Um caso de transgressão e paixão: o futebol! (artigo de José Antunes de Sousa, 10)

Espaço Universidade 03-09-2015 14:55
Por José Antunes de Sousa
Talvez, seja uma boa ideia procurar no efeito de desconcerto, deslumbramento e surpresa causado pelo improvável padrão gestual do futebol a principal explicação para a sua explosiva e planetária popularidade.

Como bem fazia notar Diógenes de Laércio, a mão humana constitui-se no "instrumento de cultura" por excelência. E não admira que assim seja uma vez que as nossas mãos são aquilo que o nosso cérebro e, mais apropriadamente ainda, o nosso coração tem mais à mão para executar e concretizar o teor da sua atividade intencional e amorosa, que é como nos empenhamos na nobre tarefa de semear sentido.

Ora, a surpresa reside justamente na ousadia transgressiva de deslocar o ponto de aplicação prioritária, se não mesmo exclusiva, da intencionalidade, mediada pelas mãos, para as outras extremidades, os pés, aos quais só a sua ajuda na locomoção lhes era reconhecida – mesmo o calçado é a peça de vestuário mas tardia, talvez por se considerar os pés a parte mais desprezível do corpo.

De resto, creio poder-se detectar uma certa semântica depreciativa associada a toda uma simbólica negligenciável dos pés, em expressões vexatórias, muito usadas sobretudo em Portugal, tais como: "dar com os pés em alguém" ou "alguém levar com os pés…", denotando sempre uma situação de humilhante rejeição – como a jovem que dá com os pés no namorado: despedido sem apelo nem agravo!

Os pés, talvez por ser a parte do corpo que anda forçosamente em contacto com a terra e, nessa medida, ser percepcionada como a parte menos íntima de nós aparecem, portanto, como o instrumento menos natural e mais improvável de uma intenção criativa, centrada classicamente nas mãos: o sacerdote, o curandeiro, ambos impõem as mãos como forma de exercer sobre alguém um certo tipo de poder.

Por alguma razão o pretendente pede a mão da filha ao pai para, a partir desse assentimento, lhe ser reconhecido um certo poder apropriativo sobre a donzela. Enfim, exemplos da nobreza expressiva das mãos é o que não falta – por contraste com o desdém associado à inadvertência dos pés que, para pouco mais servem do que para nos ajudar a andar!
Mas, esta subalternidade cultural dos pés é flagrantemente desmentida pelo futebol: essa modalidade que faz baixar a inteligência, que parecia exclusivamente instalada no primeiro andar, ao rés-do-chão! O futebol, ao jogar-se com os pés, resgata-os de um estatuto de menoridade funcional e, com isso, é, de certo modo, o "homo habilis" que se expande: dá-se como que uma certa socialização da inteligência – uma inteligência prática, em movimento!

Ao fazer baixar a intencionalidade criativa, a inteligência habilidosa aos baixios, à zona mais pobre e rasteira de si (o contacto com a terra sugere humildade, como prostrar-se em terra, beijar o solo: a terra é húmida e humilde – a mesma raiz etimológica!), o homem que joga («homo ludens») descobre uma maneira óbvia e imprevista de democratizar o talento, proletarizando-o: qualquer um pode, afinal, jogar e, mais ainda, jogar um jogo simples e excitante. Porquê?

Porque quase de nada se necessita para isso – uma bola apenas, mesmo que seja de trapo – e a rua ou um descampado! Ou seja, um jogo que excita pela singeleza e por ser mínima a mediação instrumental que exige! Mais: são de tal modo simples as suas regras que um qualquer grupo de garotos no mais recôndito recanto de África ou da Ásia pode jogar à bola, a simplificada designação popular do futebol: a sua normatividade é extremamente simples e universalmente entendida. O futebol é um súbito fenómeno de linguagem gestual universal – o mais simples e o mais apaixonante.

Mais acessível, desde logo, do que o basquetebol – que este só instalando uma tabelas e um cesto! Mais que o handebol? Sim, que não é possível fazer saltar uma bola de trapo e não dá muito jeito jogar na lama, por exemplo. E por aí adiante…

Dito de forma sintética: o futebol é a paixão do povo – porque é simples, é barato e é divertido! E sobretudo: o futebol promoveu o acesso dos mais desvalidos à sublime arte do corpo! Passamos a ter artistas aos pontapés! Não admira, por isso, que o futebol, esse fenómeno instantâneo de intercultural mimetismo, tenha germinado, sobretudo, a partir dos magotes de garotos das favelas ou das sanzalas africanas: o talento ao nível dos pés é um talento ao alcance de todos - e os garotos aproveitam o que mais a jeito lhes surge para brincarem!
Esta popularidade, porém, tornou-se também fonte de problemas: o poder – político, económico e dos «média» – não quis ficar de fora de tão poderoso meio de sedução e a arte de jogar à bola com os pés cedeu passo ao cálculo, à manha e ao manobrismo, visando garantir a todo o custo a vitória – a garantia de milhões!

Usando uma terminologia de Gilberto Freyre, Apolo tem tentado sobrepor-se a Dioniso – até o futebol mestiço do Brasil tem vindo a ceder ao desígnio mercantil e a acomodar-se a uma racionalidade mais geométrica do jogo, em prejuízo da sua matriz mestiça e intuitiva que parece cada vez em maiores dificuldades para se impor no moderno tabuleiro dos fabulosos interesses que invadiram os estádios – estádios que deixaram de ser o centro do evento desportivo!

Com efeito, o espaço público do jogo foi dinamitado e imensamente amplificado através do audiovisual e o que foi, originariamente, um jogo eminentemente de multidões, isto é, de grupos de assistentes em êxtase e em loucura nas bancadas do recinto de jogo, passou a ser típico de massas: o espaço público do evento passou a ser privatizado por qualquer um, bastando para tal um clique em qualquer computador ou numa simples box. E com isto, são os servidores deste luxo ao domicílio, os operadores de televisão, que ditam as regras do jogo – cada vez com menos consideração pelo espectador heroico dos estádios.

Com o assalto predador à praça pública deste maravilhoso jogo, os melhores artistas foram arrancados precocemente dos ninhos em que germinaram e colocados na praça forte das bolsas, alimentadas por misteriosos magnatas: deixaram de povoar democraticamente os vários palcos espalhados pelo mundo para se concentrarem, à força e timocraticamente, na casa de uns tantos ricalhaços apenas. Não mais será possível, por exemplo, reeditar a espantosa surpresa de um Benfica dos anos sessenta!

E estas janelas das transferências, desmesurada e indecorosamente abertas, em nada vêm ajudar ao incremento do futebol – apenas a multiplicar escandalosamente os ganhos daqueles que lucram não com o jogo jogado, mas jogando, na tômbola de mercantil leilão, com o futuro dos verdadeiros artistas que, assim, o deixam de ser, forçados que são a entregarem-se nas mãos, melhor, nas garras, de uma tentacular estrutura – insidiosa e especulativa!

«Quo vadis», futebol?

Brasília, 3 de Setembro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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