Jorge Jesus: - o sublime iletrado! (artigo de Manuel Sérgio, 99)

Ética no Desporto 14-08-2015 17:55
Por Manuel Sérgio
A RDP não cessa de nos repetir, quase diariamente uma afirmação convicta de José Saramago: “o homem mais sábio, que eu conheci, em toda a minha vida, não sabia ler nem escrever”. Cervantes escreveu o Dom Quixote, onde surge a figura do Sancho, que faz desta obra imorredoira uma alegoria magistral do permanente conflito entre a teoria e a prática. Eu, um permanente estudante de filosofia (e nada mais) já escrevi, em 1977, no meu livrinho A Prática e a Educação Física (Compendium, Lisboa): “De facto, a unidade prática-teoria constitui uma totalidade em que à prática assiste papel fundamental, pois é nela que se reconciliam e interfecundam o objectivo e o subjectivo”. Nas minhas aulas, sugeria aos alunos que “a prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática”.

E chegava mesmo a dizer-lhes: “Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete”. Propunha eu, assim, aos alunos a indissolúvel ligação prática-teoria, dando à prática especial relevância, pois que a prática, mal ou bem, transforma e a teoria, por si só, pode não passar de uma acumulação pomposa de palavras, sem quaisquer efeitos práticos. O que era (é) o conselheiro Acácio senão um palavroso, adulado, reverenciado pelo que dizia, mas simultaneamente de uma flagrante inoperância? Todo o teórico, sem ligação à prática, que julga que tem a Verdade e que a pode dizer, com irrefutável certeza, julga-se um Sol... mas anda na lua! A grande diferença, em Habermas, entre teoria tradicional e teoria crítica, reside no facto de a teoria crítica visar a emancipação do ser humano, mediada historicamente, ou seja, hoje, uma teoria deverá apresentar-se com um interesse prático de transformação. A teoria é necessária, indispensável, mas só como “razão prática”, no meu pensar, se justifica.

Jorge Jesus exige, para sua justa interpretação, o concurso de inúmeros fatores, como é de uso fazer-se com uma figura pública e de grande relevo, como ele o é. O que me ocorre, desde já destacar é que, na sua profissão, é um “prático”: foi jogador de futebol e é, hoje, treinador de futebol. Os seus conhecimentos resultam da sua prática diária, quer como antigo jogador, quer como atual treinador. E é neles que ele acredita, porque foi com eles que chegou aos cumes mais altos do futebol nacional (é o treinador mais titulado, em Portugal, com 11 títulos em quatro provas). Em trabalho, que me foi confiado, ainda no prelo, da autoria de Gustavo Pires e António Cunha, “quando se trata da própria equipa, o treinador deve considerar os seguintes aspectos: o desenvolvimento pessoal de cada jogador; a dinâmica de relações, no grupo; a organização e o planeamento do trabalho; a partilha das derrotas e dos êxitos; o processo de autoavaliação e controlo” E continuam os autores: “Nas organizações aprendentes (típicas da sociedade pós-industrial, onde as organizações se mostram capazes de criar sistemas de auto-aprendizagem) a espiritualidade da liderança, enquanto partilha de valores, de crenças, de perspetivas de vida e de auto-conhecimento coletivo, é uma realidade que pode determinar as condições propícias à organização da vitória”. Quando lhe cabe o encargo de uma conferência de imprensa, estes são assuntos de que pouco se ocupa o Jorge Jesus. Risonho, flamante, fala dos seus méritos que são muitos, de facto. Fala dos seus méritos... porque, como já o acentuei, é na sua própria prática que ele verdadeiramente acredita! Não tem uma cultura livresca, nunca fez uma pesquisa bibliográfica, mas tem um conhecimento tão meticuloso e tão intensamente vivido dos problemas técnicos e táticos do futebol, que imediatamente deslumbra os jogadores que, na sua esmagadora maioria, se rendem à sua “razão prática”.

E, porque é um homem onde as “razões do coração” predominam sobre as “razões da razão”, dificilmente o seu comportamento merece uma concordância ou uma discordância generalizadas. No entanto, não é verdade que a grandeza de uma obra se mede mais pela pluralidade das reações que suscita do que pelo afinado e vulgar coro de mesuras, venenoso obséquio que mais empobrece do que enriquece um objeto de estudo? E, porque é cordialmente extrovertido, Jorge Jesus não sabe furtar-se ao risco de mostrar quem é e como é. Quem é? Um sublime iletrado, que faz o que muitos (muitíssimos) letrados não sabem fazer: ser líder de uma equipa de futebol de alta competição. Tendo chegado ao Benfica, já com mais de 50 anos de idade, fica na história deste Clube como o treinador de futebol que mais troféus conquistou: 3 Ligas, 1 Taça de Portugal, 5 Taças da Liga e 1 Supertaça. É verdade que o seu trabalho não seria tão vivo e fecundante, se não beneficiasse do apoio do presidente Luís Filipe Vieira que já logrou, no Benfica, obra de tamanho relevo, que a obra feita ultrapassa o criador e fixa-se na perenidade deste glorioso Clube. No entanto, a exuberante competência de Jorge Jesus também deixou embevecidos e encantados todos os benfiquistas. Não há que negá-lo! Como é? Emotivo até à raiz dos cabelos, romântico impenitente, cavaleiro andante de uma grande paixão pelo futebol, o atual treinador do Sporting Clube de Portugal é, sem possível contestação, um treinador de grande improvisação e talento, de refulgente audácia e nervo. O impudor descabelado da palavra representa nele o primado do conteúdo sobre a forma, ou seja, o que ele quer dizer da sua vivência do futebol parece não caber no alfabeto. O seu modo de interpretar o futebol é o que lhe interessa exprimir, salientar e cultivar. Recordo o verso de Régio: “mas eu que nunca principio nem acabo” é o que Jorge Jesus diz de si mesmo, ao falar de futebol...

Conheci Jorge Jesus, porque de mim se aproximou (ou melhor: do Homero Serpa e de mim), era ele então o treinador do C.F.”Os Belenenses”. E ficámos amigos, até hoje, até sempre. Durante um ano, fui seu adjunto e revi com particular atenção o que já aprendera com José Maria Pedroto e José Mourinho. Jorge Jesus um iletrado? Mas sublime, quero eu dizer: não trabalha por imitação, ou por moda. Como Hegel dizia de si mesmo: “Eu fui condenado a ser filósofo”. Ele poderá dizer: “Eu fui condenado a ser treinador de futebol”. Ou seja, ele treina, porque não pode fazer outra coisa. É um grande treinador de futebol. Indubitavelmente. Letrado ou iletrado, pouco importa! Ele é! E vai ser mais porque ele e Bruno de Carvalho vão de par. Como dois gémeos, na vontade enorme de refundar o Sporting.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.
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