Já não tenho idade para essas coisas (artigo de José Antunes de Sousa, 8)

Espaço Universidade 21-08-2015 16:53
Por José Antunes de Sousa
A um velho (prefiro velho a idoso, porque no velho vejo, apesar de tudo, ainda o rasto sapiencial de uma vida que se crê ter valido a pena ser vivida) nem sempre é fácil seduzi-lo para a prática expressa de exercícios físicos, ou de alguma espécie de desporto: nesta minha idade, isso já pouco ou nada vai adiantar – ouve-se com frequência.

A uma tal atitude subjaz, desde logo, o ocidental critério axiológico de utilidade – e quem, por limite de idade, sai fora da cadeia oficial de produção acolhe, por conta de tal preconceito, uma insidiosa sugestão de que passa a ser um elemento socialmente descartável, excedentário. E quem como inútil se autopercepciona a si mesmo se condena a um rápido desaparecimento – para não incomodar!

Daqui a percepção negativa da velhice que predomina, sobretudo no Ocidente: porque em vez de a idade ser socialmente valorizada, como na Abkhásia (Geórgia), como índice de ser, de uma vida rica em experiência, é vista como estado de inactividade, como um fardo para quem tem que trabalhar para ganhar a vida, esquecendo que a vida não é para ser ganhada, mas para ser vivida!

Mas subjaz a tal percepção um outro pressuposto que, sendo do âmbito psicossociológico, é também do âmbito epistemológico: a crença absoluta na irreconvertibilidade biológica da degradação física e mental – o pressuposto da prevalência do desígnio entrópico sobre o da acção regenerativa da consciência.

Só que está emergindo um novo paradigma, o da ciência consciente (Willis Harman), que inverte os termos desta catastrófica proposição: a consciência, enquanto criadora da nossa própria realidade (Wheeler), ela pode suster e até reverter o processo de envelhecimento (Chopra, 1993). Ou seja, não é apenas a função ( o exercício) que faz o órgão, mas, antes, um exercício realmente intencional, um exercício que veicule acrescento de significado existencial, uma nova consciência, pois é esta que mantém e (re)genera a estrutura.

Ora, este paradigma do primado da consciência garante ainda que os clássicos polos do binómio educativo, educador/professor e educando/aluno, passam a ser vistos como fazendo parte da mesma Consciência, ambos se alimentando da mesma fonte. Não mais a tradicional assimetria de um professor que molda ao seu jeito um aluno, hirto na sua pura passividade. Não: um aprende enquanto ensina e outro ensina enquanto aprende.

Digamo-lo assim: o Professor de Educação Física (que se for só física já educação não é, como gosta de repetir Manuel Sérgio) ele é, mais que tudo, um cúmplice, um facilitador de reencontro e de descoberta de sentido. E, na sua relação educativa com o segmento mais idoso da nossa sociedade a quem pretenda aplicar programas de reeducação cinética, deve certamente evitar assumir uma abordagem minimalista, isto é, meramente paliativa nessa sua intervenção – apenas como meio expeditivo para adiar ou mitigar a tragédia degradacionista de um fim lastimável.

Em vez disso, o técnico, que o deve ser na arte de dar sentido ao movimento que assim transcende o seu mero teor biomecânico, empenha-se em promover uma verdadeira Ludoterapia ,isto é, que através do jogo (jogos de conotação ergonómica, que evoquem as memórias recriativas da infância, jogos que impliquem reconquista de entusiasmo vital), que pelo jogo, dizia, cada um possa recuperar o prazer de estar vivo, e, mais decisivo, um verdadeiro propósito para uma vida a viver em cheio enquanto vida houver para viver. Com Viktor Frankl (1946), que uma ludoterapia possa converter-se em verdadeira Logoterapia.

Como tudo isto na prática? A vossa competência, caros amigos, exactamente aquela que eu não tenho mas que sei ser muita em cada um de vós, ditará o programa situado e adequado a cada microcosmo em que a vossa intervenção seja reclamada.

O máximo que me permito é deixar aqui umas vagas sugestões – que o conceito creio ter ficado minimamente estabelecido.

Desde logo, a sugestão óbvia: a de que participar na lida da casa, como lavar a louça, ajudar a aspirar o pó, o prazer da jardinagem, levar a passear o cão, são, entre outras pequenas actividades, meios que cumprem na perfeição um duplo desígnio: ginasticar músculos/articulações e afagar a alma.

Concomitantemente com exercícios de teor ergonómico, promover, por exemplo, exercícios respiratórios do tipo abdominal (respiração mais profunda e mais ampla indutora de uma renovada consciência corporal).

Exercícios de correcção postural, acompanhados de um diálogo gentil, amoroso, um diálogo com o próprio corpo, uma vez que, sendo este um «campo de consciência», as células respondem e reagem a todo o pensamento e a toda e qualquer emoção.

Porque convocar alguém que passou uma vida distraído e inadvertido de si próprio para a atenção focada no que, em si, é o mais íntimo de tudo, é mágico e demiúrgico. Trata-se de um imprevisto reencontro e sobretudo de uma pacificante reconciliação com o próprio corpo: que só através da consciência do corpo se logra mais vida, o outo nome da consciência.

Brasília (UnB); 12 de Agosto de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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