Os treinadores portugueses no futebol internacional (artigo de Manuel Sérgio, 107)

Ética no Desporto 06-10-2015 16:25
Por Manuel Sérgio
Embora um ou outro medíocre, ou retórico, ou rábulo, pessoas há, na crítica desportiva, em Portugal, de grande curiosidade intelectual e que já procuraram, numa atitude cheia de movimento e de intenção, os motivos dos êxitos dos treinadores de futebol portugueses, no nosso país e por esse mundo além. Folheia-se A Bola, de 1 de Outubro de 2015, e é o jornalista José Manuel Delgado a salientar o trabalho primoroso de Rui Vitória, no jogo Atlético de Madrid-Benfica: “Rui Vitória. Organização perfeita, equipa (quase) sempre junta (complicados os primeiros minutos), tremenda disciplina tática e uma solidariedade entre os jogadores, capaz de ombrear com o Atlético de Madrid de El Cholo Simeone”.

Sobre Marco Silva, treinador do Olympiakos, de 38 anos de idade, pode ler-se, no mesmo jornal, a prosa seguinte de David Pereira: “Marco Silva está em alta. Com a surpreendente vitória de anteontem, no terreno do Arsenal (3-2), o seu Olympiakos tornou-se a primeira equipa grega a vencer em Inglaterra na Liga dos Campeões e limpou o registo de 12 derrotas em outras tantas visitas a adversários ingleses. O presidente do emblema do Pireu, Evangelos Marinakism admitiu mesmo que se tratava da maior vitória da história do clube de Atenas”.

De acordo com a imprensa grega, os adeptos do Olympiakos já entoam cânticos, em louvor de Marco Silva. Não relembro, neste momento, por desnecessário, o prestígio do José Mourinho, pois que é, para muitos estudiosos (onde eu me incluo) o melhor treinador do futebol atual. De facto, até eu já dei entrevistas a televisões das cinco partes do mundo, que de mim se aproximam, no intuito de vislumbrar o que há, na prática profissional de José Mourinho, que possa radicar, nos meus ensinamentos de seu velho professor.

Respondo sempre com a mesma convicção; “Nada! Nunca ensinei futebol a ninguém, nem me sentia com o saber suficiente para ensinar futebol a um homem de inteligência invulgar (podem crer), como o José Mourinho”. De Manuel José, Henrique Calisto, Carlos Queirós, Leonardo Jardim, Vítor Pereira, Nelo Vingada, Manuel Jesualdo Ferreira e tantos mais são também muitas as vozes que se escutam de incontida admiração, pela lição admirável do seu trabalho, aquém e além fronteiras.

Mas, o que têm os treinadores portugueses que os outros não têm? Mais conhecimento? Na Sociedade do Conhecimento da Era da Informação, que é a nossa, quem sinta dentro de si um inveterado e ardente amor pelo estudo e pela investigação, em circunstâncias sociais e políticas favoráveis, tem sempre a informação que procura. Pep Guardiola, se é verdade o que nos diz o escritor catalão Enrique Vila-Matas, é um profissional de informação cuidada e atenta.

Mas, no mundo do futebol (isto aqui muito à puridade) o papel do intelectual resume-se a muito pouco, já que poucos lhe dão crédito. E, segundo o Enrique Vila-Matas, não só no futebol: “Os intelectuais mais lúcidos estão conscientes de que a elite a que pertenceram – a intelligentsia, esse estrato social que tem as suas origens mais longínquas nos guardiões da República platónica – está profundamente desanimada.

Todos eles vêm constatando, desde há décadas, que tudo o que dizem e fazem não é ouvido, que se resume a uma proporção muito pequena de leitores, de estudantes, de eleitores, ou de opinião pública. Pessoas de grande exigência intelectual e robusta inteligência estão hoje plenamente conscientes de que o seu destino na vida – explicar o que entenderam e que os outros não compreendem ou não querem ver – não serve para nada, porque aos outros não lhes diz respeito, nem o compreendem, nem o querem saber” (Diário Volúvel, teorema, Lisboa, 2010, p. 265).

No futebol, confunde-se o intelectual como um retórico, de ricas e elegantes imagens, mas que nunca deu um chuto numa bola, nem sabe o que isso é. Trata-se de uma tolice (ninguém está livre de dizer tolices, o imperdoável é dizê-las solenemente!). De facto, o intelectual é o que sabe teorizar a prática, ou fazer trabalho interdisciplinar com os práticos, assumindo, em ambos os casos, um caráter especulativo, prescritivo e crítico. Para mim, há necessidade de mais intelectuais, no desporto, designadamente os que o estudam como uma questão, antes de tudo, antropológica e política...

