à palhaçada – que é preciso a unidade intencional na acção! Só um grupo em que todos, à uma,celebram à gargalhada a sua nobre função de divertir público e adeptos, só esse se confirma naquele seu superior e crucial desígnio de ser feliz, e, sendo-o e na medida em que o é, proporcionar felicidade aos outros.

E reduzir, meus amigos, o futebol a uma folha Excel, de esquemas técnico-táticos é forçar o palhaço a fazer rir quando, dentro de si, o que lhe apetece é chorar. Porque, como diz Holderlin, «o homem é um deus quando sonha e um mendigo quando pensa».

O psicanalista, o psicólogo, o coach tem a missão de suscitar motivos de felicidade no interior do grupo para que a devoção se sobreponha à obrigação – para que não aconteça a ninguém ter que fazer rir quando nada nele há que se ria.

Mas, não, tem que haver palhaço à força e todos eles bem arrumadinhos no espaço acanhado e insondável de um esquema táctico qualquer – mesmo que o bocejo alastre endémico pelas bancadas.

E quando, certamente por distracção, se admitiu, em dado momento, a utilidade em que alguém se ocupasse da alma dos atletas, logo haveriam de surgir avisadas vozes chamando à atenção para a necessidade de contenção nos custos: E sabem quem foi a primeira vítima deste zelo gestionário? Sabem quem foi o primeiro a ter que abdicar da sua mísera avença? Vá lá, vejam se adivinham!

Pois é. Esta gente quer toda a gente a rir, mas esquece-se que há sempre um palhaço de Viena que, apesar de tudo, chora. E basta um que chore para que dentro de todos algo passe a chorar – e as equipas que choram não podem almejar a luz da glória.

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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