De uma Cultura de Balneário para uma Cultura de Clube (artigo de Gustavo Pires, 13)

Espaço Universidade 07-06-2015 20:20
Por Gustavo Pires
Da recente saída de Jorge Jesus do SL e Benfica para o SC de Portugal, perante a crise económica que o País atravessa, da qual tão depressa não se vai libertar, o que verdadeiramente está em equação é que, tanto Luís Filipe Vieira quanto Bruno de Carvalho pretendem desencadear uma aposta estratégica nas escolas de formação dos respetivos Clubes, a fim de atenuarem os enormes problemas económicos e financeiros que se colocam à contratação de jogadores no mercado do futebol.

Assim sendo, a organização dos Clubes, no sentido de potenciar o trabalho produzido nas escolas de formação, parece ser a solução imediata e mais sensata para obviar o problema sem uma solução financeira fácil à vista que é o de alimentar, com novos e promissores elementos, as equipas principais de futebol.

Contudo, o que transparece da atual situação é que, tanto no Clube da Luz quando no de Alvalade, o atrito surgido entre os Treinadores e os respetivos Presidentes foi desencadeado precisamente pela recusa dos primeiros em integrarem nas respetivas equipas principais o trabalho sequencial produzido nas escolas de formação. Quer dizer, o que salta para os observadores é que os Clubes têm excelentes escolas de formação cujos resultados não se repercutem como deviam na constituição das equipas principais de futebol.

E porquê? Simplesmente, porque essa nunca foi nem a cultura dos clubes nem a cultura dos Treinadores.

Por isso, esperar que um Treinador da equipa principal de futebol olhe para o Clube de uma forma integrada de maneira a tirar partido das escolas de formação, parece-nos uma ingenuidade que pode alimentar os sonhos dos adeptos mais tradicionalistas mas vai, certamente, soçobrar perante a dureza da realidade do curto prazo construída exclusivamente com derrotas e vitórias no campeonato. Quando, na Luz, Luís Filipe Vieira diz: “quero um Treinador ganhador e que não tenha medo de apostar nos nossos miúdos”; e, em Alvalade, Bruno de Carvalho diz: Jorge Jesus é um técnico que “saberá potenciar como ninguém os talentos da mais bem-sucedida academia em Portugal e uma das melhores do mundo”, seria muito bom para o futebol nacional que tal pudesse acontecer. Contudo, tais afirmações colidem com a formação técnica e a cultura dos Treinadores em Portugal. Não queremos dizer que os Treinadores portugueses não são bem formados e competentes. Queremos é dizer que, para além dos Treinadores não terem sido formados para o exercício dessas funções, também não tem sido essa a cultura da organização do futebol nacional, tanto a nível dos Clubes como da Federação. Por isso, a solução para potenciar as academias de futebol tem de ser outra.

Repare-se que, entre nós, tem prevalecido uma cultura de balneário em detrimento de uma cultura de Clube. Ora, não se pode esperar que uma cultura de balneário, por mais excelente que seja, possua as virtualidades necessárias para desencadear um processo de reorganização do Clube, ao ponto de provocar melhorias significativas no seu funcionamento. Desde os trabalhos desenvolvidos por Frederick Taylor (1856-1915) que se concluiu que, independentemente da excelência do trabalho produzido, a restruturação de uma organização não se processa a partir da sua base. Taylor, no período inicial da sua vida, tinha esta espectativa mas, depressa, concluiu que os resultados conseguidos no centro operacional, só por si, não eram suficientes para alterarem a macro estrutura de funcionamento da organização. Assim sendo, numa perspetiva analógica, é uma ilusão pensar que o trabalho que um Treinador desenvolve no centro operacional do Clube pode, naturalmente, repercutir-se na sua organização geral, ao ponto de melhorar, para além de toda a logística, o padrão de funcionamento da sua linha de produção a começar nas escolas de formação.

Para além da constatação de Taylor, a tradição da organização dos Clubes de futebol está centrada numa cultura de balneário que, por natureza, é fechada. A tradição do Treinador de balneário tem a ver com o processo histórico da fundação e gestão dos Clubes portugueses que foi diferente daquela que aconteceu, por exemplo, em Inglaterra. O Treinador de futebol em Portugal sempre foi um Treinador de balneário, na gíria inglesa um “coach” que, independentemente da estrutura organizacional do Clube, rodeado por toda a logística de suporte, trabalha no centro operacional, quer dizer, no terreno junto dos jogadores. Augusto Sabbo, em 1948, no livro “Estratégia e Método Base do Futebol Associativo Científico”, marcou bem a cultura de balneário dos Treinadores nacionais, caracterizada por uma visão empírico-racionalista do seu trabalho que, no fundamental, tem por exclusivo objetivo a organização da vitória da equipa principal e a conquista do campeonato. Pelo contrário, na tradição do futebol inglês, o “manager” era um Treinador de Clube que, para além de ser responsável pelo balneário, respondia pela gestão do futebol perante a Direção. Nos últimos anos, a tendência tem sido a de os Treinadores serem muito mais Treinadores de balneário do que Treinadores de Clube. Mesmo quando lhes chamam “managers” eles querem é estar no terreno porque é aí que constroem o seu prestígio.
A ver bem a situação, não podia ser de outra maneira. Raramente, um Treinador está mais de dois ou três anos no mesmo Clube. Acresce ainda que, de uma maneira geral, ele é considerado como um “corpo estranho” no Clube, na medida em que não é visto como fazendo parte da estrutura organizacional. Na realidade, em dois ou três anos ele pode conquistar a simpatia dos adeptos mas, jamais, será verdadeiramente considerado um elemento da estrutura formal do Clube. Nem deve estar interessado nisso uma vez que, se tal acontecer, ele perde a sua liberdade de ação. Quando Carlos Queiroz pretendeu reorganizar o SC de Portugal a partir da organização do futebol só arranjou problemas com o Presidente. Note-se que o horizonte temporal de um Treinador é de curto prazo. Às vezes não chega a durar uma época. Por isso, a pergunta é: Como é que se pode pedir a um Treinador que funciona com um horizonte temporal psicológico de curto prazo que passe a funcionar com um horizonte temporal burocrático programado para o médio e o longo prazo?

