A roda do azar (artigo de José Antunes de Sousa, 20)

Espaço Universidade 12-11-2015 19:56
Por José Antunes de Sousa
Foi de facto enxovalhante a recente derrota europeia do Sporting perante uma equipa duplamente anónima – desde logo porque não tem qualquer nome na Europa do futebol e, depois, porque, com tão exótica designação, as pessoas desistem de a chamar pelo nome e preferem referir-se-lhe como a tal equipa da Albânia. Tão inesperada derrota, sobretudo até para os próprios albaneses, justifica que ensaiemos a seu respeito uma breve e despretenciosa reflexão, dando forma escrita a comentários que, em face de episódios semelhantes, tive oportunidade de produzir de viva voz, no contexto da minha recente actividade junto das modalidades do Benfica.

Vejamos: se repararmos bem, o que, no fundo, motiva esta comprometedora derrrota tem um nome, bem pomposo, por sinal – hierarquização de objectivos. Trata-se de uma escolha declarada e aos quatro ventos anunciada e que, aos olhos das multidões, pode até aparecer como uma opção sensata e realista: como não podemos ganhar tudo, vamos centrar as nossas energias no campeonato e as restantes competições logo se verá - é ir andando conforme se puder. Uma opção deste tipo, porém, não só não é sensata, como poderá revelar-se perigosamente insensata e contraproducente – ela é uma verdadeira armadilha: porquê?

Desde logo e primeiro que tudo, ela consubstancia um implícito e sonoro reconhecimento da própria fragilidade, de impotência, depois, porque, dentro da notória concepção do treinador, uma tal decisão implica uma outra hierarquização, bem mais arriscada e problemática, do valor relativo dos seus próprios jogadores: os que ele considera os melhores jogam na prova importante e os outros, os assim-assim, serão utilizados, como recurso, nas restantes provas – as que se decidiu não poder ganhar. E que força que estas decisões têm na mente de todos – jogadores e adeptos, incluídos!

Uma rotação deste tipo, manifestamente discriminatória e segregacionista, acarreta um efeito devastador: estigmatiza uma boa parte, diria praticamente metade, do plantel: os que só jogam nas provas expressamente secundarizadas e que, assim, em vez de se sentirem estimulados, se sentem marginalizados e desmotivados.

Não é, atenção, o princípio da rotatividade que aqui está em causa, mas sim este tipo de rotação (rodízio, no Brasil) condicionada: são sempre os mesmos a jogar na boa competição, ou eleita como tal, e os mesmos a jogar nas outras: é um tipo de rotação em que ambos os lados a rodar se mantêm fixos e não uma rotação pura em que todos passem por todos os lados da roda – a única forma de, nesse rodar, não se gerarem tonturas e enjoos!

A rotação assim faz lembrar um jogo da sorte/azar, viciado, em dia de Reis: a fava do bolo sai sempre aos mesmos!

Sejamos sinceros: que entusiasmo de um jogador que sabe que foi escolhido para este jogo exactamente por ter sido preterido no outro? Uma escolha, para ser verdadeiramente motivadora, não pode ser percepcionada pelo escolhido como um presente envenado: uma escolha não pode encobrir uma preterição. Neste caso, o jogo motivacional revela-se contraditório e viciado.

Este tipo de declaração de intenções, tão ao gosto do actual treinador do Sporting Clube de Portugal, transporta no seio um veneno que ele prório imprevidentemente se inoculou, transporta, enfim, em si, os ingredientes para o fiasco, como ele próprio pôde já amargamente constatar, num tristemente famoso gesto de genuflectida rendição em pleno Dragão!

Este ardiloso modo de elencar e prorizar objectivos, se expressa e reiteradamente anunciado, transporta em si memso o gérmen da sua pópria anulação: no anúncio vão incluídos os termos que o confirmam na sua negatividade – é o que ficou conhecido na Psicologia motivacional como a “profecia auto-realizável”. Não que se não possa e deva até fazer opções face às condições objectivas do clube em cada momento – não é aí que mora o problema. Este só surge quando essa opção é publicamente assumida e se reflecte claramente nas escolhas do treinador quando se trata de escalar as equipas para as diferentes competições. Nessas opções técnicas, acontece uma certa semiótica que reflecte a imagem que de cada um dos atletas tem o próprio treinador – e daí o seu efeito estigmatizante a que acima aludi.

Se quiséssemos arredondar esta questão que não faltará quem considere bizantina – olhe, que não, olhe, que não! – diríamos o seguinte:
Esta tão aclamada prova de prudência e realismo, mas que, no fundo, o que ela traduz é medo e falta de arrojo, dá, na prática, sobejas e eloquentes provas da sua pérfida eficiência: de uma penada, destroi, não raro, três objectivo, a saber:

Faz perigar, desde logo, a tão ambicionada conquista do campeonato, ou outra prova eleita como prioritária, ao colocar doses maciças e insuportáveis de expectativas sobre a equipa, e bem sabemos que o excesso de pressão pode paralisar e tolher os movimentos de um grupo por mais atlético que nos pareça.

Confirma obviamente a derrota, de resto, diligentemente planeada, nas competições preteridas e desvalorizadas – mesmo que se chegue à final: dói mais ainda!

E, não menos importante, provoca o enfraquecimento do grupo, ao dividi-lo entre os bons e os outros, numa espécie de maniqueísmo desportivo – e este enfraquecimento da tonicidade motivacional do grupo, que um tropel de mensagens mentais contraditórias promove, pode revelar-se fatal em toda a linha.

Lembram-se do que aconteceu ao Benfica na funesta época 2012/2913? Isso mesmo: perdeu tudo – ainda por cima, para máxima desolação, encima da linha de meta!

O que está , neste momento, pela mente a ser criado foi pela mente acreditado: e a mente humana é zelosamente obediente às ordens que se lhe dá!

A sensatez, a prudência não está no discurso alegadamente honesto e preventivo, mas num recatado e sábio silêncio.

Eu sei que o silêncio é uma arte difícil, mas é esse o caminho.

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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