O moderno Olimpo (artigo de José Antunes de Sousa, 22)

Espaço Universidade 26-11-2015 14:42
Por José Antunes de Sousa
Corpos celestes suspensos de um firmamento, todo ele de um azul feito de uma lonjura que ilude o infinito do cósmico espaço foi algo que, desde sempre, suscitou a curiosidade e admiração do homem, como o atesta o lendário episódio de Tales de Mileto que, absorto e fascinado pelos astros, terá caído no poço.

E, olhando para a interminável galeria de astrónomos e astrofísicos, de Copérnico a Carl Sagan, passando pelo próprio Einstein, a dificuldade está em estabelecer entre eles uma hierarquia, tal a variedade e relevância dos seus múltiplos contributos.

Mas decido-me: peço de empréstimo a um deles, Edwin Powell Hubble (1889-1953), o seu famoso telescópio para, também eu, me deleitar na rendida contemplação de uma transbordante miríade de estrelas numa calmosa noite de Agosto – mas, com uma importante precaução: não cair no poço! Ou seja, sem cair no habitual erro do nefelibata – perder de vista a linha do horizonte, perder o contacto com a terra.

E. meus amigos, é justamente disso que se trata: muita gente, garantidamente famosa, vive literalmente na lua, melhor, nas nuvens, talvez por estrelas a si próprios se considerarem: eles vivem fora da sua verdadeira realidade, vivem uma realidade virtual, aquela que pela expectância social e colectiva lhes é, a cada momento, tecida – ela resulta de uma mórfica, fantasiosa e mítica projecção colectiva, o que significa, por outras palavras, que eles são aquilo que os outros imaginam que sejam, eles são aquilo que a ínvia efabulação colectiva os obriga a ser. Sim, a fama é um perigo – e dos mais dramáticos. Vejamos:

Honoré de Balzac di-lo com percuciente argúcia: «a glória é um veneno que é preciso tomar em pequenas doses» - em doses infinitesimais, como na homeopatia – digo eu. Que é a única maneira de não nos matar, apesar de todas as sedutoras aparências de cura.

Mas voltemos aos astros e ao seu poder fascinatório, como o que sobre os antigos exerciam os deuses do olimpo: de facto, andar de cabeça no ar, como Tales, pode provocar quedas, que podem até ser bem graves, como se um olhar rendido, absorto e fixado nos deuses lá no alto denunciasse as humanas necessidades mitificadas para cuja compensação de lá acreditássemos pudesse vir-nos a garantia.

Mas também esses deuses foram, um dia, apeados e excluídos dos humanos sonhos por terem atingido o prazo de validade: o seu poder foi, por decreto imperial de Constantino, transferido, num primeiro momento histórico, para o Deus Único e Omnipotente dos cristãos de que é sugestiva demonstração a extinção dos Jogos Olímpicos, em 393, por Teodósio, justamente por conta da sua genética matriz politeísta, e, mais tarde, transferido, esse poder, para uma razão iluminada e orgulhosa.

Curioso, porém, que quando se quis dar um nome aos corpos planetários que os cientistas foram descobrindo em diversos pontos do sistema solar, foi ainda o Olimpo a fornecer os nomes de batismo! Que se trata apenas de uma curiosidade antropológica? Sem dúvida, mas uma curiosidade deveras significativa. Porque diz bem da nossa obsessiva fascinação pelos astros. A ponto de não nos contentarmos com um Messi genial – ele é o astro, argentino, é certo, mas astro! Como astro é o nosso Cristiano Ronaldo – numa hierarquia astrológica, eles estão acima das estrelas, que, embora refulgentes de luz, perdemo-nos na vã tentativa de as contar. E que dizer de uma equipa que reúne astros e estrelas de intensa luminosidade? Equipa de galácticos, nem mais – uns da Via Láctea e outros provavelmente da Andrómeda!

