Festa no Castelão (artigo de José Antunes de Sousa, 14)

Espaço Universidade 02-10-2015 18:50
Por Redação
Talvez por se achar assim em tão extenso e variegado território, capaz de sobreviver a apetites e tentações de fraccionamento, há no brasileiro, sei lá, um certo impulso narcísico para uma espécie de grandeza paradigmática, mítica: ele pensa em grande, mesmo que para tal se socorra em profusão dos diminutivos: Carlinhos ou Juninho não por ser por eles pequeno o afecto, mas, pelo contrário, por ser imenso – tanto que dá para a vida inteira!

Decididamente, o Brasil é um país excessivo, hiperbólico – nos sentimentos, nos afectos e, já agora, no barulho: o espaço público é um local do qual cada um se acha dono, podendo nele fazer o que bem entenda e lhe apeteça..

Por isso, o brasileiro não resiste ao fascínio sanguíneo de arranjar apelidos (alcunhas, em Portugal) para tudo – e por tudo e por nada -, como se aceitar o pobre nome de origem fosse coisa de pobre gente: ele gosta de explorar imprevistas falas de uma língua caudalosa como o Amazonas, imprimindo-lhe inusitadas e imprevistas nuances – e muitas delas fruto dessa sua compulsão para a metáfora, que, aliás, só funciona bem quando ancorada garbosamente num ostensivo e gracioso exagero. É uma certa hubris potenciada por «um esplêndido Brasil tropical» (Agostinho da Silva, 1987). Vejamos, à guisa de exemplo:

Calçada? Tão rasteiramente óbvio...claro que não: Calçadão! Estádio Mineiro ou de Minas Gerais? Tão astenicamente notarial! Mineirão, pois claro, como o povo o baptizou! Que, como acontece aqui em Brasília, o edifício que alberga várias faculdades é longilíneo e às curvas? Parece minhoca mesmo, mas isso é demasiado óbvio – é Minhocão! Carlos é bem esguio e bem composto de ossatura? Carlão – e fica tuudo dito. Como o Luis que como Luisão há-de ficar na história do Benfica.

Fortaleza é sinónimo de castelo? Então vejam se adivinham o nome que haveriam de pôr ao Estádio para o Mundial 2014: isso mesmo – Castelão!
E foi lá, no Castelão, com uma amovível quadra instalada no meio do relvado (gramado), que, no passado dia 22 de Setembro, aconteceu um Brasil-Portugal em futsal, encontro vibrante e insistentemente anunciado como «duelo das estrelas» (Falcão-Ricardinho) – duelo na medida em que é inevitável o lado agonístico da questão, mas haveria de ser sobretudo um rijo mas leal diálogo de estrelas.

Mas, chegados aqui, deixem-me lançar um breve olhar para os preparativos motivacionais deste encontro transatlântico, para o que vulgarmente se vem designando por mind games : o treinador e seleccionador de Portugal, Jorge Braz, anuncia, no seu entender, com espigada ousadia, que «vamos jogar contra o Brasil de igual para igual», ou seja, por estar intimamente consciente que o normal seria que o Brasil ganhasse, se sentiu no dever de afirmar o contrário, como se assim exorcizasse seus próprios receios, ou seja, lavrou, como é habitual nos nossos treinadores, no equívoco fatal de enviar à sua própria mente e à dos seus jogadores uma mensagem contraditória: o desejo de ganhar é anulado pelo histórico e arraigado medo de perder.
Ou aquela espontânea e cordata tirada do craque e simpático Ricardinho (afinal, em Portugal, de vez em quando, lá aparece também um diminutivo que denota grandeza!) à não menos simpática repórter brasileira: «desta vez, talvez, quem sabe, Portugal faça uma gracinha» - gracinha que é, como todos bem sabemos, sinónimo de surpresa. Ou seja, para sermos claros: a principal figura da equipa portuguesa partia para o jogo com o sentimento da improbabilidade natural de uma vitória da sua equipa.

