Francisco Lázaro – A Primeira Morte nos Jogos Olímpicos Modernos (artigo de Gustavo Pires, 16)

Espaço Universidade 15-07-2015 17:40
Por Gustavo Pires
No dia 15 de julho de 2015 completam-se 103 anos sobre a morte de Francisco Lázaro (1888-1912) que, nos Jogos da Vª Olimpíada realizados em Estocolmo naquele ano, colapsou por volta do trigésimo quilómetro da corrida da Maratona.

Se, como refere Manuel Sérgio “… os Jogos Olímpicos constituíram um fecundo ponto de encontro entre o desporto, a arte e a religião, contribuindo para um conceito de homem ideal, onde convergiam a prática da religião tradicional, a força física e a cultura artística”, Francisco Lázaro, ao morrer em plena Maratona a prova rainha dos Jogos Olímpicos (JO) que era a primeira participação portuguesa naquele certame internacional, compreende-se que se tenha transformado num dos maiores mitos, porventura o maior mito do desporto português. Porque, se o desporto é um natural dispositivo social criador de mitos, a corrida da Maratona, pelo seu envolvimento de esforço, sofrimento, religiosidade e morte, é-o por excelência ao criar heróis como Carlos Lopes, Rosa Mota e tantos outros que, hoje, se projetam no País e no Mundo para além deles próprios.

Contudo, nesta hora em que celebramos um herói nacional, não podemos deixar de nos questionar o que é que pode ter levado, ao longos dos últimos mais de cem anos, milhares de atletas por todo o mundo a lançarem-se na corrida da Maratona, alguns sem condições, outros com enormes sacrifícios e, ainda outros, só pelo espírito de aventura num desafio à própria morte. Repare-se que a generalidade das pessoas pensa que correr a Maratona é, tão só, uma questão de pernas, de pulmões e de coração. Claro que é mas também é muito mais do que isso. Como refere Raymond Belliotti que se diz mais do que um filósofo porque se afirma um “filósofo da corrida”, desde que as capacidades físicas estejam garantidas, correr a Maratona proporciona uma enorme quantidade de tempo para pensar. Não um pensamento qualquer mas um pensamento especialmente puro, na medida em que aquele que corre uma Maratona, no seu esforço e entrega totais, está liberto de todas as preocupações do mundo. Quando corre, diz Belliotti, o atleta encontra-se verdadeiramente consigo próprio, na pureza dos seus pensamentos. E conclui: “corro, logo penso” e se penso, diria Descartes, logo existo.

A este respeito, Duarte Rodrigues, diretor técnico da revista Tiro e Sport, a propósito da quinta Corrida da Maratona realizada em Portugal no ano de 1911, escrevia: “o homem deve estar feito quando chamado a pagar o seu tributo de sangue,…” Dizia ele que se era nas sociedades desportivas que o atleta se preparava era das sociedades desportivas que saíam os melhores soldados, …”. É este sentido de sofrimento que constrói o mito. Como refere Proença Garcia (1994), o mito no desporto está para além do campo das realizações humanas, porque apenas está reservado a seres “sobrenaturais” que dão um sentido pátrio à existência das nações.

Por isso, a celebração dos heróis desportivos opera uma transfiguração não só das proezas conseguidas como, também, dos próprios protagonistas e daqueles que os celebram. Por isso, se a verdadeira história do desporto, como refere João Boaventura, não reconhece uma rutura absoluta entre os jogos rituais arcaicos e as competições desportivas atuais, a organização do desporto moderno só ganha realmente significado se for gerida de acordo com eles.

Quer dizer, os heróis, vivos ou mortos, fazem parte do desporto tal como o desporto faz parte da vida da comunidade. E as comunidades necessitam dos heróis que lhe dão vida. Porque, como refere Vítor Serpa por parte da comunicação social “… é inevitável a tentação de acompanhar os grandes acontecimentos desportivos, como os Jogos Olímpicos, pela marcada influência do canto do herói dos tempos modernos. A fabricação do ídolo, a veneração do feito, da capacidade da diferença, marca, definitivamente, o jornalismo moderno, que se desobriga da simpática referência à pequena vitória, ao bem-aventurado esforço do atleta perdedor”.

