No Benfica: estrutura ou carisma? (artigo de Manuel Sérgio, 90)

Ética no Desporto 23:50
Por Manuel Sérgio
As casas adormecem, imóveis, no silêncio da tarde. Veraneio no Algarve, na companhia da minha mulher, E sei, pela televisão, que o Rui Vitória é o novo treinador do Benfica. Recordo-me dele, na Faculdade de Motricidade Humana. Foi meu aluno, na disciplina de “Epistemologia da Motricidade Humana”.

Se bem me lembro, ele era, nesses anos da década de 90 do século passado, jogador profissional de futebol (no Alverca? No Vilafranquense?). Sempre elegante, probo, aprumado, tinha uma qualidade que me deliciava encontrar nos alunos: escrevia em bom e sugestivo português. Quando teve a bondade de oferecer-me o livro da sua autoria, A Arte da Guerra – Para Treinadores (topbooks, Lisboa, 2014) não estranhei a graça e a leveza do seu estilo literário. Há coisas que não se esquecem. Não é assim?... Deste livro de Rui Vitória se pode fazer o melhor dos elogios: merecia, de facto, ser publicado! Nele, encontrei um texto que nos revela bem quem é o atual treinador do Sport Lisboa e Benfica: “No desporto, a parte mental é determinante (…). Quando escolho jogadores para trabalharem comigo, procuro conhecer exaustivamente a sua personalidade, o seu estilo de vida, qual a sua trajectória em termos de vitórias e derrotas”. Só depois “procuro perfis técnicos, táticos, físicos e psicológicos, mais específicos” (p. 54). Já o Sá de Miranda vincava o mau sestro português de menosprezar o que é nosso: só tem valor o que é da estranja. Ora, se lermos A Arte da Guerra de Rui Vitória, depressa se infere a sua informação atualizada: “Antigamente, a forma de trabalhar o treino no futebol era muito inspirada no atletismo e, assim, trabalhava-se muito a vertente física. Mas, com o tempo, começou a perceber-se que só a componente física não era suficiente. Os jogadores não podem treinar apenas, com base em exercícios físicos, sejam eles quais forem. Têm de jogar. Não podemos fazer um treino, por muito completo que seja, sem trabalhar o jogo, propriamente dito. Consequentemente, começou a desviar-se a ênfase do aspecto físico para outros aspectos do treino, que têm que ver directamente com a modalidade em questão. No meu caso, o futebol” (p. 63).
Há bem 40 anos que, através da observação e estudo da prática desportiva, venho eu sustentando que uma perspetiva científico-empírica não explica a totalidade do jogo, pois que, verdadeiramente, não há jogo, há homens e mulheres que jogam. Mas, porque o desporto de alta competição é um jogo que exige do praticante a transcendência (ou seja, que transcenda e se transcenda) o futebol profissional apresenta-se-nos, simultaneamente, extensivo e qualitativo e, assim, o extensivo (o fisiológico, o funcional, o biomédico) não só não é todo o equivalente científico deste “fenómeno”, pois não o esgota, como não é também a sua medida rigorosa e suficiente, pois que o moral, o sentimental, o emocional têm lugar importante, primordial, na preparação de uma equipa. Sendo eu um quase ignorante (ou ignorante mesmo) destas coisas do futebol, mas porque venho estudando e aprendendo, há mais de 40 anos, com alguns treinadores de afável e paciente disponibilidade – permito-me acrescentar que, neste caso, os métodos da fisiologia são limitados não porque não sejam necessários, mas porque a complexidade humana exige bem mais. Há no desporto (porque atividade humana) um conjunto de sentimentos e de aspirações que, pela sua própria natureza, escapam às determinações físico-matemáticas. Nenhum fisiologista tem métodos ou instrumentos de análise, que possam perscrutar um estado de alma. Sou amigo do fisiologista Bruno Mendes, um colaborador indispensável ao trabalho dos treinadores de futebol do Benfica. Busco sempre o seu apoio, quando me atrevo a tocar (ao de leve que seja) em qualquer tema onde a fisiologia seja o radical fundante. Pois já lhe escutei, inúmeras vezes, o desabafo: “Professor, muitas das razões últimas das lesões não são fisiológicas”. E numa voz que se alterou: “São psicológicas. Não tenho dúvidas, a este respeito. Assim, o treino ou é sistémico, ou não é treino”. Não se ouve um rumor, na tarde parada deste quase verão algarvio. Mas tenho bem presente, na memória, esta afirmação categórica do fisiologista Bruno Mendes. De facto, nunca se entendem os factos, se não se entendem as ideias que os fizeram nascer...
Aliás, Bruno Mendes aproxima-se do Rui Vitória do livro A Arte da Guerra: “Hoje, o bom atleta é resultado de um desenvolvimento integral e harmonioso, que não se consegue apenas com as unidades de treino convencionais. Cabe agora ao treinador a definição dessas chamadas áreas de desenvolvimento, consoante o contexto em que trabalha (clube, condições físicas, recursos humanos, material, etc.)”. Numa totalidade (neste caso: num clube), em cada elemento, há mais do que o simples elemento. Assim, no funcionamento do departamento de futebol, há mais do que os elementos que o constituem. O departamento de futebol supõe e revela o clube. Não se tem dito e redito que as vitórias do futebol do F.C.Porto são obra, sobre o mais, da equipa diretiva, presidida por Pinto da Costa? E até os seis anos do Jorge Jesus, no S.L.Benfica, não são observados, por alguns comentadores respeitados, com a forte convicção de que a estrutura diretiva, liderada por Luís Filipe Vieira, foi tão (ou mais) importante, nos momentos altos das vitórias, do que o carisma de Jorge Jesus? A vida de um departamento de futebol alimenta-se de raízes que a superficial observação não vê e vão mergulhar na vida mesma do clube. Ora, no meu modesto entender, e faço minhas as palavras de John Micklethwait & Adrian Wooldridge, no livro A Quarta Revolução (D. Quixote, Lisboa, 2015): “O problema nuclear não é a falta de computadores ou de dinheiro, mas uma total incapacidade para se atualizar” (p. 212). Cientificamente, ao nível do treino e da liderança da equipa, Rui Vitória mostra informação e atualização, no seu livro A Arte da Guerra. E a Direção que Luís Filipe Vieira encima? Nota-se nela, também, informação e atualização? O grande obstáculo às reformas necessárias são, ou o “tudo deve mudar” dos sócios mais apaixonados, ou o “nada deve mudar” dos sócios mais apologistas do futebol de Jorge Jesus. Ora, Luís Filipe Vieira não se deixa submeter à “tirania das maiorias” e decide como presidente de uma estrutura que se sente ao serviço do departamento de futebol, o qual, por sua vez, se quer integrar no itinerário histórico da existência gloriosa do Benfica.