Nesta perspetiva, a transferência de Jorge Jesus para o Sporting CP, com a missão de “potenciar como ninguém os talentos da mais bem-sucedida academia em Portugal”, pode alimentar a ingenuidade dos dirigentes e o entusiasmo dos adeptos, mas pouco mais do que isso. Um Treinador em dois ou três anos não tem sequer tempo para conhecer o Clube. Assim, ele trata é de estabelecer o seu perfil de funções dentro das fronteiras do balneário onde ninguém entra a não ser ele próprio e os jogadores. Nesta perspetiva, o Treinador olha para o Clube como uma máquina que, bem oleada financeiramente, deve estar a cem por cento e vinte e quatro horas por dia, ao serviço do balneário. E, no modelo atual de funcionamento dos Clubes, é assim que tem de ser.

Contudo, o paradoxo da atual situação é que, preocupados com a rentabilização das academias de futebol, tanto o presidente do SL e Benfica quanto o do Sporting CP, querem transformar os seus Treinadores de balneário em Treinadores de Clube. Ora, do ponto de vista cultural, tal mudança não é imediatamente possível se é que alguma vez o possa ser. O “coach”, quer dizer, o Treinador de balneário, olha para o Clube de baixo para cima e vê-o exclusivamente a partir das necessidades da equipa de futebol. Tudo o mais pouco lhe interessa. O Presidente olha para o Clube de cima para baixo e vê um Clube completamente diferente daquele que é visto pelo Treinador em que todos os assuntos lhes interessam. Ora, como é que duas pessoas que, perante a mesma realidade, veem dois cenários completamente diferentes se podem entender? Porque, para cada um deles, as palavras não têm o mesmo significado. Nem podem ter. No SL e Benfica, enquanto o objetivo foi partilhado caminharam em conjunto. A partir do momento em que o objetivo deixou de ser comum, aconteceu o divórcio. Depois, o dramatismo da saída de Jorge Jesus fica tão só para os adeptos que vivem o futebol com o coração porque, como refere Bobby Robson na sua autobiografia, “não existe nada mais atrativo para os Clubes de futebol do que o Treinador de sucesso de outro Clube”. Por isso, Rui Santos, perante o descrédito geral, teve o mérito de, atempadamente, avisar da possível saída de Jorge Jesus para o SC de Portugal.

A ilusão, tanto de Luís Filipe Vieira relativamente ao passado, quanto de Bruno de Carvalho relativamente ao futuro, é pensarem que Jorge Jesus, alguma vez, vai tentar minimamente compreender o Clube a partir do balneário. É impossível, ele não é capaz; não quer; nem necessita de compreender o Clube, seja ele o SL e Benfica ou o SC de Portugal. Nem deve perder tempo com isso. Tal como um presidente, quando olha para o jogo, não é capaz de ver aquilo que o seu Treinador vê, assim também o Treinador, quando olha para o Clube, não é capaz de ver aquilo que o seu presidente vê. Por isso, de parte a parte, não vale a pena perderem tempo com falsas expectativas.

Então, como é que se resolve este problema?

Há muito que este problema é, mais ou menos, conhecido no futebol nacional. Por exemplo, a figura de Selecionador Nacional exercida por Manuel da Luz Afonso enquadrava politicamente o Treinador de campo que, no Campeonato do Mundo de 1966, foi exercido pelo brasileiro Otto Glória. Nos Clubes portugueses, a partir dos anos oitenta, começou-se a falar de Diretores Desportivos que, enquanto gestores intermédios, têm a responsabilidade de estabelecer a ligação entre o centro operacional e as várias unidades orgânicas da linha hierárquica do Clube, bem como com o seu vértice estratégico. Contudo: por ausência de cultura de gestão da produção desportiva; por carência de formação formal no domínio da gestão do desporto; e por inexistência de um perfil de funções apropriado, o Diretor Desportivo tem sido transformado numa simples figura de estilo com pouca ou nenhuma credibilidade e utilidade. Em consequência, as pretensas funções de Diretor Desportivo em Clubes como o SLB e o atual SC de Portugal têm sido exercidas pelos respetivos presidentes que, “sem rede”; sem “instrumentos de navegação”; e sem verdadeiras tecnoestruturas de apoio, embora com todo o mérito, acabam por ser obrigados a “navegar à vista”.

Assim, o desafio que se coloca aos líderes dos clubes de futebol profissional passa por serem capazes de transformar a respetiva linha de produção desportiva baseada numa cultura de balneário numa cultura de Clube. Abordaremos este tema numa próxima oportunidade.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
Ler Mais
Comentários (0)

Destaques

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais