Milagre na praia (artigo de José Antunes de Sousa, 4)

Espaço Universidade 23-07-2015 16:41
Por José Antunes de Sousa
Da mesma forma que sempre fomos bons a navegar, mesmo em mar encapelado, por entre alterosas ondas sem por elas nos deixarmos submergir, parece que o somos igualmente na arte de nos movermos airosamente nas areias sem nelas nos deixarmos atolar.

Quando me preparava para sublinhar o que parece ser um nosso atávico tremor perante o ressoar convocativo das tombetas da glória, este nosso encolhimento ante a evidência do céu, perante a qual nos costumamos encolher como lesmas, tudo em reacção ao decepcionante desfecho dos últimos desempenhos dos sub-20 e sub-21, eis que, nas areias espinhenses, que não propriamente espinhosas, os nossos garbosos rapazes erguem, orgulhosos, o símbolo do ceptro mundial de futebol de praia.

Mas, perante os últimos eventos, com amargo sabor a dolorosa frustração, apetece dizer que aqueles feitos terão constituído não mais do que um hiato paroxístico de audácia e criatividade. Mas, para pena nossa, e por isso mesmo, não foi moda que tivesse pegado!

Não parece, de facto, haver maneira de ganharmos o hábito da continuidade – a maçada da disciplina diligente, do esforço persistente, não: nós, decididamente preferimos os impulsos criativos, as imprevistas irrupções de génio. Não nos alimenta a alma o suor e a fadiga de um afincado e metódico esforço quotidiano, não somos propriamente adeptos da ascese – preferimos a mística! Respeitamos Apolo, mas preferimos os braços de Dioniso!

Nós, os portugueses, parece que alimentamos o nosso acervo identitário não tanto de etapas judiciosamente previstas e consequentemente prosseguidas, mas, mais bem, do «colapso» de uma consciência predominantemente lúdica, como que entretida numa espécie de processamento inconsciente do qual irrompe a onda súbita de uma nova realização que lógica nenhuma poderia fazer antever. Parece sermos mais convivas de uma mente dos deuses do que da mente condicionada e prevenida dos homens – daqui, quem sabe, o nosso abandono providencialista e até o nosso sonho sebastianista!

Se aos alemães, por exemplo, parece moldá-los mais que tudo a previsibilidade de um objectivo a que procuram chegar passo a passo, de forma continuada e sem desvios, nós, em contrapartida, parecemos darmo-nos melhor com os ares rarefeitos da excepcionalidade, da imprevisibilidade – afinal, o mundo da intuição! E, nesse mundo ditado pelo coração, colocamos toda a nossa segurança.

Nós não somos propriamente filhos da racionalidade lógica, discursiva e decursiva – somo-lo antes de uma certa racionalidade dialéctica, cordial, que, de algum modo, concilia os contrários, os opostos – talvez por isso sejamos desembaraçadamente familiares do oito e do oitenta, movendo-nos, com surpreendente desenvoltura, entre o céu e a lama.

A nossa vida realiza-se sobretudo nos intervalos: somos capazes de grandes sacrifícios a pensar nas férias em Armação de Pêra e no prazer de um jantar no frango à guia! Somos seguidores da contenção modulada, recomendada por Séneca, que, do alto da sua parcimónia, declarou que: «aliquando insanire jucundum est», ou seja, que sabe muito bem cometer de vez em quando um excesso, uma loucura!

Contra o Brasil, por exemplo, sabe-se lá se por um tortuoso e ancestral tique de uma remota má consciência, os nossos rapazes mais novos ofereceram ao adversário, completamente de graça, uma superioridade que este nunca alardeou, e os mais velhos, talvez assustados com a sombra de uns moços altos e louros, ou quem sabe se por medo ainda dos vickings, sucumbiram aos pés de uns suecos incomensuravelmente menos dados ao
afago da redondinha.

Pois é, quando a felicidade espreita , escondemo-nos, não vá ela atrapalhar, como se ser feliz fosse de mais para esta nossa triste condição. Enquanto os suecos, com o seu histórico de progresso e bem-estar, talvez se tenham sentido mais familiarizados com a felicidade, nem que seja a felicidade rasa e alvar dos idiotas, os portugueses sucumbiram, quem sabe, sob o peso de uma memória de aflição e sacrifício. Habituados a uma certa vida arrastada de sapo, quando se lhes oferece a vida de príncipe, os portugueses refugiam-se no fundo da sua lodosa resignação – que, afinal, é nas águas paradas e turvas que eles se dão bem!

Nós vivemos na rudimentar calma de uma vida que vai indo – até que, por acção de uma qualquer aflição, nos lançamos na demanda das estrelas. Nós não somos muito dados à acção – preferimos ter que reagir a uma provocação. E isso faz de nós um povo letárgico, se bem que com momentos de heroísmo. E, nesses momentos de espasmo, feitos de coragem e intuição, somos realmente incomparáveis – sempre com a providencial ajuda do indispensável aperto!

Somos um povo vulcânico – e, de tempos a tempos, temos uma irrupção de lava criativa, maturada ao longo de uma gestativa dormência.

Somos um povo de situações-limite. E, nisso, está simultaneamente a nossa limitação e a nossa grandeza!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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