Carta a Eugénio Lisboa (artigo de Manuel Sérgio, 95)

Ética no Desporto 16-07-2015 23:57
Por Manuel Sérgio
Querido amigo:

Releio as Cartas a Columbano (Portugália Editora, s/d.) de Manuel Teixeira-Gomes, que assim começam: “Querido amigo” e senti-me tentado a iniciar do mesmo modo esta carta que me atrevo a dirigir-lhe. No entanto, como ambos somos “homens de boa vontade”, atravesso sem detença as dúvidas que me assaltam, neste momento, e fico-me e fixo-me no “Querido amigo”.

Demais, duas notas poderei eu acrescentar: a minha admiração pelo escritor e pelo poeta, que o Eugénio Lisboa é; e, porque não dispenso o requintado gosto dos jornalistas e colaboradores (a começar pelo diretor, José Carlos de Vasconcelos) do JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias) sinto-me habilitado a realçar o autêntico magistério, em prol da Cultura, que define a colaboração do meu amigo, neste Jornal. Trata-se de um acréscimo de luz aos que não aceitam, nem a sociedade de mercado, nem aquele desporto que a reproduz e multiplica.

Aliás, ao abrir o JL, de 2015/6/24, o seu artigo: “Futebol - há limites para tudo” permitiu-me, currente aclamo, dialogar com mais um amante do furebol: “(...) também eu gosto de ver um bom jogo de futebol e também na minha adolescência o joguei, em Lourenço Marques. Rever o Eusébio, meu conterrâneo, a fulgurar, em Liverpool, ainda me causa arrepios de prazer e admiração”. Mas acrescenta o meu amigo. “nada disto tem que ver com a venda de jogadores e treinadores, por milhões de euros, como produtos de luxo, nem com clubes cuja identidade, de tão diluída e conspurcada, muito difícil se torna definir”.

E assim “o nobre jogo do futebol (…) só pode ser não-profissional, para ser limpo e escorreito”. Não se pode, portanto, sem falsear o conceito de Desporto, auferir quaisquer proventos, pela prática desportiva. Podem os bailarinos, podem os músicos, podem os artistas de teatro, de cinema ou de televisão ganhar o seu “pão de cada dia”, numa palavra só: podem ser profissionais! Os futebolistas que pretendem treinar-se, para melhores desempenhos, ficariam, no seu entender, impedidos de encontrar no desporto a sua profissão (o futebol é modalidade desportiva, como todas as outras).

No 5º. Solilóquio das Cartas a Columbano escreve Manuel Teixeira-Gomes, com repousada atenção crítica: “Na divisão tão arbitrária dos ramos das Belas-Artes, exclui-se a literatura e a poesia e admite-se geralmente como carácter essencial à obra de arte pròpriamente dita a expressão material e duradoura: na pedra e nos metais, no desenho e nas cores, etc. A dança, por exemplo, que se não revela em criações permanentes (?), que morre com os bailarinos, já não seria uma arte. Tudo isto é prejudicialíssimo à concepção da obra de arte, que para cabalmente a compreendermos deveria ser estudada fora das manifestações plásticas, nos produtos do pensamento, como a prosa e a poesia, abstraindo do ritmo e do som”. Linhas adiante, o escritor não deixa de atribuir alguma importância à remuneração dos artistas: “O artista, pelo menos, deseja fama, glória e nenhum despreza o lucro”. Se me permite sublinho e nenhum despreza o lucro.

Continuo a citar um autor que foi verdadeiramente um esteta, como sabe: “Que o belo seja a essência das artes plásticas é indiscutível, mas que seja do seu exclusivo domínio é contestável. Quantas atitudes, quantas acções de simples rústicos são divinamente belas. As artes plásticas também investigam e traduzem a beleza espiritual, a beleza da alma; a poesia escrita, porém, é a que mais cabalmente a exterioriza”. Urbano Tavares Rodrigues, que se doutorou, na Faculdade de Letras de Lisbia, com uma tese sobre Teixeira-Gomes, assinala que “é na micro~estrutura que o seu génio literário, por via de regra, atinge o acume” (M. Teixeira-Gomes: o discurso do desejo, edições 70, p. 215).

Continua meu comvencimento que o objeto da estética é a indagação da emoção estética, do sentimento estético, do juízo estético. E Maurice Nédoncelle, na sua Introduction à l`esthétique, propõe uma classificação das artes, com as artes tactilo-musculares, onde cabem o desporto e a dança. Donde se infere que a emoção e o sentimento e o juízo estéticos se podem sentir e estudar, na prática desportiva.

