Um novo Tordesilhas (artigo de José Antunes de Sousa, 15)

Espaço Universidade 08-10-2015 20:32
Por José Antunes de Sousa
Do pouco que consegui ouvir na rádio – que a distância e o fuso horário não me permitem mais – nem uma palavra sequer. A verdade, porém, é que os nossos miúdos do stick não se limitaram a uma «gracinha», isto é, não foi um mero e casual empertigamento juvenil aquilo que eles acabam de protagonizar – ainda por cima, em pleno território hostil: eles reincidiram no feito e, numa inequívoca demonstração de familiaridade mental com o sucesso, proclamaram-se bicampeões mundiais precisamente contra os homólogos espanhóis em final de incerteza e de incandescentes emoções e num dos mais fiéis e arrebatados bastiões do hóquei patinado ibérico – em Vilanova.

Eis, porém, que tudo se passou como se um grupo anónimo de rapazolas, de venta empinada, tivessem, à socapa, atravessado a fronteira a salto, como os emigrantes dos anos sessenta e, numa clandestina tirada de arreganho e ousadia, tivessem arrebatado um troféu que parece não ter entrado, de todo, nas contas dos «media», certamente muito mais interessados na crise existencial do Chelsea de Mourinho em penoso teste em Newcastle, nem, se calhar, nas contas de aritmética de alguns responsáveis, à excepção dos treinadores, com Luis Sénica à cabeça. E eu sei bem que eles acreditaram – como o Bella Gutmann naquele temerário assalto aos inexpugnáveis bastiões da Catalunha e de Castela, concretizando aquelas épicas conquistas que deixaram Europa e o Mundo possuídos de um espanto que pronto se tornou êxtase.

Foi, de resto, uma década paradoxal, aquela – ao jeito do próprio país: ao mesmo tempo que, aflitos e aos magotes, os portugueses atravessavam o risco do medo e da aventura em busca de mais e melhor vida, eis que um punhado de portugueses, feitos da mesma massa, impunham, no centro de uma Europa rica, a sua lei e o fascínio contundente da sua arte. Numa mesma altura em que literalmente o país calcorreava as veredas do desconhecido, de mão estendida a uma Europa de barriga cheia, um clube, com camisolas de um vermelho de sangue montava o seu trono em plena praça-forte dessa Europa espantada e rendida. Como se com as caravelas, lançadas em demanda da imensidão do desconhecido, se irmanasse o ardor universalista de uma certa grandeza mitogénica, de um pais que teima em se encontrar não no limite do chão a que agarrar-se, mas na linha sempre fugidia de um horizonte sempre novo – de um destino a cada passo reinventado.

É assim mesmo: há na alma lusíada um não-sei-quê de ingénita grandeza que a torna modelar neste seu aparente paradoxo: damos sempre algo, mesmo quando nos vemos forçados a pedir - e talvez more aí a chave para o «enigma português». Nós damos mais mundo ao mundo mesmo quando é mais mundo o que procuramos – como aconteceu com a nossa dádiva chamada Brasil!: «Portugal começou a crescer a partir de 1822, quando o Brasil proclamou a independência, porque começou a ser a possibilidade de vários» (Agostinho da Silva,1987).

Também estes jovens que, naquele seu bailado em carrossel, acabaram de dar como que uma certeira bofetada no rosto adormecido de um país letárgico que nem o folclore das arruadas logra despertar, eles acabam de reeditar um certo tratado de Tordesilhas, dividindo, como naquele longínquo dia 7 de Junho de 1494, com os espanhóis o ceptro do domínio sobre o mundo desta graciosa modalidade, o hóquei em patins.