Cabe assim a pergunta: no Benfica, de hoje, quem mais importa, a estrutura (a organização) do clube, ou o trabalho do Rui Vitória e do departamento de futebol, no seu todo? O que vale mais a estrutura ou o carisma de Luís Filipe Vieira e Rui Vitória? A vivência de um grande ideal torna normal e constante o que não se atinge senão excecional e temporariamente. E o ideal é a razão-de-ser da estrutura benfiquista, tenho a certeza. A nossa vida é tanto mais humana quanto mais for a tradução externa de um culto interior. Luís Filipe Vieira e Rui Vitória, a Estrutura e o Carisma serão (são) elementos da mesma totalidade. Embora Rui Vitória assevere que todos os que trabalharem, no seu departamento, querem, se for preciso, “dar a vida pelo Benfica”. Ou seja, para ele, no Benfica, Luís Filipe Vieira é o líder dos líderes. E, sobre todos, o Benfica – palavra mágica que os benfiquistas celebram, numa apoteose única, porque a mesma comoção os toma, dentro e fora dos campos de futebol. Assisti, pela televisão, à tomada de posse do Rui Vitória, licenciado em Desporto, como treinador de futebol do S.L.Benfica. Para além do meu Amigo Jorge Jesus e dos seus adjuntos, o Benfica eterno continua, como verdadeira apoteose de Desporto feito Vida e Triunfo e Beleza. O Benfica que eu conheci em Joaquim Bugalho, em Gustavo Teixeira, em Alfredo Valadas, no Espírito Santo, no Francisco Ferreira, no Albino, no Gaspar Pinto, no Rogério Lantres de Carvalho, nos irmãos Vieira de Brito, na melhor equipa portuguesa de todos os tempos (Costa Pereira; Mário João, Germano, Cruz e Ângelo; Cavem e Coluna; José Augusto, Eusébio, Águas e Simões), nos Drs. Borges Coutinho e Paulino Gomes Júnior, etc., etc. O Benfica de Luís Filipe Vieira e Rui Vitória, que continuará a ser cantado, nas mais sôfregas, latejantes e sinceras expressões de amor clubista, que eu já vi em terra portuguesa. Não sei se está hoje fora de moda o que venho de escrever, mas sem esta ternura e fantasia e religiosidade o Benfica não encontra a seiva criadora das suas vitórias. O dr. Rui Vitória sabe tudo isto e sabe que, para ser grande, ele terá de ser o que já é, um fator de consciência, um mobilizador de energias, um especialista do mais autenticamente humano. Parabéns ao Benfica pelo treinador que tem. Parabéns ao Rui Vitória pelo homem que é!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.
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