Mas, neste regresso ao Olimpo, a mesma saudade de uma felicidade edénica que se perdeu. E a mesma ilusão, a mesma vida meteórica, fugaz, feita de um risco luminoso, que atravessa, súbita e instantânea, esse céu límpido de Setembro. É um risco breve de uma felicidade furtivamente entrevista, mas pronta e rapidamente frustrada – ela é um risco de luz que mergulha inelutavelmente na imensa escuridão do vazio.

Temos, portanto, um problema sério – e ele está todo em que esses astros e estrelas neste caso, do firmamento desportivo, por via da ávida pressão do sistema colectivo, são levados a crer que esse flamejante risco de luz se não apaga nunca – mas apaga, e rápido!

Mas é para isso, para esse finar que caracteriza todas as estrelas cadentes, que os modernos ícones do futebol, produto alucinado da imaginação febril de uma alienada legião de fãs, não estão intimamente preparados – e não aceitam. Ora, é na aceitação, que promove a integração da realidade em nós, que reside a chave para uma vida preenchida e feliz.

Sim, deixem-me dizê-lo na companhia de Eckhart Tolle (2005): «a desgraça de se ser famoso neste mundo é que a pessoa que realmente somos fica totalmente ofuscada por uma imagem mental colectiva». É a tentação a que normalmente o famoso não resiste – a de identificar-se com a ficção colectiva.

Os humores de uma felicidade alucinada configuram um fenómeno emocional que os consumidores de droga bem conhecem: cada vez mais infelizes porque a sua felicidade está absolutamente dependente da sua cota de popularidade, que, como se sabe, evanescente como é, se apaga de um momento para o outro – como o meteorito, justamente.

Às cintilantes estrelas, aos nossos artistas da bola, uma sugestão: se se sentem inclinados a não acreditar em mim, o que acho até bastante prudente, que acreditem, ao menos, em alguém tão confiável e inspirador como Albert Einstein que, apesar de ter sido uma das pessoas mais admiradas do planeta, em momento algum permitiu identificar-se com a imagem que a mente colectiva produziu a seu respeito, constatando existir «uma grotesca contradição entre o que as pessoas consideram ser os meus feitos e as minhas capacidades e a realidade de quem eu sou e daquilo que sou capaz de executar» (Como Vejo o Mundo, trad. Rute Sampaio, Emp. Nacional de Publicidade, Lisboa, 1960).

E, olhem, que exemplos desta vida postiça, deste artificialismo letal é coisa que não falta por aí: Jaburú, (nome de pássaro exótico da paisagem amazónica e que até dá o nome ao palácio-residência oficial do Vice-Presidente da República) e que foi figura no Futebol Clube do Porto nos anos cinquenta/sessenta, acabou como um rato nos contentores de lixo do Rio; Mané Garrincha que dá nome ao Estádio Nacional daqui de Brasília, astro sem par, agonizou arrastando-se na mais aviltante miséria; George Best, astro rutilante do Manchester United, foi-se suicidando ao ritmo a que os vapores etílicos da fama se dissipavam; Victor Batista, esse assombroso astro, forte que nem Neptuno, acabou como um trapo velho nas bermas de uma vida torrencial e súbita; Sócrates, esse esteta do movimento, que acabou prematuramente nas garras do vício, como é disto tudo exemplo o próprio Maradona com os vários episódios que se conhecem. E tantos outros que confundem a sua alma com os números da sua conta bancária, a sua vida a viver com a sinfonia de vénias ardilosas de toda uma incontável multidão de aduladores: «sic transit gloria mundi!».

Meus amigos, começámos com Balzac? Pois com ele acabemos – que as boas companhias são sempre de aproveitar: «o glutão é o sujeito menos estimável da gastronomia, porque ignora o seu princípio elementar: a arte sublime de mastigar!»

Sem dúvida: A vida não é para ser engolida – é para ser saboreada! Não vá um ´morrer de congestão... Como aliás, no seu requinte hedonista, bem sabe um qualquer gourmet do Terreiro do Paço!

Brasília; 26 de Novembro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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