O mais relevante nem sempre é o mais mensurável (artigo de Manuel Sérgio, 101)

Ética no Desporto 28-08-2015 17:34
Por Manuel Sérgio
Quem escreve estas linhas muitas vezes se sentou à mesa de alguns treinadores de futebol, bem lusitanos e com a matreirice de pessoas que muito viveram e sofreram e amaram, no intuito de auscultar a sabedoria que os distingue (ou distinguia) na sua profissão.

De tática (sempre ressuscitada pela teimosia quase heroica de certos comentadores do futebol) nunca me falaram, como especialidade que muito os preocupasse. É evidente que pensavam e elaboravam a tática das suas equipas mas sem ver nelas (as táticas) o trabalho de mais custosa previsão. Este residia na omnipresente escassez de dinheiro, nos clubes portugueses, que lhes dificultava o acesso aos futebolistas de indiscutível valia. E também na necessidade que os nossos clubes têm de vender... para poderem viver! Ou seja, por uma razão ou por outra, nunca um Ronaldo, ou um Messi, um um Neymar, ou um Di Maria, em apurado grau de excelência, aqui os veremos na Liga Sagres.

Demais, o jogador excecional nasce, mas precisa de competição e treino, para desenvolver o que já tem. Faço minhas as palavras de Ricardo Serrado, nas lúcidas páginas do seu livro Messi (edições Vieira da Silva, Lisboa, 2015): “Como tenho vindo a referir, considero que um dos maiores erros de muitos teóricos, nomeadamente nas ciências humanas e sociais (área onde me insiro) e na filosofia, é quererem analisar fenómenos e atividades humanas, sem terem em conta alguns dados fundamentais sobre a complexidade biológica humana, tentando explicar as suas teses, com base nas estruturas sociais e em processos civilizacionais, como motores desses acontecimentos. É como se a História, a Sociedade e a Civilização tivessem vida própria, estivessem desligadas de quem de facto interfere e age no Mundo: a biologia de onde emerge o ser humano” (p. 96). Através das ciências cognitivas anuncia-se, de facto, uma revolução paradigmática, no estudo do ser humano: a sua completa naturalização!

Já há 12 anos, na revista Brotéria (Maio/Junho de 2003) o Padre Alfredo Dinis S.J.,professor da Universidade Católica Portuguesa, escrevia que o Homem era agora convidado “com maior insistência, a descer do pedestal da esfera sobrenatural, na qual pensara ter sido colocado por Deus, no acto da criação, e que lhe conferia uma natureza que o distinguia substancialmente de todos os demais seres criados, constituindo-o a única criatura com uma alma espiritual, que lhe assegurava a imortalidade”. Esta presunção do Homem, filho de Deus, empurrava-nos ao esquecimento de que “a mente é por natureza incarnada” (George Lakoff e Mark Johnson, Philosophy in the Flesh, Basic Books, New York, 1999, p. 3). No entanto, todo o ser vivo se manifesta em constante reorganização, porque nem tudo se limita ao biológico, no nosso comportamento.

Um exemplo: o olho é natural, mas o olhar é socialmente desenvolvido. Joseph Ratzinger, que foi o Papa Bento XVI, poderá escutar-se, neste passo: “ter alma espiritual significa exatamente ser objeto de um bem-querer especial, de um especial conhecimento e amor de Deus; ter uma alma espiritual denota ser um ente chamado por Deus para um diálogo eterno e, por isso, estar em condições de conhecer Deus e de responder-lhe” (Introdução ao Cristianismo, Herder, São Paulo, pp. 306/7). Portanto, no espírito de um cristianismo renovado, a nossa imortalidade perpetua-se num diálogo, sem fim, com Deus. O que se pretende sublinhar reside, aqui: a dimensão relacional de cada um de nós, com características incomparáveis, é que nos torna pessoas.

Todo o universo está aí, para gerar vida, inteligência e consciência. E como? Na complementaridade dos homens e das coisas, do bios e do logos, do indivíduo e da pessoa. Apetece mesmo dizer: todo o universo se preparou, para que o Homem nascesse. A natureza elaborou, no caos, paulatinamente, a complexidade humana. Como Jung o sustentava, o aparecimento de “coincidências significativas” supõe necessariamente um princípio explicativo. As condições iniciais da vida transformaram-se em cultura. O caminho fez-se. Quem o fez? Para mim, nesta interrogação, há mistério, não há absurdo.

