Artista ou robô? (artigo de José Antunes de Sousa, 17)

Espaço Universidade 25-10-2015 09:48
Por José Antunes de Sousa
Claro que, no plano dos princípios, todos estamos genericamente de acordo que tem toda a pertinência epistemológica situar a modalidade desportiva, qualquer que ela seja, mas, no nosso caso, o futebol, no âmbito das Ciências Humanas. Só que, como é próprio da nossa teimosa incoerência, as coisas mudam de figura quando se trata de retirar de tão nobre estatuto as devidas consequências.

Também, por exemplo, a Economia entra no cardápio das ditas Ciências Humanas e bem sabemos como é desumanizante a obsessão tecnocrática de muitos dos encartados economistas de querer submeter o estremecimento existencial do homem concreto ao primado rígido do cálculo e da previsão – que, por sua vez, prossegue, mais que tudo, o desígnio do aprovisionamento…de capital! E, nesta sua fixação nos números, resvala para a mais crassa desumanidade: a de considerar o homem um número também!

A presunção racionalista (que consiste em ver na razão lógica a instância decisiva e decisória de todo o humano e a linha de água de toda a realidade) de querer determinar à luz de um critério lógico aquilo que escapa invencivelmente à lógica mais elementar constitui o trágico paradoxo em que a nossa sociedade científica teima em revolver-se – na Economia como na área-fronteira das Neurociências!

Um exemplo? Aqui vai um de todos os dias: os treinadores, convencidos que tudo se decide exclusivamente a partir do compêndio da faculdade (quando é o caso) e da sua acumulada experiência, fecham os seus atletas numa sala escura horas a fio a visionar vídeos dos adversários, como se isso fosse a chave para a vitória no domingo seguinte. Faz lembrar duas coisas: os lutadores romanos que, antes de entrarem no coliseu, passavam pelas jaulas para verem as feras pelas quais iriam provavelmente ser devorados ou, como assinala Paul McKenna (2009), "é como descer a rua com um pé no acelerador e outro no travão".

Gostaria até de ilustrar este clássico equívoco com o seguinte caso: o famoso treinador de futebol americano, Vince Lombardi, ao assumir as suas funções nos Green Bay Packers, a primeira coisa que fez foi determinar que, dali em diante, os únicos filmes que a equipa poderia ver seriam os dos seus próprios jogos mais bem sucedidos e, de entre estes, só mesmo os melhores. Resultado? Os Green Bay Packers venceram as duas primeiras Super Bowls e tornaram-se numa das melhores equipas da história do futebol americano.

Eis a ironia: na nossa mania de levar à letra as nossas lógicas inferências esquecemos ou, pior ainda, ignoramos que é da natureza da mente humana levar à letra as mensagens que lhe damos.

Como desumanizante é, por outro lado, a própria lei, como bem verificou Aristóteles, concebendo-lhe um paliativo que dá pelo nome de equidade: tratar de modo diferente o que é diferente. A lei, quando absolutizada, ela desencarna-se – ela petrifica e congela a quem a ela se submete. A lei, quando enredada no absoluto da sua normatividade, ela paralisa.
Regressando agora ao nosso tema, verificamos que o futebol tem, como sabemos, a caracterizá-lo precisamente um baixo índice de normatividade: as suas regras, de tão simples, são um convite a uma generalizada prática por todo o mundo, ou seja, a sua transversalidade sociológica vem-lhe da facilidade com que as suas regras constituintes são por todos apreendidas. E é essa simplicidade genética associada ao facto revolucionário e imprevisto de se jogar basicamente com a parte mais improvável do corpo, os pés, que tornam esta modalidade tão fascinante e apaixonante.

O futebol é matricialmente um espetáculo de uma série intencional e agonística de uma combinatória de movimentos sobretudo acrobáticos – que é sem dúvida acrobacia deslocar a atividade inteligente e intencional do seu clássico e natural ponto de aplicação, as mãos, para as irrelevantes extremidades, culturalmente subestimadas, os pés.

Dir-se-ia, pois, que o que acima de tudo, caracteriza o futebol é o seu padrão transgressivo, e bem sabemos como é sobretudo da imaginação que qualquer transgressão se alimenta. Um jogo de futebol foi, na sua origem, uma disputa certamente entre dois blocos de vontades, mas também uma espécie de passadeira rolante de imaginações – qual delas a mais fértil e criativa.

E enquanto se manteve o primado do espetáculo de índole multitudinária, com o recinto a rebentar de êxtase e emoção, o fascínio do jogo estava sobretudo na criatividade dos seus protagonistas – até que esse espetáculo, através da sua massificação mediada pelo audiovisual, virou acima de tudo negócio que há que vender e distribuir ao domicílio. Um negócio colossal que veio mercantilizar irremediavelmente o lado fascinatório do futebol, aprisionando-o nas garras omnívoras de um capitalismo que, absolutizando o lucro, absolutiza perigosamente a vitória – e eis como Maquiavel entra em força no futebol: ganhar custe o que custar é a única coisa que importa!

E com Maquiavel veio toda uma geração de pedreiros táticos do sucesso, treinadores que, para manterem o seu lugar e para garantirem os milhões que dão as vitórias, não hesitam em espartilhar as suas equipas, rendidas ao poder normativizador da ordem unida, do escalonamento das pedras no tabuleiro como se de xadrez se tratasse. Em suma, hoje verificamos que é cada vez mais nítido e perigoso o contraste entre a tal normatividade agonística, que é, como vimos, fraca, e o excesso de normativização técnico-tática, cada vez mais determinante e generalizada. E, embora ainda vá havendo lugar para o gênio – que ao gênio não há norma que o limite – o certo é que a tendência é para vermos espetáculos cada vez mais estandardizados e monótonos sob o olhar detectivesco de um qualquer xeque saudita sentado, de óculos escuros, na bancada do clube acabadinho de comprar com as sobras dos petrodólares. O controle é, pois, cada vez mais económico, determinado pelo jogo esotérico de inconfessáveis interesses em cujo altar a criatividade dos atletas tende cada vez mais a ser sacrificada.

Porquê? Simples, dramaticamente simples: é tanto (tantos milhões!) o que está em jogo que perder deixa de ser um acidente natural para passar a ser uma catástrofe que urge evitar a todo o custo. Por isso, o treinador mais do que o maestro de uma sinfonia em movimento é, agora, sobretudo um agente de negócios.

Esta despudorada mercantilização do “produto” oferecido pelo futebol está a desvirtuar e a empobrecer o próprio espetáculo que é a razão mesma da adesão popular e, paradoxalmente, a enriquecer aqueles que, servindo-se do engodo e entusiasmo populares por esse espetáculo, cada vez o vão descaracterizando e desvalorizando mais. A avidez capitalista corre o sério risco de devorar e, insensatamente, liquidar o que até aqui fora o seu próprio alimento.

Uma evidência, porém, aconselharia um maior pudor e uma maior temperança do capital nesta captura do espetáculo do futebol – é que é ainda dos pés dos jogadores mais criativos que saem as razões para o que vai sendo ainda um bom negócio. Urge, porém e enquanto é tempo, travar esta maré de crescente robotização do espetáculo futebolístico – que as estrelas podem cansar-se: e sem elas o céu fica escuro.

Brasília; 20 de Outubro de 2015


José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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