Fernando Medina ou o processo da decisão política (artigo de Manuel Sérgio, 117)

Ética no Desporto 16-12-2015 16:53
Por Manuel Sérgio
Quem leve para a política um anseio inapagável de verdade, de investigação sistemática, de rigor na análise e de ética e coragem na decisão contende necessariamente com os interesses instalados e com as rotinas do absentismo, do comodismo, do carreirismo.

No caso do governo do Desporto, a nível nacional, há que ter ainda em conta o baixo nível de cultura desportiva de largos setores da população portuguesa que, no desporto, não ultrapassam um facciosismo patológico, quero eu dizer: um clubismo doentio; a deficiente gestão dos recursos humanos disponíveis, incorrendo-se assim em nítidos desajustamentos entre as aptidões dos titulares dos cargos e as qualidades exigidas para o exercício de determinadas funções; e as deficiências do processo de decisão, tanto no setor público como no privado, resultantes, sobre o mais, pela inobservância de normas de incontroversa eficácia. Os obstáculos (incluindo os obstáculos epistemológicos) resultantes desta conjugação de fatores (negativos, acrescente-se) possui causas profundas históricas e culturais.

Na Política do Espírito do Estado Novo, onde predominava, como ideologia, uma mescla de cristianismo, integralismo e provincianismo, o corpo era coisa desprezível diante das virtualidades da alma. O desporto, o corpo em ato, era olhado, portanto, com um olhar lateral pelo ditador Salazar. Será interessante reler o Plano de Fomento Gimnodesportivo para 1966-1970, editado pela Direção-Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar (Ministério da Educação Nacional): “No despacho que, em 11 de Novembro de 1963, lançou sobre a proposta de I Plano de Fomento para o Desporto Universitário (1963-1967) determinou S. Exª. o Ministro da Educação Nacional , Prof. Doutor Inocêncio Galvão Teles, o estabelecimento de um plano mais geral de fomento do desporto, de carácter pluri-anual (…). Foi assim decidida a elaboração de um Plano de Fomento Gimnodesportivo, cobrindo o período 1966-1970”.

E continuava mais adiante o Plano de Fomento: “Acresce ainda que a experiência em trabalhos desta natureza é diminuta, mesmo quando se procura aproveitar algo dos ensinamentos estrangeiros. Trata-se de um domínio onde há que ensaiar caminhos e actuar com verdadeiro espírito pioneiro, o qual alie o rigor científico à permanente decisão de avançar, mesmo quando a adopção daquele rigor não for viável”. Portanto, só na década de sessenta do século passado, se elaborou, em Portugal, o I Plano de Fomento Gimnodesportivo (1966-1970), depois do I Plano de Fomento para o Desporto Universitário (1963-1967). Era então diretor-geral da Educação Física, Desportos e Saúde Escolar o Dr. Armando Rocha, um dirigente de excecionais qualidades de liderança e de estudo. A ele se deve (digo-o eu que, na modéstia dos meus recursos, fui seu colaborador) – a ele se deve, principalmente a ele, um desportista sem mácula, este I Plano de Fomento Gimnodesportivo. Portanto, só tarde (muito tarde!) Portugal acordou para um Plano de Fomento Gimnodesportivo- E no meio de muitos dissabores, de muitos mal-entendidos, de muitas envenenadoras suspeitas.

Mas nunca é tarde, reconheçamo-lo, para seguir o melhor caminho. O Dr. Armando Rocha abriu uma estrada de seguro piso e de amplas perspetivas, que contribuíram, sem favor, ao desenvolvimento posterior do desporto nacional. Hoje, salvo melhor opinião, nos processos da decisão política e visando a obtenção da eficácia, seleciono quatro pontos que me parecem fundamentais:
1. Sentido das prioridades e urgências.
2. Atitude eminentemente ética, perante os problemas.
3. Investigação rigorosa dos factos e dos condicionalismos que os rodeiam.
4. Existência de recursos materiais e humanos.