Em tudo o que é humano, a matéria é espírito também. E, por isso, o mais relevante, no futebol, é saber organizar um departamento de futebol, ou seja, composto por especialistas que se ocupam de uma tarefa comum; e descobrir talentos e não atletas de espetaculares qualidades físicas; e criar condições materiais, psicológicas, sociais ao desenvolvimento do jogador; e que este tenha beneficiado de uma formação pedagógica e científica, partindo do princípio que nos situamos no âmbito das ciências hermenêutico-humanas; e que a técnica se encontre ao serviço da inteligência, da cultura táticas; e que há valores morais a fomentar, a distinguir, na construção de uma equipa; e que o jogador não é um objeto, nas decisões táticas do treinador, porque o talento individual é que resolve, muitas vezes, as situações mais complexas (o futebolista é ator, não é espectador); e que o ser humano, completamente, absolutamente racional não existe, devendo, por isso, criar-se um ambiente de férvido companheirismo e amizade, no departamento de futebol e que, portanto, deveres e direitos, disciplina e liberdade, emoção e razão se encontrem no desempenho dos jogadores; e que se reconheça que não há jogos, mas pessoas que jogam e, por isso, a ciência, no futebol, não pode manifestar-se unicamente, com números e com equações e com estatísticas (no ser humano, não há objetividade, sem subjetividade).

Raro é que a retórica dos críticos e comentaristas não atraiçoe a verdade vivida, hipervalorizando o tratamento quantitativo (que pode ser medido, testado, verificado, experimentado) e resistindo ao tratamento qualitativo, onde a experiência e a compreensão predominam. É, por natureza, uma arte presunçosa, intrometida e falseadora confundir sempre o mais relevante com o mais mensurável. Como já trabalhei num departamento de futebol de alta (altíssima) competição, sei bem que as experiências e as vivências de muitos anos de futebol, a tudo o mais sobrelevam, frequentemente.

Chama-se empirismo ao vício metodológico que confunde o mais relevante com o mais mensurável. Nem sempre assim é. Treinadores como o Jorge Jesus, como o Lito Vidigal, (e outros mais poderia citar) são personalidades originais e expressivas, pela conceção do futebol, pelo estilo inconfundível, pela emocionalidade que ressalta em tudo o que fazem. Neles, o que acima de tudo preleva é a sua sensibilidade, a sua força temperamental e a contundência nas intenções. São visceralmente “homens do futebol”. Neles se descobre uma profunda compreensão da realidade-futebol e, por isso, uma clara resistência aos métodos consagrados, às formas estabelecidas e rotineiras. Nalgumas teses de doutoramento e mestrado, em Desporto, são tantos os números, que parecem destituídos de emoção, de sedução. Tudo é demasiado incomunicativo e geométrico – o que o futebol não é, como se sabe, por mais que se esforcem os “táticos” da televisão e os doutores em matemática do Desporto. Um sorriso de benigna ternura que se lhe derretia nos lábios enternecidos também descobri no líder que era o José Maria Pedroto.

Quando vejo e oiço, na televisão, o Rodolfo Reis, o “capitão dos capitães”, como lhe chamam no Porto, julgo escutar, aqui e além, o Mestre Pedroto – dois homens que, em linguagem genuína, tersa e original, se via (se vê) sem qualquer comprometimento com o fácil, o lisongeiro, o amaneirado. O futebol não dispensa os números. Mas é bem mais do que números. Os números não são nada de suspeito, duvidoso e rejeitável. Tem portanto o seu lugar próprio, no futebol. Mas ao serviço da qualidade, que o ser humamo é, sobre o mais. Qualidade, quero eu dizer: tecnologia e cultura; eficiência e arte; saber e sabedoria. A felicidade não é tanto da ordem do ter (sem um certo ter não se pode ser), mas da ordem do ser. Há coisas que precisamos de ter presentes, quando se fala de futebol.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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