Brasil: os Vampiros atacam ao amanhecer (artigo de José Antunes de Sousa, 5)

Espaço Universidade 31-07-2015 16:22
Já por diversas vezes me referi ao que considero ser o teor encantatório do futebol brasileiro: vejo-o como expressão intencional de um genuíno encantamento, a roçar o erotismo, de uma gestualidade acrobática e levemente narcísica, mas que é também, nessa sua plástica expressividade, motivo de encanto para quem o testemunha e observa.

Confesso que vinha com esse paradigma ainda bem vivo em mim, mas, após ver alguns jogos, reconheço que me invadiu o desencanto. E eis que a minha alma anoiteceu na réstia mortiça de um crepúsculo de fim: algo, amigos, no futebol brasileiro está morrendo. E a morte mais triste e mais chocante é quase sempre a daquele que morre sem que tempo sequer tenha tido para crescer! Morrer na idade de todos os sonhos é morrer antes de verdadeiramente ter vivido.

E a muitos futebolistas brasileiros, certamente aos melhores, acontece morrerem para a exuberância artística de um corpo em movimento esférico – a esfera, símbolo da perfeição! – mesmo antes de nisso se verem confirmados em pleno: são literalmente arrancados pela raíz, no viço auspicioso da sua flamejante criatividade: e sobrevém o rigor amordaçante da disciplina táctica em ordem ao sacrossanto desígnio da vitória a todo o custo, o preço inegociável de um único objectivo – o lucro.

E é a tal ponto inundante e alucinogénico este clima mercantilista e argentário deste novo futebol – que paradoxalmente remete para o que no ser humano tem de mais velho e caduco (a obsessão pelo ter) -, que os próprios jovens, afinal as reais vítimas deste assalto desumanizante das garras predadoras de um capitalismo ostentatório, são os primeiros – imagine-se! – a instalarem-se festiva e gostosamente neste circo kafkiano, que é mais que tudo um cerco, da exploração obscena da alma de um povo, neste caso, o brasileiro, mas não só.

São objectivamente vítimas, que o são, sem dúvida, mas, aos poucos, quando não mesmo de repente, se tornam, também eles, actores cúmplices desta lógica adulterante e vampiresca do futebol moderno – sem espaço para a genuína expressão local de uma arte verdadeiramente popular.
Dir-se-ia que são, num primeiro momento, vítimas de uma espécie de pedofilia mercantil, mas rapidamente se integram activa e intencionalmente no processo que ínvia, mas objectivamente, os diminui humanamente, ainda que à custa do ilusório reforço da conta bancária. Mais: há todo um clima de proactividade mercantilista na sociedade brasileira e nas sociedades em geral, que leva os próprios pais, desde bem cedo – mal surgem nos filhos os primeiros sinais de um jeito especial para o chuto na bola – na senda de uma lógica, dura e grossa, de tentar rentabilizar ao máximo o produto – leia-se os dotes do filho que, assim, gostosamente aceitam coisificar, reificar, como se de uma mera mercadoria se tratasse. Resultado: uma plêiade de jovens promissores, arrancados, no viço da promessa, ao aconchego telúrico onde despontaram, ridentes e felizes, são transplantados para os campos frios da geometria europeia de um sucesso à força, onde se vêem obrigados a hipotecar a sua espontaneidade aos ditames da táctica e da manha calculista. Talvez um pouco também por isso, é notório o medo paralisante de que são possuídos os jogadores do campeonato brasileiro perante aquele rectângulo fatal que, em Portugal, dá pelo nome de baliza e por cá se preferiu o anglicismo do gol: enerva a sua incapacidade em converter em festa o que resta do seu tradicional bailado em campo – uma inépcia que só o impiedoso cutelo do resultado pode, de algum modo, justificar.

E assim se vai desvitalizando o futebol-arte, com um misto sincrético de samba, capoeira e talvez mesmo de quizomba, de um Brasil de encantamento e fascínio – é o tempo dos vampiros! Que atacam, sem dó nem piedade, ao romper da aurora do sonho e da arte – e assim se vai corrompendo o sangue do futebol de Pelé, Rivelino e Garrincha. O que sobra é anémico e espesso: requer muitos e urgentes cuidados médicos, não vá dar em acidente cardiovascular!

Mais grave, porém, é o seguinte: não é apenas o facto notório de um futebol brasileiro menos atraente, menos criativo, mais monótono, por ausência dos melhores artistas, não. Tem mais: é também o facto, perigoso, de uma crescente cedência a um futebol racional, um futebol a regra e esquadro, um futebol manhoso e calculista que um indecoroso primado empresarial dos magnatas fez vingar, sobretudo na Europa.

E, neste sentido, este modesto texto assume declaradamente um tom elegíaco não apenas em relação ao actual futebol brasileiro – e quanto me custa fazê-lo! -, mas em relação ao futebol em geral – um futebol que está trocando a festa e o fervor das arquibancadas, como se diz por aqui, pelos ditames frenéticos do lucro desenfreado de Wall Street.

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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