No cotejo com os países mais desenvolvidos, Portugal encontra-se na situação peculiar de ser forçado a resolver problemas que, para outros países, são já do passado, ao mesmo tempo que enfrentamos outros que para eles, como para nós, são problemas do futuro. No entanto, não podemos descambar numa “apagada e vil tristeza”, transferindo as causas do nosso atraso desportivo só para o Governo anterior e deixando de criar motivações, potenciar energias, conjugar esforços, visando as transformações que se anseiam na sociedade portuguesa. Fernando Medina, atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, em entrevista ao jornal A Bola (2015/12/12), conduzida pelo jornalista e escritor Miguel Cardoso Pereira, é bem um exemplo de como criar entusiasmos e mobilizar energias, tendo em conta os objetivos que se procura alcançar.

Ao comentário do jornalista que lamentava o atraso de Lisboa, em comparação com outras capitais europeias, na prática do lazer desportivo, ou de uma prática saudável do desporto-para-todos, Fernando Medina acrescentou que Lisboa está “mais atrasada mas a recuperar. Mas nem por isso digo que está mal, porque não seria verdade: quem circula de bicicleta, à noite, vê muitas pessoas a andar de bicicleta e a correr, a horas improváveis”.

O jornalista insistiu: E como sabe? E Fernando Medina: “Porque também o faço”. E, perante a surpresa de Miguel Cardoso Pereira, prosseguiu: “De facto, ando de bicicleta pela cidade, à noite. Antes, o meu desporto preferido era o ténis, mas as raquetas estão agora encostadas, falta-me tempo Mas uso a bicicletra sempre que posso. É uma ótima forma de lazer e exercício e ainda tem outra vantagem. Sabe qual?”.

Neste passo, o jornalista murmurou, sorrindo: Não! E Fernando Medina esclareceu: “Permite-me fiscalizar, sozinho, o andamento de obras, a meio da noite. Vou tirando fotografias ao que não está bem e envio-as aos responsáveis, para que tratem dos assuntos. A bicicleta é até um importante apoio para a gestão da câmara”.

E, finda a leitura da entrevista que versou outros temas, como o sonho de fazer de Lisboa a sede da Volvo Ocean Race e ainda o indefectível benfiquismo do presidente da Câmara da capital, haverá que pôr em realce os 99% de “transpiração” que, no dizer de Einstein, fazem o génio. È preciso muito trabalho, para poder erguer-se do nada uma obra de realce. No entanto, se a bondade de uma decisão se vê pela sua adequação ao real, esta adequação não se realiza se quem decide não se fundamenta, também, no conhecimento científico e no conhecimento prévio da situação que é preciso trabalhar e de competentes assessores e funcionários. De facto, a justeza das soluções não depende apenas dos dirigentes, depende, em larguíssima medida, também, repito-me: de funcionários competentes, de uma administração capaz e dos instrumentos apropriados.

Ora, se existem já, nas nossas universidades, cursos de Gestão do Desporto, há a garantia de funcionários e técnicos, em Portugal, capazes de concretizar as medidas sábias (admitamos que o são) dos dirigentes. E uma vez mais sou tentado a acrescentar: há necessidade de mulheres e homens que, como técnicos especializados, sejam a prática eficaz da teoria dos seus dirigentes.

A Câmara Municipal de Lisboa beneficia hoje da competência, que me parece indesmentível, do seu presidente. Mas, porque “um homem só não vale nada”, como o escreveu, há um bom par de anos, o Manuel da Fonseca, porque precisa de descentralizar, de conferir autoridade aos escalões “inferiores” de decisão – no que à “coisa desportiva” diz respeito, bem é que tenha em conta, para a gestão do desporto, os licenciados e mestres e doutores em Gestão do Desporto.

E não só o Dr. Fernando Medina, os clubes e as autarquias deste país têm hoje ao seu dispor técnicos, com a qualificação suficiente para o desempenho de tarefas deste jaez. Aliás, pelo que li, na entrevista que motivou este meu artigo, o Dr. Fernando Medina sabe perfeitamente (melhor do que eu) o que fazer, no capítulo da gestão autárquica do desporto. Mas, no nosso país, a “cunha”, o favoritismo, a influência política ainda prevalecem, por vezes...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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