A Caixa de Pandora (artigo de José Antunes de Sousa, 18)

Espaço Universidade 31-10-2015 15:56
Por José Antunes de Sousa
Sobre a polémica nada a acrescentar, que já tem fogo o suficiente e, afinal, é bem simples o que está em causa: ou as caixas oferecidas estão dentro dos parâmetros permitidos pelas instâncias que tutelam o futebol ou não –e isso será obviamente o tribunal a decidir.

Ainda assim, duas coisas parecem acotovelarem-se: de um lado, aquilo que parece ser uma prática consuetudinária ou, ainda mais eufemisticamente, uma cortesia social, do outro, uma surda mas clara censura social a seu respeito, ainda que com laivos de uma irritante hipocrisia: “os árbitros não devem receber prendas” – como o juíz, o padre ou o cangalheiro!
Certos de que estamos basicamente de acordo sobre o edificante princípio de que quem se limita a cumprir o seu dever não deve ser premiado por isso, deixemos, ainda que por momentos, a máscara de Halloween e vamos ao jogo da verdade.

O funcionário das Finanças recebe um rasgado louvor do seu chefe só porque foi duro e inclemente na tarefa de esmifrar o contribuinte, fazendo-o pagar, até ao último cêntimo, o imposto em falta, como o capitão, hábil e desenvolto nos corredores das chefias, é exaltado, em diploma de louvor, bordejado a ouro, pela prontidão e destreza com que abre as portas ao general. Claro, pois, que o problema não se coloca apenas em relação aos homens do apito. Mas convenhamos que, neste caso, há uma nuance: não é tanto o passado que se premeia e agradece, como sobretudo o futuro que se visa acautelar – como a gorjeta ao empregado no restaurante fino e onde nos propomos botar figura.

Insisto em que joguemos o jogo da verdade: quem pode jurar não ter, ao menos uma vez, feito uma pequena oferta com a intenção de comover ou impressionar? Que lance a primeira pedra. A minha avó, por exemplo, mulher temente a Deus como nunca vi, levava galinhas para sua comadre e mãe dos pastorinhos de Aljustrel (Fátima), na esperança, quem sabe, de, pela via da estridência do galináceo caraquejar, conseguir uma “cunha” junto da celestial Medianeira dos pecadores e assim, adiantar um pequeno crédito no livro do deve-e-haver da salvação. A minha mãe levava repolhos, ovos e feijão-verde a casa da Dona Fernanda, a minha professora da primeira classe, talvez com a oculta intenção de prevenir a magistral clemência para meus eventuais entorses na caligrafia.
O suborno, meus senhores, é tão antigo como Judas – ou ainda mais, com o atesta a dança erótica de Salomé, com a clara intenção de, por via do transtorno libidinoso, fazer o Rei Herodes ceder às pérfidas exigências da sua amante e mãe da insinuante jovem: a cabeça de João Batista, numa caixa, perdão, numa bandeja – nada escondido, tudo às claras!

No Império Romano, o insuspeito Marco Túlio Cícero gababa-se de ter ficado milonário ao fim de um ano como governador de província, confirmando assim o que o próprio Séneca escrevera, que pilhar as províncias como governador era “o caminho senatorial para o enriquecimento”: à mulher de César não basta ser séria, é preciso paracê-lo.
Ainda há dias, um antigo professor de matemática, aqui no Brasil, me confessava que, várias vezes teve que erguer heroicamente a sua couraça de uma Étca inabalável para fazer frente a explícitas ofertas sexuais por parte de alunas, ostensivamente bem nutridas de argumentos não propriamente silogísticos e com muito mais queda para a poesia ditirâmbica do que obviamente para a frieza dos números.
E já viram como cresce substancialmente o número de mini-saias na primeira fila de uma sala de aulas em dia de exame, como, a seu tempo, pôde comprovar, por exemplo, John Watson, o flamejante inspirador da corrente behaviorista?

Observem, por exemplo, a indumentária (ou a falta dela) das jovens que se acotovelam e comem o que resta das unhas no corredor de um casting para uma telenovela – ou outra coisa do género.
Tudo, meus amigos, porque há uma crença firme na fraqueza de quem julga e decide e no seu irresistível fascínio pelas coisas da carne e do mundo – muito mais atraentes do que um secreto e solitário dever imposto por uma ética que já não garante o céu.

Ponhamo-nos, portanto, de acordo: fazem-se ofertas porque se crê que não há quem não as aprecie ou quem lhes resista. Inocente o gesto? Ele funda-se na crença, sociologicamente dominante, no quão excepcional é nos homens a prática das virtudes – por isso se crê na franca possibilidade de que quem é obsequiado ceda aos mimos da carne.

