Afinal o Benfica ainda está vivo! (artigo de Joaquim Queirós, 12)

Espaço Aberto 17-08-2015 16:46
Por Joaquim Queirós
Demorou, mas começou. Aí está o campeonato para encontrar um campeão, mas limpinho, se for possível.
Segundo as profecias de quem investe, de quem aplaude e de quem comenta, há três candidatos para levantar a taça lá para próximo mês de Maio. Vamos lá ver se a profecia bate certo.
Os meus amigos Solha, Pires e Botas tiveram a primeira batalha para ver se conseguem ganhar a guerra.

O Solha, manhã cedo da passada sexta-feira embarcou no Alfa e foi até Aveiro. Reservou um dia de férias para não faltar ao primeiro jogo do seu Sporting e do seu padroeiro Jesus, até há dois meses atrás um homem que ele odiava. Coisas da bola.
Chegado à “Veneza de Portugal”, o Solha não queria perder o saborear duma caldeirada de enguias e foi até ao “Cantinho da Lota”. Não pagou pouco, mas soube-lhe bem, ele que estava à espera de uma sexta de primeira.
Veio o jogo, no estádio nascido para não servir para nada a não ser para criar um elefante que engole milhares de euros por dia.
Mas isso ficará para quem cometeu a asneira e continua a dizer que nada aconteceu.
O Tondela iria ser talismã para a cavalgada do título. Seria tudo um ai Jesus para o Vitor Paneira. E parecia até que sim, quando apareceu o primeiro golo dos leões. Mas, depois, veio o empate e o caminhar apressado dos ponteiros do relógio e, já quando havia camisolas verdes com rostos encarnados, o sr. Xistra de Castelo Branco, pior, o seu colega do pau na mão, decidiu alterar as regras do jogo e deixou o defesa sportinguista “ir levar” a bola com a mão ao pés do colega para que este sofresse uma falta, penalty, e vitória do Sporting.
Desta vez não foi Jesus que nos salvou, terá dito o Solha, mas o colega do sr. Xistra.
O Solha regressou a Lisboa, mas no caminho rezou não sabemos quantos Padres Nossos...

Por sua vez, o Pires, depois de ter dado uma espreitadela pela Ribeira, que tem mais estrangeiros que taínhas na lingueta, não deixou de aparecer no Dragão de azul e branco dos pés à cabeça. E teve razões para acabar o jogo em festa, vendo um Vitória de Guimarães com ar de derrota desde o primeiro minuto. Foram três, mas podiam ter sido mais. Este ano é que vai ser, pensa o Pires. E lá terá as suas razões para pensar, caso o “mister” Lopetegui não se decida por repetir a dose de confusões da época passada.

Restou a noite de domingo para o Botas.
Com ar desconfiado foi até à Luz, passando-lhe pela cabeça mil consequências. E se a gente não ganha? - cogitava o ferrenho Pires. Sentou-se no seu lugar, nem sequer aplaudiu o “pássaro” na volta inaugural, à espera que a sanfona principiasse a tocar. E começou mal, desafinada, com alguns sustos para Júlio César, até quando, já muita gente benfiquista julgava que tinha de ir para casa apressada e a preparar os ouvidos para o amanhã dos apitos sportinguistas, eis que aparece o primeiro golo, mais outro, ainda outro e outro ainda. Um delírio! Afinal o Benfica ainda existe, desabafou.

Não podiamos deixar de pegar no telemóvel e falar com os três parceiros deste cantinho digital da Trav. da Queimada.
Ligamos ao Solha. Tocou, tocou, mas custou a atender.
• Então, amigo, a coisa esteve feia em Aveiro?
• Não, não - deixou escapar a custo o Solha, continuando: pensamos que eram favas contadas, mas os gajos são melhores do que o Benfica…
• Melhores que o Benfica?!
• Pelo que se viu, sim. Não tiveram medo das nossas camisolas, nem se assustaram com os saltos do Jesus. O que nos valeu é que os jogos agora já não duram 90 minutos. Para nós, só acabam quando nós estivermos a ganhar.
E desligou-nos o telemóvel, ainda se ouvindo um risinho cínico. Certamente que para o Solha aquilo não foi lá muito limpinho, mas foi o que se pode arranjar. E o que é preciso são os três pontos.

Por sua vez, o Pires, atendeu logo a nossa chamada e pelo barulho ambiente havia festa.
• Então, Pires?
• Foi como eu lhe dizia. Este ano não há pai para nós. Foram três, mas podiam ter sido seis. Ao Casillas vão-lhe oferecer uma cadeira de baloiço pois ninguém o vai incomodar. Diga aí à malta da Mouraria que vão ter pela frente os dragões a deitarem lume. Vamos comer leão de churrasco e águias no espeto. Para nós vão ser gatos e passarinhos, carago.
• Mas, Pires…
• Não há mas, nem meio mas...
E lá se foi impante no 3-0.

No domingo ao fim do dia. A Luz estava iluminada de benfiquistas, mas de gente nervosa. O Sporting ganhou e o FC Porto goleou. A águia voou, mas encontrou pela frente palmas tremelicadas e sorrisos amarelos. O jogo começou e as coisas não engrenavam, enquanto o Estoril assustou. E de que maneira? O empate ao intervalo levou a alguns a pensar que o melhor seria não ser testemunha de mais uma desgraça. Mas o futebol tem destas coisas. Faltava um quarto de hora para surgir mais uma semana de penar, mas apareceu o golo do grego. Delírio! Parecia que se tinha ganho o campeonato, Depois o Jonas fez mais dois, não deixando o ganapo Nelson de marcar o quarto. E vitória desapertou o nó de derrota que já se apertava no colarinho. Afinal, o Benfica ainda estava vivo!

Quisemos falar com o Botas. Mas não nos apareceu. Disseram-nos que estava a acender uma vela lá para os lados da Madre de Deus…

Conclusão: o Sporting venceu, mas convenceu-se que para Jesus fazer o milagre será preciso orar muito; o FC Porto não deu confiança aos vimaranenses, mas terá de pensar seriamente que o campeonato não será só em Guimarães e arredores; o Benfica foi ao baú e tirou a roupagem que fez dele gente grande. Mas o guarda-roupa ainda está curto. Mas fica-lhe bem.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos.
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