E, em homenagem ao feito dos nossos rapazes e porque importa algo fazer para travar e inverter o trajecto de decadência desta modalidade, para grande desgosto da maioria dos portugueses, saudosos das conquistas de Adrião, Livramento ou, ainda mais para trás, do Raio, Sidónio, Olivério ou do Cruzeiro, aqui retomo o que, num outro texto e numa outra situação, escrevi sobre esta modalidade querida dos portugueses – e para que se entenda que não é apenas uma ´pieguice mais de um qualquer provincianismo – não: merece mesmo as atenções do audiovisual e das entidades que tutelam o desporto internacional, nomeadamente do COI: «É, sem dúvida, um jogo admirável: beleza, velocidade, equilíbrio circense, emoção a rodos.

É um contínuo baile em carrossel, ao jeito da valsa, sobretudo quando interpretado por jogadores de elevado virtuosismo, criatividade e sincronismo colectivo, como é o caso dos portugueses, mas também argentinos, italianos e espanhóis. Mas tem também muito de imprevista repentinidade, o que torna esse bailado em algo de excitante e surpreendente – tudo factores que promovem o instantâneo envolvimento da assistência no próprio espectáculo. E a que se junta o facto de ser tão pequena a baliza, quase literalmente coberta pelo corpo do guarda-redes, agachado à sua frente, na heróica missão de evitar a penetração do adversário no seu território definitivo, materializada no golo.

É contudo noutros factos que se encontra a original particularidade deste espectacular desporto. Desde logo, verifica-se esta singularidade: com a óbvia excepção do guarda-redes, em momento algum o corpo dos jogadores contacta directamente com os elementos materiais essenciais do jogo – bola e ringue. Enquanto que o contacto com a bola é mediado por um estranho e imprevisto adereço, o stick, o contacto com o solo, com o piso, é mediado pelos patins.

Claro está que esta interposição de elementos exige dos executantes uma dose suplementar de sensibilidade, uma excepcional coordenação psicomotora e uma particular plasticidade instantânea, isto é, uma grande disponibilidade cognitiva para, a cada instante, inventar a melhor opção para o desenvolvimento do jogo.
Trata-se, pois, de um desporto vibrante, que, pelo seu padrão operatório, algo bizarro e transgressivo (conduzir a bola com um pau preênsil, como se fosse uma garra, e, deslizando velozmente e em ziguezague em estilo serpentino) provoca grande excitação nos espectadores». (Antunes de Sousa, 2010).

Afinal, nós sempre fomos bons no manuseamento e no jogo do pau – desde os tempos de Viriato em que a pedra e o pau constituíram sistema de armas temível. Ou como, mais tarde, veio a exemplificar a Dona Brites de Almeida, a famosa Padeira de Aljubarrota que, ao que consta, os aviou à espadeirada – que é o modo como o pau vira espada!

De resto, como versão artística e etnográfica dessa nossa natural habilidade para o pau aí temos os «Pauliteiros de Miranda».
Ou, como aconteceu, neste dia 26 de Setembro em Vilanova: a bravíssima equipa sub 20 de hóquei em patins a quem dirijo as mais calorosas felicitações.

Ou como vem acontecendo ultimamente num Sporting ressurgido das cinzas, ou sobretudo como vem acontecendo, de forma sustentada, no Benfica em que, sob a batuta competente do engº José Trindade, em meia dúzia de anos, assistimos à conquista de quarenta e nove títulos incluindo o inédito feito de tudo conquistar logo no ano de estreia no feminino sob a astuta condução do Paulo Almeida – tudo isto consubstancia um feito notável e portador de uma renovada esperança na reabilitação sociológica desta bela modalidade.

E, já agora, sejamos pragmáticos: o hóquei é uma preciosidade cultural, artística e desportiva de Portugal – como o bacalhau! Ora, se o bacalhau tem uma garbosa Confraria (como o vinho do Porto, ou o Alvarinho) que luta galhardamente contra os desvarios da normativização, por que não uma qualquer Confraria para salvar o hóquei da irrelevância desportiva em que as instâncias internacionais e as televisões do próprio país a querem afundar?

Que venha uma nova Padeira...

Brasília; 8 de Outubro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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