Filetes, vitela e pastéis (artigo de Joaquim Queirós, 16)

Espaço Aberto 14-09-2015 20:23
Por Joaquim Queirós
Nos últimos dias registamos dois deles que reflectem a realidade do futebol nacional. A nossa selecção, com futebolistas escolhidos e treinados por Fernando Santos, conseguiu nas lonjuras da Albânia um precioso triunfo, já quando se julgava que o empate não seria mau de todo.

Foi uma vitória a que se bateram palmas, deu para o técnico morador em Cascais agradecer a Deus por ter estado com atenção numa equipa com gente que já teve nome na modalidade, mas agora só tem... muita idade.
Vale que a rapaziada da chamada jovem equipa B, depois da goleada a que humilharam aos albaneses, mostrou que poderá estar ali o futuro, mas para isso será preciso coragem de quem manda no chuto da bola em Portugal. E isso, nem sempre tem havido.

Por outro lado, para começarmos a conversa desta semana também não podemos deixar de mandar entrar em campo o insólito que aconteceu no Estádio do Mar, do meu clube - o Leixões, vencedor duma final da Taça de Portugal (em casa do seu adversário), que chegou a andar nas taças da Europa, esteve anos e anos na I Divisão, agora luta na II para não descer, quando viu chegar uma equipa de oficiais da Justiça, acompanhados da força da PSP, para penhorarem as balizas (!) do campo de jogos.

Está claro que antes que a grua começasse a fazer disparates na trave e nos postes, lá surgiu o presidente do clube (mais uma vez) a passar um cheque.

E é, assim, que rola o mentiroso do futebol português.

Mas, deixemo-nos de coisas tristes e vamos lá à bola do fim de semana, pois o Solha, o Botas e o Pires já estão impacientes.

No entanto, antes de lhes dar a possibilidade do desabafo semanal, deixem-nos considerar a derradeira jornada dos chamados três grandes, que queremos englobar numa bem elaborada ementa gastronómica.

E começamos ao contrário duma boa refeição, pela sobremesa, desta vez servida na noite de sexta-feira e por meia dúzia de “pastéis”, doces, doces, doces, bem aplaudidos no Estádio da Luz. Há muito tempo que não era naquele espaço servida coisa tão saborosa, com tanto açúcar, que nem o meu velho amigo Luís, da confeitaria Nita, no Poço dos Negros, residente em Belém, seria capaz de admitir.

Afinal também o Rui Vitória é mestre no cozinhar de bons resultados. Continuará a ver-se tamanha doçaria na montra da Luz?

Entretanto, os pratos principais, foram servidos, assim a modos de “take - away”, para serem levados para fora de casa, e só no dia seguinte começarem a ser postos na mesa.

Os “dragões” meteram pés a caminho até Arouca, um pouco contrariados pois Lopetegui queria o repasto em Aveiro (acabaria por ser em Aveiro, mas por Arouca pertencer ao distrito...), contando as curvas e contra-curvas, mas acabando por saborear uma óptima refeição de vitela arouquesa, pitéu que o mexicano Corona mandou servir e por duas vezes. Teremos ali um futuro comilão?

Um aviso para Júlio César, pois o rapaz é de comer e chorar por mais, pelo que dizem e pelo que já fez.

Por isso, naturalmente, o treinador espanhol comeu, bebeu e gostou, e não se fala mais nisso.

Na noite de domingo, em Vila do Conde, cidade que alberga o castiço e mártir bairro das Caxinas, onde o meu saudoso camarada Jaime Ferreira um dia me levou a comer, segundo ele, os mais saborosos filetes de pescada da Europa, os pupilos de Pedro Martins foram inicialmente tenrinhos para os dentes afiados dos “leões”.

Na segunda parte os seguidores de Jesus julgaram que seria só preciso bater palmas e mandar vir outra dose, mas as coisas foram diferentes e, no final, no levantar a mesa, a despesa esteve quase para ser dividida pelos dois.

Vamos fechar ouvindo os nossos comentadores semanais, que já começam a pedir meças aos milhentos faladores que campeiam por rádios e televisões, alguns até abusando ao fazerem-se repetir nos jornais.

O Botas era o mais expansivo, já que tem andado arredado dos bons caminhos que foram trilhados por Jesus. E nem sequer nos deixou qualquer hipótese de pergunta, despejando logo o saco: “Ora aqui está a resposta. Foram seis e podiam até ser mais, com a nossa ganapada a dar cartas. O Rui também sabe ganhar e com nota artística. Não é filho de Jesus, mas é filho de Deus. Esperem pela volta. Já tenho no bolso o bilhete para o Dragão. E vamos lá com fome de golos.” E mais nada, Queirós, lá foi ele para marcar com antecedência a viagem em Santa Apolónia para o Porto.
Por sua vez, o Pires, ainda enjoado pela viagem “sei lá de quantas curvas”, não deixou de dar a sua picadela nos seus amigos deste cantinho: “Não perdemos. Fomos comê-los mesmo lá em casa, sem favores. Enchemos o bandulho a ver jogar bem e aquele Corona, que dizem que veio do México, é mais picante do que os “tacos” que eles comem lá pela terra dos Pampas. Acertamos. Aquilo é carne limpa”. E foi-se.

Restou-nos procurar o Solha e só o fomos encontrar no “Ramon”, abusando de um suculento bife com batatas fritas, um ovo a cavalo, e uma caneca branca do bom verde de Ponte de Lima. Viu-nos ao longe e logo deixou fugir o que naquela hora lhe ia na alma e no palato: “Estava sem comer nada porque não me apetecia sequer abrir a boca. Era um nervoso miudinho. Só bebi água. Ainda não estou bem seguro que agora é que vai. Mas depois desta vitória, já estou a ver que este ano vamos dar a volta ao Marquês. Ai vamos, vamos.” E trinchou mais um naco de carne, como se fosse o Slimani a passar pelo Ukra.

E chega por hoje. A meio da semana temos questões internacionais para discutir e, depois, depois, vem aí um daqueles dias em que tudo poderá acontecer.

Uma coisa temos a certeza: o jogo será no Dragão. Quem se sentará à mesa a saborear a “francesinha”?

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos.
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