A bola: uma boa metáfora humana (artigo de José Antunes de Sousa, 25)

Espaço Universidade 17-12-2015 12:18
Por José Antunes de Sousa
A bola não é só aquilo com que se joga – ela é sobretudo a expressão da verdadeira razão por que se joga! Mesmo que seja de trapo, lá no descampado de Xipamanine, ou no baldio da Munhava, um requisito há que essa bola improvisada tem que preencher – o de uma certa redondeza que permita que, alisada de picos e arestas, tanto quanto possível, ela possa minimamente rolar: que possa fluir – como a vida que àqueles garotos, imersos nessa bebedeira natural do jogo, os transforma, apesar da pastosa penúria em que vegetam, em pequenos demiurgos do sonho. Ou seja, a bola rolando na troca criativa entre companheiros de equipa visando a penetração desse território definitivo e mágico da baliza adversária é bem a parábola da vida que, em torrente, nos inunda e impele na demanda incessante de um mais que mais humanos nos faça – nessa arte única de nos transcendermos!

Se repararmos bem, a bola é uma perfeita metáfora da vida: não há jogo com a bola vazia, melhor, esvaziada – ao mínimo indício de falta de ar, é substituída por uma outra cheia – ainda que não cheia de mais. Como a vida: se vivida com intensidade a mais, corremos o risco de acabar por ela devorados – só o equilíbrio é critério de uma vida plena.

Todos falam e dependem da bola – mas só enquanto bola (bolha) de ar ela é realmente a bola com a qual vale mesmo a pena jogar. Mas ninguém joga com o ar, que isso seria ser aéreo, é com a bola – que, no entanto, bola não seria sem o ar que a enche. Não jogando com o ar, a verdade é que sem ele seria absolutamente impossível jogar: assim na vida!

Como poderíamos viver sem o ar que respiramos? Mas, infelizmente, vivemos como se dele pudéssemos prescindir. A bola é a metáfora da humana condição, ela é como o nosso corpo, veículo essencial e indispensável da nossa vivência no mundo. Mas do mesmo modo que se não pode jogar só com o couro (a casca), assim também não poderemos ter realmente vida se a limitarmos à fisicalidade objectivista de nosso corpo – é vital que a esse corpo o anime, e nisso nos animemos, o espírito (spiritus/pneuma) que dê consistência e coesão ao todo de nós – justamente como a bola, esse todo animado e redondo que nos fascina!

Veja-se como a bola, na sua airosa redondeza, nos denuncia o logro em que estultamente persistimos: querer jogar o jogo da nossa vida com a casca dela – apenas com o corpo, que, sem o espírito que o informa, de nada vale e para nada serve – a não ser para garantir trabalho aos funcionários municipais da recolha de lixo.

Fazer do corpo o tudo da vida é insistir inadvertidamente na lógica linear da porca e do parafuso, isto é na causalidade mecânica - mas bem sabemos que, na hora do aperto, não chega o mecânico para nos consertar!

Esta nossa obsessão exclusiva pela periferia, pela superfície, em vez de uma vivência em profundidade, é assim como se a nossa equipa, em jogo decisivo, teimasse em jogar só com a parte de fora da bola, sem o ar que a enchesse e lhe desse forma.

Esta nossa mania de comermos as cascas, deitando fora o fruto é a mesma tola mania de se jogar só com o revestimento exterior da bola – essencial, necessário, mas não suficiente!
Esta nossa doentia constância em instalarmo-nos na periferia, nos subúrbios da vida, que é, afinal, uma doce forma de viver morrendo, é a forma típica como vive o cabeça-no-ar, que o é não por ser só ar, mas por lhe faltar também cabeça. E ser cabeça-no-ar é o mesmo que teimar em jogar com a bola esvaziada de ar, isto é, é, paradoxalmente, o mesmo que ter a cabeça pouco arejada, fora de sítio - como a bola, com ar a mais: ambas impróprias para cumprir a sua missão. Da mesma forma que não se joga só com a «casca» da bola, mas com a bola toda, que é ainda a única maneira de alguém ser bom de bola, assim só jogando a vida no todo que ela é, se pode cumprir o desígnio dela em nós – sermos felizes! Com tudo no sítio: inteligência no movimento intencional em ordem ao desígnio de uma transcendência que faça de quem joga cada vez mais homem naquilo em que todo se joga. De contrário, «sofre da bola», seguramente – e quem sofre da bola não joga a bola com cabeça, mas com as tripas- e bem sabemos no que dá.

Da mesma forma que, em relação ao jogo, se não pode prescindir de nenhum dos elementos essenciais – nem do couro arredondável, nem do ar que lhe realiza a forma – e aí a sua verdade, assim a vida: nem podemos ignorar e negligenciar o corpo e, na sua peugada, todo o arsenal físico, técnico-tático do treino, nem, por outro lado, absolutizá-lo, pois só o espírito nos pode realmente investir na condição deste corpo que também somos. Porque temos que ser sinceros: a eficácia do todo que o jogador é não pode realizar-se a partir apenas de uma das suas partes – que o menos não pode causar o mais -, mas só a partir da realidade multidimensional que o jogador inelutavelmente é: só com a bola cheia e nunca semi-vazia se pode realmente jogar!

Da mesma forma que só há jogador jogando, só há homem vivendo – a vida não como hipóstase, como algo de que se dispõe, mas como a realidade que se é.

Jogar à bola é um modo de o homem se inventar ainda mais na arte sublime de trazer a beleza ao nível imprevisto dos pés, que é como participa de corpo inteiro no todo que se é, mas o prazer de jogar não pode sucumbir face ao despotismo de ter que ganhar a qualquer custo – que isso custa o lado humano do próprio jogo.

Em suma, sejamos todos bons de bola: no campo e na vida – sem que isso nos ponha a todos a sofrer da bola: que o futebol ajude a instalar a feira popular e não contribua para aumentar a clientela do Conde Ferreira e do Júlios de Matos.

Venha de volta a Feira Popular! Chega de manicómios!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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