Este artigo espelha bem a minha carreira didática: as minhas aulas eram pouco fiéis ao tema principal da lição e (eu pecador me confesso) raramente apresentava aos alunos um plano rigorosamente articulado, ponto por ponto. Vou quedar-me portanto, agora, sem mais delongas, na interrogação inicial: por que merecem os treinadores portugueses tamanha aceitação, no futebol internacional? Só porque o José Mourinho é português? Sem pôr em causa o contributo inquestionável dos êxitos do José Mourinho ao prestígio dos nossos treinadores, o assunto merece pesquisa mais detalhada.

A “educação de qualidade” de alguns dos treinadores portugueses, com licenciaturas e mestrados e doutoramentos, em Faculdades de Desporto; o bom nível de exigência dos cursos de treinadores, em Portugal; ex-jogadores que, porque muito sentiram e sofreram e viveram, muito aprenderam a discernir e a pensar o futebol – são itens a ter em conta, na análise desta problemática.

Há muitos anos já, procurei dar forma e fundamentação epistemológica ao difuso, ao vago e ao informe dos cursos universitários de Educação Física e Desporto e, no sentido de tornar inteligível esta área do conhecimento, rapidamente me encontrei no seio das ciências hermenêutico-humanas, já que não há jogos, há homens (e mulheres e crianças) que jogam. E, nesta mesma linha de pensamento, é o homem (e a mulher) que se é que triunfa no treinador que se pode ser.

Ora, quais os elementos característicos que distinguem o cidadão português? Ramalho Ortigão, nas Últimas Farpas, caracteriza assim o português: “Ele é sentimentalista, idealista, galã, dado a aventuras e a viagens como o Preste João, como Fernão Mendes, como o infante D. Pedro, como Camões. É sóbrio e é rijo. Tem o dom sociável de amar e de se fazer amado e é singular a sua faculdade de adaptação a todos os meios biológicos e sociais, bem como a sua enorme força de resistência à fadiga, à fome, a todas as privações as vida e a todas as hostilidades da natureza”. Teixeira de Pascoais refere, em A Arte de ser Português, que “o génio lusíada é mais emotivo que intelectual”. Enfim, uma pessoa de extrema sensibilidade e afetividade, emotivo, esteta, que facilmente se adapta e faz amigos – eis aí a personalidade-base do português, presente aliás em todas as manifestações históricas do nosso povo.

Em matéria de liderança, distinguem-se, como fatores de progresso, o conhecimento e as qualidades pessoais. Salvo melhor opinião, a liderança deve-se, em primeiro lugar, à pessoa que se é e estabelece-se na dialética entre o treinador e os jogadores. Se o treinador sabe comunicar e motivar e apresenta um exemplar comportamento (sem qualquer snobismo ou teatralidade) - tem naturalmente por si a admiração e o respeito dos jogadores. Se a tudo isto junta uma enternecida fidelidade aos valores de compreensão, de solidariedade, de acolhimento franco e dádiva magnânima, é certo que um verdadeiro espírito de família se estabelece, em todo o departamento de futebol. Não se esconde que a lúcida exatidão e a sagacidade do especialista devem brilhar também, no treinador que é líder. Um exemplo: o treinador de futebol deve ser um especialista em futebol. Mas não é (assim o penso), ao nível do conhecimento, que o treinador português brilha, entre as grandes figuras do treino atual.

A sua inteligência compreensiva, a sua sensibilidade aos problemas humanos do jogador, a sua paixão pelo jogo, que ele exprime numa comunicativa volúpia, fazem dele uma “avis rara”, que contrasta com a autoridade e a disciplina e o “magisterdixismo” de certos técnicos, que não possuem a exuberância e a alegria espontânea do treinador português. Rui Vitória, treinador do Benfica, publicou há um ano o seu primeiro livro, A Arte da Guerra para Treinadores (Topbooks, Lisboa, 2014), onde levanta a interrogação seguinte: “Um treinador nasce, ou faz-se? Um treinador pode fazer-se, é uma verdade. Mas penso que, para se ser treinador, tem de se trazer algo, a partir do berço. Sendo esta uma actividade, no âmbito do humano, antes de todos os conhecimentos que adquirimos, ao longo do nosso trajecto, estão alguns requisitos que nascem connosco (...).

Creio que por detrás de um grande treinador, como por detrás de um grande general, tem de estar, acima de tudo, uma grande pessoa” (pp. 14/15). Diante do feixe de saberes que hoje se exige a um treinador de futebol, ou de qualquer outra modalidade desportiva, há qualidades ingénitas que, segundo os antropólogos e etnólogos, os portugueses têm e nem todos os outros povos têm, com igual talento. E vislumbra-se nelas (também) as causas primeiras dos êxitos maiores dos treinadores portugueses, no futebol nacional e internacional. Eu escrevi “também” porque nunca esqueço a imperiosa necessidade da experiência e do estudo...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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