O avião do Casillas (artigo de José Antunes de Sousa, 3)

Espaço Universidade 17-07-2015 17:16
Por José Antunes de Sousa
Atenhamo-nos aos factos e vamos directos ao assunto: Iker Casillas foi literalmente despejado do palácio dourado que ele próprio ajudara a construir e a decorar. De herói, passou, num ápice, a causa de indisfarçável desconforto – é a consabida ambiguidade passional que caracteriza a girândola desse mundo de sombras e sonhos que é o futebol. Por um tortuoso desígnio desta insondável humanidade, eis que um dos mais idolatrados ícones do olimpo madrilista é descartado e posto à porta da rua!

Ora, chegados aqui, os responsáveis do clube merengue viram-se atados a um aflitivo dilema: expulsar sem humilhar, despedir dando embora a impressão de estar colaborando num certo renascimento – certamente, a quadratura do círculo! Sim, que só há renascimento quando nele se envolve o coração – e o dele continua onde sempre esteve: em Madrid.

Estratégia de recurso da direcção, mais concretamente de Florentino Peres: que ele ficasse suficientemente longe para não continuar a incomodar e perto o suficiente para não parecer que foi desterrado – e aqui os responsáveis do Madrid devem ter abençoado a histórica rebeldia de Afonso Henriques! E, claro, neste sentido, o Futebol Clube do Porto surge como o palco ideal para tal encenação – além de ser um dos mais assíduos e mais bem-sucedidos comensais do banquete de milionários que é a Champions League.

Isto, apesar do destempero alucinado de uma mãe, inadvertida e ignorante, que, contrariando a mais meridiana evidência dos factos, não hesitou em lamentar o triste fado do filho que, certamente por precipitação ou desconhecimento, vejam só, escolheu “um clube da segunda divisão”!

Já não há pachorra para tão insolente estultícia. Não podemos permitir que se trate assim o nosso país, só o mais antigo da Europa. Eu bem sei que esta senhora não merece que eu lhe esteja a alimentar a sua efémera fama, mas, convenhamos, não é esta pessoa em concreto que me interessa denunciar, mas sim o paradigma sociológico que pessoas como ela, de algum modo, reflectem e representam.

É essa mediania, acéfala e pretensiosa, que olha para Portugal como se fosse apenas um encantador - e nostálgico! - apêndice de uma Castela, doida por um mar que a sábia Natureza lhe regateou. É essa ufana idiotice a tresandar de batom e de rímel, que este episódio de deselegância denuncia: uma leviana jactância , amparada na rasa e dúbia ilusão de um chá vespertino na ruidosa esplanada da “Plaza Mayor” de gente que, assim, crê, quem sabe, poder ver-se como gente “más grande”. Só que é ilusório tal vislumbre, que a grandeza, quando genuína, vive-se – não se proclama, nem se exibe.

O implícito desdém por Portugal reflectido nas insensatas palavras desta senhora assenta, quiçá, num etnocentrismo narcísico e certamente míope que se alimenta, está bem de ver, de uma ostensiva ignorância do outro – e quem o outro ignora mal a si próprio enxerga!

É por estas e por outras que o meu filho declara resoluto: “ Real Madrid, nunca. É a bandeira do imperialismo castelhano!” De resto, não é certamente por acaso que é Xavi, um catalão, que sai fervorosamente em defesa do colega de profissão, misturando nessa defesa venenosas ferroadas contra o Real. E eis que dou comigo a recordar o rocambolesco e esclarecedor processo franquista da contratação de Alfredo Di Stéfano ao “Milionários” de Bogotá e subsequente desvio para Madrid até fazer deste argentino um dos expoentes máximos da iconografia do regime. Como me veio ao pensamento a sanguinária e sumária execução, nas cercanias do próprio estádio, do Presidente do Barça, Josep Sunyol, às mãos de um pelotão menor de falangistas nacionalistas e que, deste modo, virou mártir da causa independentista da Catalunha!

Confesso: temo que este desajeitado etnocentrismo , uma espécie de orgulho tribal, latente ainda que não confesso, possa dar péssimos resultados – cuidado!

Agora uma palavra mais ao outro protagonista deste comovente episódio e do qual quase se não fala, não fora a excepção da inefável senhora do alto da sua supina ignorância: o FCP.
Indiscutível: jogada de mestre, no que toca ao marketing, sem dúvida: o FCP vai-se fartar de vender camisolas com o número 12 – pelo menos até que o Casillas comece a dar as suas “casas”, as mesmas que agora o puseram fora de casa!

Mas vamos lá ser sinceros: não havia necessidade, como diz o outro. Não era preciso expor assim a nossa gula de rapa-tachos – merecemos mais!

Porque, afinal, o show mediático, à escala global (o que prova que a leviandade não é um exclusivo dos portugueses), de uma singela aproximação de um avião deveu-se, estou certo, muito mais à curiosidade pelo insólito do despejo de um herói caído em desgraça, do que por um qualquer fascínio pelo seu novo paradeiro.

Ressalvando a mestria da jogada publicitária, publicitária, friso, do FCP, confesso que me desconforta esta nossa irritante tendência para a festa feita de restos. Custa-me que nos contentemos com as canas dos fogutes que outros deitaram e nos babemos só de espreitar no buraco da fechadura da porta do vizinho em festa.

Mas há também, um halo de crepúsculo em tudo isto: os 102 canais de televisão, com todo o mundo a espreitar, a ver quem se dispôs a acolher os despojos de um herói, “por quem os sinos dobram!” E, embalados no nosso doce e extasiado provincianismo, lá ficámos todos especados, de olhos esbugalhados, a olhar para o ar à cata do avião do Casillas a caminho do exílio, assim se cumprindo, uma vez mais, a nossa histórica sina de sermos Bom Abrigo para as tormentas lá de fora.

Mas há uma nota final a que não resisto: o Casillas, símbolo cadente do Real Madrid, veio refugiar-se no Portus Cale – esse belo Porto recortado por um Douro serpenteante até se dissolver no tão invejado mar. E lembrarmo-nos nós que foi aqui, a partir desse Condado que, fazendo jus ao nome, Afonso Henriques fundou esta nação de quase nove séculos!

Talvez esta ironia, que prefiro ver antes como significativa coincidência, possa, quem sabe, ajudar a Doña Mari Carmen a descobrir os encantos da bela ciade do Porto.
E, então, tudo terá valido a pena – que atrás dela virão aos milhares!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília.
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