Pois é, continuamos a exibir a mesma tendência de sempre para a autoflagelação. Não nos permitimos um desejo puro e genuíno, um afago sincero – temos sempre que misturar-lhe um pouco de negrume: é o nosso atávico nevoeiro da alma que nos vem, quem sabe, desta nossa condição atlântica. A imensidão atlântica gera, se calhar, em nós o vislumbre inquieto de um destino incerto. Sim, aceleramos com um pé a fundo, enquanto que, com o outro, pressionamos o travão, num esgar de medo, envolto, quase sempre, na eufemística embalagem de uma cautelosa prudência – sob cuja tutela protectora as caravelas quinhentistas jamais teriam zarpado do cais das colunas! Enfim, continuamos com medo de ser felizes – de que, com os ares do céu, nos possamos constipar (engripar para quem me lê no Brasil)!

Agora uma brevíssima referência ao jogo jogado: Portugal poderia perfeitamente ter saído vencedor deste embate entre duas das melhores selecções do planeta, poderia, sem dúvida. Mas, claro, com tanto autocondicionamento até o guarada-redes (goleiro) do Brasil saiu da sua zona de conforto, a sua área, para, literalmente, rubricar uma das mais brilhante actuações da sua carreira – tudo, de resto, em conformidade com a profecia auto-concretizável dos arúspices portugueses.
Mas eis que acabou tudo em terno convívio, facto que ofusca e dissipa a episodicidade – ainda que significativa - do resultado: foi uma festa no Castelão, um hino à «lusotropicalidade». Só é pena que sejam tão raros os eventos desportivos entre estes dois países irmãos, ambos filhos da mesma matriz espiritual, da mesma «Mátria».

E, para finalizar, uma nótula de carácter historico-cultural: a versão mais credível e mais citada atribui a invenção do actual futsal, originariamente – e sintomaticamente - futebol de salão, ao Professor uruguaio de Educação Física, Juan Carlos Ceriani Gravier, no ano 1934, na Associação Cristã de Moços em Montevideu. E foi, ao que parece, a necessidade a aguçar o engenho: como havia falta de campos para jogar futebol, o professor lembrou-se de uma solução expeditiva: jogar futebol no interir de algum edifício, num espaço seguramente mais exíguo e, por via disso, com menos participantes e com uma bola mais a condizer com essa exiguidade espacial. E eis a primeira verificação, aliás, muito importante – o futsal nasce como uma réplica funcional ao futebol, isto é, assenta na mesma matriz gestual, divergindo apenas na organização, no espaço e no peso e tamanho da bola. Significativamente, o Professor uruguaio baptizou oa nova modalidade de Indoor-Foot-Ball.
O futsal cujo incremento não pára de aumentar, deve o principal do seu conteúdo fascinatório, entre outros, aos seguintes factores: mantém, desde logo, em comum com o futebol dois dos pprincipais aspectos que justificam a espantosa popularidade deste – o teor transgressivo do seu padrão gestual (joga-se também com os pés) e a simplicidade das suas regras.

Mas tem sobre o futebol algumas vantagens: a ética desportiva inerente à sua normatividade específica, que quase impede o recurso à manha e à ronha, pois não proporciona espaço de manobra para o tradicional subterfúgio de queimar tempo, que, ao contrário do que acontece no futebol, só conta o efectivamente jogado, os quarenta minutos regulamentares. E a que se junta uma outra medida moralizadora – a do critério das dez faltas por equipa.

Ou seja, se atendermos a que se trata de uma réplica estilizada e urbanizada – de algum modo, interiorizada – do futebol, este mais rústico e exterior, sugerindo mais adequadamente o «campo de batalha», mas com a vantagem do futsal de uma maior transparência por via de regras simples mas mais apertadas e de uma incerteza permanente no balanceamento do jogo, fruto da proximidade entre as balizas, facto que dá a este desporto da moda uma inusitada e invejável vivacidade, característica que só encontra rival no hóquei em patins e a que se junta a circunstância de os espectadores estarem praticamente encima dos jogadores – eis-nos na posse de alguns dos factores que ajudam a explicar o explosivo aumento desta modalidade. Só falta um pormenor para que o nosso vaticínio de que, a médio ou talvez mesmo a curto prazo, o futsal vai desalojar do actual estatuto hegemónico todas as demais modalidades ditas de pavilhão – incluindo o basquetebol, à excepção, acredito, dos EUA. E qual é esse pormenor que torna tão óbvia e banal esta minha profecia? Televisão.

O seu efeito mimético potenciadao à escala planetária é o mais seguro garante de expansão: por alguma razão o futsal foi assumido pelas diferentes federações - que não estamos em tempo de desperdiçar ouro!

Brasília; 01 de Outubro de 2015
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