Francisco Lázaro é, hoje, considerado um herói nacional. Em Portugal, o dia 14 de julho devia ser considerado o “Dia do Herói Desportivo”. Não porque Lázaro tenha vencido mas porque teve a coragem de desafiar a vida para além da morte. Ele, como refere Vítor Serpa, desencadeou a “veneração do feito”, demonstrou a “capacidade da diferença” e, tendo mesmo sido derrotado pelos infindáveis quilómetros da Maratona, foi capaz de ultrapassar o “bem-aventurado esforço perdedor”. E, por isso, superou a condição de “simpática referência” na medida em que, com o seu ato de abnegação passou a fazer parte das lendas mais queridas do desporto que habitam a memória coletiva dos portugueses. Mas como a memória de Lázaro pertence muito mais à tradição oral do que à escrita a sua morte está envolta em inúmeras suposições e interrogações acerca das quais a argúcia popular e o oportunismo político encontraram uma resposta breve, simples, certamente incompleta e, muito provavelmente, errada.

As razões apresentadas pelos jornais para a morte de Lázaro foram múltiplas: insolação, estricnina, colapso cardíaco… meningite e, até, problemas intestinais. As explicações políticas, mais ou menos oficiais, disseram que Lázaro morreu porque se ensebou e foi vítima de um golpe de sol. Sobretudo estas últimas, as oficiais, não convencem, na medida em que se limitam a atirar para cima do atleta a total responsabilidade pela sua morte para, depois, todos ficarem de consciência tranquila. Quer dizer, na ânsia de quererem fazer esquecer uma morte para a qual não encontravam explicações, injustamente deixaram cair toda a responsabilidade sobre o atleta a quem chamavam o “rapaz humilde” e, entre outras considerações, diziam que não falava um português correto e não sabia utilizar convenientemente o garfo e a faca. E, como ele, na sua ignorância, se ensebou e, na sua casmurrice, não cobriu a cabeça para se proteger do sol, acabou por pagar com a vida tais ousadias.

Não se pode aceitar que, à custa dos ridículos discursos do sebo e do sol, se continue a lançar sobre Lázaro a responsabilidade pela sua morte que só ocorreu devido à “estupidez natural” da condição social do atleta. Na realidade, a morte de Lázaro nada tem a ver nem com os efeitos diretos do sebo nem com os do sol. Sobre o sebo, era usual os corredores protegerem do frio as articulações, sobretudo a tibiotársica. Sobre o calor, os jornais da época informaram que Lázaro lhes tinha dito: “O calor não me incomoda: até folgo que o haja, porque fará afastar alguns concorrentes”.

A cultura da época era uma cultura permissiva relativamente à emborcação para efeitos psíquicos. A utilização de koca, estricnina e outros aditivos psíquicos era não só tolerada como, em algumas circunstâncias, incentivada nos meios desportivos. Repare-se que nos JO de S. Louis (1904) o americano Thomas John Hicks (1876-1952) e nos JO de Londres (1908) o italiano Pietri Dorando (1885-1942) cortaram as respetivas metas completamente emborcados de estricnina e álcool e só não desfaleceram em plena pista porque foram amparados por dirigentes e juízes.

Por isso, as circunstâncias de Lázaro têm de ser avaliadas não só de acordo com a cultura do seu tempo como, também, tendo em atenção as deficientes condições técnicas e higiénicas que, de uma maneira geral, envolviam as competições desportivas. Segundo Jean-Pierre de Mondenard (1986), algumas drogas que têm ação sobre o sistema nervoso podem, em algumas circunstâncias, favorecer a ocorrência de um sobreaquecimento mortal como aconteceu a Francisco Lázaro.

No fundo a corrida da Maratona é para o maratonista uma intrínseca vontade de poder sobre si próprio no sentido da busca da transcendência. É a procura da revelação divina, tal como está escrito à entrada do santuário de Delfos: “Ó homem conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses do universo”. E assim, Francisco Lázaro, um jovem com apenas 23 anos de idade, acabou por falecer às 6 horas do dia 15 de julho de 1912.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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