Luís Filipe Vieira: ou um Benfica que enternece e cativa (artigo de Manuel Sérgio, 111)

Ética no Desporto 02-11-2015 19:27
Por Manuel Sérgio
A obra de Luís Filipe Vieira, como presidente do S.L.Benfica, é habitada, de ponta a ponta, pela força, pelo ímpeto, pela suprema e irreprimível energia de uma invulgar inteligência (e vontade) de gestor e de líder. Com um ou outro erro? Com certeza! Se não errasse, não era um ser humano! Também o José Mourinho, sem exagero: figura insigne de treinador, um dos cimos do treino do futebol, atravessa um período difícil na sua profissão, e nem por isso se poderá riscar o seu nome das mais extraordinárias figuras que percorrem a História do Futebol.

O dirigente e o treinador, de excecional valia, não o são porque nunca erram, mas porque erram menos do que os outros – errar erram todos! O padre e professor José Tolentino Mendonça (nasceu, na literatura portuguesa, um novo padre Manuel Bernardes?), vice-reitor da Universidade Católica, vem de publicar o livro A construção de Jesus – a surpresa de um retrato (Paulinas Editora, 2015). Nele colhi o seguinte: “O tipo de caracterização adotado pelo Evangelho, com as suas informações dispersas e progressivas, suas ambiguidades e silêncios, sua sucessão de peripécias é um convite ao leitor a tomar parte na sua construção. Lucas, para usar uma fórmula de Merenlath, como que encoraja o leitor a vencer as indeterminações do relato, a preencher os seus hiatos, a inferir dos traços que lhe são oferecidos uma completude de significado (…).

Mas a construção do relato supõe também a construção que o texto faz do leitor. Na verdade, o leitor não é apenas um produtor ou um consumidor, mas é um produto do próprio texto. As técnicas narrativas são ao mesmo tempo uma forma de pedir a colaboração do leitor, para a construção do texto e uma meira de construí-lo” (p. 189). De facto, o que o evangelista Lucas pretende, sobre o mais, salientar (salvo melhor opinião) é que Jesus transforma, porque também nós nos transformamos. Jesus não é o cacique, não é o caudilho que dirige uma fação ou um bando, é o anunciador de um mundo novo, onde todos cabem: brancos e pretos, ignorantes e sábios, ricos e pobres, doentes e saudáveis. Todos! E uma só metodologia ele proclama, ele reivindica: o amor! De facto, o “Discurso do Método” de Jesus de Nazaré resume-se a uma palavra só: o amor! O amor que é, acima do mais, solicitude e respeito pela complexidade humana.

Do que venho de escrever pode inferir-se que a santidade não reside tanto no êxtase, na mortificação, em orações constantes, mas na caridade, na generosidade, na solidariedade, no reconhecimento de Deus em quem mais precisa de nós. Almocei, há pouco, com o Sr. Luís Filipe Vieira. Finda a refeição e a caminho de minha casa, o que mais recordava do presidente do Sport Lisboa e Benfica não era um pensamento científico ou filosófico, bem definidos e articulados, mas um sincretismo, onde o amor pelo seu clube, comanda uma razão prática de tamanha excelência que dela se divisam inéditas e arejadas perspetivas.

Não é difícil, hoje, criar a unanimidade indispensável, em volta desta afirmação: Luís Filipe Vieira refundou o Benfica, fazendo do maior clube português um dos grandes clubes desportivos, no mundo todo. Folheio o jornal A Bola (2015/11/1) e dou especial atenção a um texto de Gonçalo Guimarães: “Foi há 12 anos, a 31 de Outubro de 2003, que Luís Filipe Vieira foi eleito presidente do Benfica, pela primeira vez, com uma vitória esmagadora sobre Jaime Antunes e Guerra Madaleno, triunfos categóricos que repetiria nas reeleições de 2006, 2009 e 2012 (…). Ao longo do ambicioso percurso, o líder encarnado de 66 anos de idade teve altos e baixos, passou por diferentes níveis de popularidade, mas a obra foi nascendo, na medida em que foi sonhada. Construído o novo estádio e recuperada a credibilidade do clube (…) o Benfica foi-se desenvolvendo e modernizando, em todas as áreas, tendo como projetos mais visíveis a construção do centro de estágio, o kit sócio, a Benfica TV, a Fundação Benfica e o Museu Cosme Damião”. São estes os títulos conquistados, no futebol: 4 campeonatos, 2 Taças de Portugal, 6 Taças da Liga e 2 Supertaças. Nas modalidades (que já foram amadoras) os títulos são incontáveis. O jornalista refere, por fim, que a mudança de política desportiva, assente na formação e a troca de Jorge Jesus por Rui Vitória não parecem convincentes, nem os resultados animadores...