Vejamos, em esquema, o mecanismo motivacional do suborno: para além de ser fraca a carne (Mt 26:41) e nisso em uníssono se acreditar, a subjectividade surge como refúgio inexpugnável: por um lado, na medida em que veicula uma intenção, secreta e íntima, ela é inverificável e, nessa medida descartável e desvalorizada à luz de uma concepção monista e segundo a qual apenas há o material que se confina à exclusiva existência da matéria processada por uma causalidade ascendente na dimensão espacio-temporal com o único desígnio teleonómico (não teleológico, atenção!) de garantir a sobrevivência da espécie. Mas, por outro lado e paradoxalmente, é debaixo da umbela protectora dessa inconfessada intenção subjectiva que o autor, activo ou passivo, de suborno se crê a salvo de qualquer pena legal: foi apenas uma cortesia, ou, se a coisa é mais grossa, o dinheiro recebido foi para recompensar um importante serviço prestado.

De facto, num tempo fragmentário, da impermanência, volátil e anómico, como é o que estamos a viver, a Ética, em vez de ser entendida como um desígnio estruturante do humano, a expressão existencial de um valor arquetípico, como é a justiça, o amor, abondade, é, antes, e quando muito, sentida como expediente aquietante de escrúpulos de uma má-consciência, ou, como não, como ingrediente ressoante de sonoridade social.
Um passo ainda, se estiverem de acordo: com a gratificação, se repararmos bem, é sempre um favor a nós mesmos que, em última análise, nos fazemos: gratifica-se o porteiro para que, da próxima vez, nos deixe entrar sem pagar. E, um passo mais na nossa tortuosidade, ainda mais ínvia e enigmaticamente: levo flores a amigo internado? No aparente e até comovente gesto de afecto, a gratificação por não ser eu a ocupar a vaga do hospital – como no ramo de flores depositado sobre o túmulo que celebra menos a memória de quem partiu do que a sorte de quem ficou – ainda!

Mas voltemos ao assunto da caixa: todos temos em mente o que aconteceu com Pandora que, incendiada por dentro pelo fogo que Prometeu, em contravenção com as ordens de Zeus, lançou no mundo dos humanos, não resistiu ao impulso da curiosidade e abriu a caixa, tendo, com isso, soltado todos os males que se espalharam maleficamente pelo mundo – todos, menos um, a esperança, que há quem considere um mal, por alegadamente propiciar uma visão superficial do futuro. Eu, não, considero que a esperança, num mundo em cacos como este, é um bem inestimável, a única razão para o homem seguir em frente – e também o futebol!

Dessa caixa mítica soltaram-se todos os males – e um dos piores é o da «dissociação», o pecado mais grave da modernidade (Ken Wilber,1998) e que consiste em relegar o «olho» da mente/moral e da alma/arte para o domínio do quimérico, desconsiderando os valores que dão propósito e significado à vida humana.E, com esta desgraça, veio o relativismo, a violência e a rejeição do outro, o absoluto do sucesso material e social, o idolátrico primado do lucro e, com ele, a absolutização, à força, da vitória.

E numa sociedade, dominada pela concepção de uma moral sociologista e utilitarista, ao jeito de Jeremy Benthan, e que remete a Ética para a esfera acanhada e irrelevante do privado e subjectivo, em vez de, à boa maneira kantiana, ver na máxima a condição universal da sua obrigatoriedade, que pode significar a tão falada verdade desportiva? Nada! Verdade só a que fica registado nos anais da história – a dos vencedores. O que importa mesmo é o resultado: é o império despótico do facto sobre a qualificação da intenção que o promove!
E eis de volta Maquavel, o mesmo que, impressionado com a desvalorização operada por Copérnico do que fora até então o sacrossanto dogma da geocentralidade do nosso planeta, aos homens, que até então pareciam girar em torno do céu, pô-los a girar em torno de si mesmos e das suas ambições imediatas: o que importa é atingir o fim que se pretende – que os meios todos servem. Ao homem, que tinha o hábito de voar alto, pô-lo a voar baixinho - se a isto se pode considerar voar.
Mas temos o exemplo das aves: as que voam rasteiro nunca vão para muito longe – só as que voam alto!
Porque só do alto se vê bem: que «vê mal quem só vê o que se vê bem»!, avisa Vergílio Ferreira que gostava de ouvir os relatos da Académica, mas detestava este engodo comercial em que a arte da bola se tornou.


Brasília, 28 de Outubro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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