Parece-me portanto de critério estreito, de aperreado juízo, uma injustiça mesmo, que, entre os artistas, só na prática desportiva esteja inplícita a impossibilidade de encontrar nela uma profissão respeitável e respeitada. Não são o Messi, o Ronaldo, o Neymar três artistas (poderia lembrar alguns mais) que enchem de júbilo milhões e milhões de pessoas? Não são eles três improvisadores de génio? Não há beleza, na sua linguagem corporal e beleza que, porque é de admirável execução, supõe trabalho e força e vontade? E por que será que esta prática, que deverá ser diária e demorada e absorvente não pode ser remunerada? Tenho para mim (e já o digo, há muitos anos) que o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo. Mas que resulta de uma homeostasia organizacional.

De facto, a vida das organizações (incluindo as desportivas) “deve ser gerida pela sustentação duma homeostasia organizacional, quer dizer, através duma gestão parcimoniosa e inteligente dos equilíbrios e desequilíbrios, que têm a ver com os processos de tomada de decisão, conducentes à afectação de recursos que são escassos, tendo em atenção aquilo que se designa por desenvolvimento sustentado (…).

Chester Bernard (1886-1961) defendia que uma verdadeira organização é aquela que proporciona condições de desenvolvimento e de sucesso não só a si própria como aos indivíduos que nela trabalham. Aliás, isto não é mais do que aquilo qur cada um de nós, enquanto organismo vivo, faz em relação aos equilíbrios internos e externos, que tem de gerir, quer em relação à sua própria vida pessoal, quer em relação à sua vida social” (Gustavo Pires, Gestão do Desporto, apogesd, 2000, p. 12). Que o mesmo é dizer: hoje, o desporto não é jogo tão-só, é trabalho também. Como reflexo que é de uma sociedade altamente competitiva. As categorias de competição, de medida, de rendimento, de recorde, típicas da sociedade de mercado (e não de uma sociedade com mercado, expressão feliz que eu colhi em Manuel Reis) emergem do espectáculo desportivo, como de qualquer outro espetáculo, onde a remuneração dos seus artistas não se discute.

Também as políticas públicas de apoio ao desporto, atendendo ao seu rigor e multidimensionalidade, exigem profissionais, especialistas de várias áreas do conhecimento. E destinam-se, em boa parte, a artistas profissionais, sempre em busca da excelência, nos seus desempenhos – excelência de cinzeladores infatigáveis do “corpo em ato”, da motricidade humana, que só o profissionalismo permite. Mas faço coro com o Eugénio Lisboa, quando denuncia com veemência que “há limites para tudo”. Para mim, e diante da crise económico-financeira que assola o mundo todo, sou tentado a escrever que o futebol é a coisa mais importante das coisas pouco importantes.

E, “quando se atiram petardos, dentro dos estádios de futebol, ou neles se agridem barbaramente os jogadores, está-se apenas a dar vazão à pressão produzida por toda uma cultura que não preserva um único valor digno de ser preservado”. E a corrupção? E o doping? E a violência física e verbal? E a especialização precoce?; De facto, neste futebol, “os Joseph Blatter não aparecem por acaso; são um corolário”. Demasiadas vezes, este futebol adormece as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida; demasiadas vezes é o deus-lucro a divindade suprema deste futebol; demasiadas vezes, ele pratica-se carregado de evocações e símbolos bélicos; demasiadas vezes dele nascem homens unidimensionais da sociedade unidimensional onde o outro é sempre o adversário que é preciso vencer.

Mas nem por isso o futebol deixa de ser também um espaço de encontro entre pessoas de clubes e camisolas e ideologias diferentes. Nem por isso ele já deixou de ser um contra-poder ao poder dominante. Fui daqueles que, no Estádio Nacional, na companhia de dois dos meus filhos, assisti à final de Taça de Portugal, em Junho de 1969: um Benfica-Académica que foi a maior manifestação contra a ditadura salazarista e marcelista, que os meus olhos puderam contemplar. Ainda há pouco o meu Amigo José Barata-Moura referia que “o campo artístico não é um domínio vazio, nem uma correnteza de ares. Dispõe de um interior com recheio” (Três ensaios em torno do pensamento político e estético de Álvaro Cunhal, Ed. Avante). Poderemos dizer o mesmo do desporto. E se o Eugénio Lisboa ler e meditar Pierre de Coubertin encontrará no desporto um admirável “recheio” ideológico e filosófico. Pode crer!

Temo já ter excedido o espaço que me concederam, mas ainda cabe um abraço de sincera admiração e simpatia.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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