Não reservo para mim (como parece ser moda no futebol) o privilégio exclusivo da Verdade, mas não tenho qualquer receio em adiantar que o futebol do Benfica tem no Rui Vitória o treinador ideal, para a fase de transformação e de crise que atravessa. “De crise?” encaram-me interrogativamente alguns leitores. Sim, de crise! Quem estuda epistemologia sabe que a passagem de um paradigma a outro paradigma supõe necessariamente um período de crise. N`A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas Kuhn é explícito: “Qualquer paradigma se situa entre uma crise prévia e uma posterior aceitação”. Voltemos a Thomas Kuhn, no mesmo livro (celebérrimo, no mundo todo): “A passagem de um paradigma em estado de crise a um novo paradigma, donde possa nascer uma nova tradição de ciência normal está longe de ser um processo cumulativo, realizável a partir de variáveis ou de extensões do paradigma antigo. É antes uma reconstrução donde surge um novo setor e novos fundamentos, reconstrução que modifica certas generalizações teóricas e também alguns métodos e aplicações do paradigma antigo”.

Quando antes da última Supertaça e do último Benfica-Sporting, eu afirmei a uma estação da rádio creio que à Rádio Renascença) que o Sporting era o favorito, não o fiz por “antibenfiquismo primário”, sentimento que em mim não tem espaço nem tempo, para desenvolver-se, em poucas palavras: sentimento que rejeito, com firmeza. Aliás, como pode deixar de admirar-se um Clube onde jogaram o Rogério, o Coluna, o Eusébio, o José Augusto, o Simões, o Germano, o Humberto Coelho, o Nené, o José Águas, etc., etc.? Afirmei-o, porque um corte contínuo, irreversível, em relação ao que fizera Jorge Jesus ainda não me parecia evidente, nos processos de jogo. O corte epistemológico já era ansiosamente desejado por Luís Filipe Vieira e já era perspetivado e antecipado por Rui Vitória, mas ainda não chegara, como valor central, ao comportamento da equipa. A nova cultura da equipa não existe fora das pessoas que a compõem. É a hora de uma liderança onde a erudição se materialize em vitórias. No futebol, ninguém ganha porque sabe, sabe porque ganha...

Luís Filipe Vieira não duvida que é principalmente pelo futebol que o vulgo (a maioria das pessoas) o julgará. A sua obra, acima referida nas suas linhas gerais, já deixa um clarão que o tempo não apagará. Mas, imediatamente, o futebol toma a dianteira, no juízo definitivo de muita gente. Por isso, disse-me ele, quase num murmúrio: “Quando deixar a presidência do Benfica, quero ter contribuído ao nascimento de um Benfica, futebolisticamente igual ao que já foi e financeiramente como nunca o foi ainda”. E continuou: “Já não me falta experiência”. E, em veemente e contida vibração: “E tenho um grande amor ao Benfica”. Tudo o que se faz de perene e grandioso assenta na lógica do amor. Toda a nossa vida só adquire verdadeiro sentido, se orientada pela norma do amor. Escreveu um teólogo cristão que “Deus só é pensável e dizível (…) enquanto aquele que é para os outros”.

Poderemos escrever, sem receio, que Luís Filipe Vieira só é pensável e dizível enquanto aquele que é para o Benfica? Não digo tanto, já que o sei um exemplar marido e pai. Um mestre inglês da filologia clássica sustentava: “Não há apenas um Vergílio: há tantos Vergílios diferentes, quantos foram os seus leitores, durante vinte séculos”. As pessoas são, para mim, aquilo que eu sou. E, ao contemplá-las, devo procurar ser simples, porque é da simplicidade que nasce a sabedoria. Como escreveu o psicanalista brasileiro Rubem Alves: “Sábios são aqueles que da multiplicidade escolhem o essencial. Simplicidade é isso: escolher o essencial”. Da conversa que tive com Luís Filipe Vieira foi o seu amor pelo Benfica que mais me impressionou. Julgo ter escolhido o essencial. Nos seus 12 anos de presidência do Benfica, render-lhe homenagem é assim um ato de justiça que a minha consciência moral não me deixa esconder.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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