José Mourinho ou as razões da sua diferença (artigo de Manuel Sérgio, 85)

Ética no Desporto 23-05-2015 00:30
Por Manuel Sérgio
Jacques Derrida propõe ao conhecimento atual um pensamento da descontinuidade e da diferença absolutas. A História, para este autor (como afinal para outros autores, cada qual à sua meneira) não se esgota numa linha contínua, trilhando sempre a mesma via. Alturas há de crise e de rutura com o que se viu. se pensou e se fez. Mas a proposta deste filósofo, ao concentrar-se no conceito de différance, diz-nos que este conceito é polissémico e, assim, a diferença não se verifica tão-só por razões de ordem social e política, mas também quando um “homem diferente” a lidera.

Emmanuel Levinas continua e aprofunda a différance de Derrida, ao superar a ontologia ocidental, “baseada no movimento constante da mesmidade, próprio da auto-consciência (Hegel), da intencionalidade do eu transcendental (Husserl) ou mesmo do Ser heideggeriano”. Ora, esta polissémica différance é bem corporizada por José Mourinho. Ele foi (é) amassado do barro comum aos treinadores do seu tempo, mas com a diferença de os exceder (ou à esmagadora maioria), nalgumas qualidades e virtudes. O Mourinho, já o venho dizendo desde o início da sua carreira de treinador, não sabe mais (futebolisticamente falando) do que o Louis van Gaal, ou o Manuel Pellegrini ou o Arsène Wenger; ele não tem na algibeira dispositivos táticos que os seus colegas de profissão desconheçam – ele parece mais perspicaz, mais inteligente do que os outros e, aí, está, no meu modesto entender, a diferença. Eivados de alguma frouxidão mental, há pessoas que só vêem nos aspetos táticos o radical fundante de um jogo de futebol de alta competição; outros, dão a primazia à preparação física, precisamente o que, no transcurso da sua profissão, menos preocupa o treinador de uma grande equipa, pois que são vários e vastos os recursos humanos e tecnocientíficos de que dispõe, no departamento, para analisar e testar a “fisiologia” da sua equipa. E não me refiro eu aos que não sabem sofrear a ira contra os árbitros deixando, por vezes, no ar, infundadas e graves suspeitas.

No trabalho altamente complexo e espinhoso da sua profissão o que lhe apresenta maior grau de dificuldade é, se não estou em erro, a liderança, donde nasce, em larga medida, a organização de todo o departamento e o espírito competitivo da equipa. Na Sociedade do Conhecimento da Era da Informação – na nossa sociedade, portanto, a informação especializada é absolutamente necessária, mas não acredito que só o José Mourinho a procure e não a tenham, também, os treinadores das restantes equipas de Inglaterra (e não só). Volto à tese nuclear deste artigo: o que distingue, principalmente, o José Mourinho dos demais treinadores (salvo melhor opinião) é a sua humanidade, a sua curiosidade insaciável, a sua vontade imparável de vitória. É um homem talhado à medida da alta competição! Qualquer estudioso do desporto não desconhece que o espírito desportivo integra a práxis desportiva. “El deporte es rivalidad en su sentido más amplio, puesto que el deportista lucha contra sus proprias limitaciones, contra un adversario o contra las condiciones espacio-temporales. El hombre deportivo se vuelve un ser agonístico: rivaliza consigo mismo (autocompetencia), pero también com un adversario. Sea cual sea la especialidad deportiva, siempre encontramos un elemento competitivo; cualquier deporte, de una u outra manera, se muestra como una metáfora de la lucha por la existencia. Es en este punto donde hallamos una de las grandes lecciones formativas del deporte: el éxito forma parte de nuestra interiotidad, es decalidad más sana es la que establecemos com nosotros mismos” (Guillem Turró Ortega, El valor de superarse – deporte y humanismo, Editorial Proteus, Barcelona, 2013, p. 121). Mas, no desporto, a competição não se confunde com a guerra. Sendo de facto um homo competitivus, o desportista não deixa de ser também um ser humano que acolhe o seu adversário, com grata e exuberada satisfação. Aliás, competição (cum-petire), etimologicamente, significa “buscar com”, “procurar, lado a lado com (e não contra) alguém”...

Mas, se o homo competitivus não é um guerreiro, quero eu dizer: se assume, sem disfarces, o caráter humanista do desporto e recusa por isso uma sociedade de mercado, dividida entre os que têm e os que não têm, onde a vitória de uns parece significar a derrota dos outros, como o proclama a hipercompetitividade do neoliberalismo – não sendo embora um guerreiro, na alta competição, é tudo o que se pede ao praticante. Tudo... sem perda do espírito lúdico e da filosofia humanista que Pierre de Coubertin tão sabiamente sublinhou! O José Mourinho, doutor “honoris causa”pela Universidade Técnica de Lisboa) sabe tudo isto e, embora a disciplina que impõe, estou certo que em nada excede o respeito que sente e mostra, pelos seus jogadores. È com pessoas que respeitam e se respeitam que ele estrutura as suas equipas, que ele constrói as suas vitórias. O espetáculo desportivo (e portanto o futebol-espetáculo) é um jogo competitivo, ou seja, na alta competição desportiva, há jogo e trabalho, há imaginação e razão, há rigor e profecia. São já em número considerável os estudiosos que de mim se aproximam e me questionam: “o que hei-de ler, para saber de futebol?”. Milita a meu favor o facto de merecer de alguns treinadores de futebol uma amizade que muito me honra e que leva muita gente a pensar, designadamente alunos dos cursos universitários de Desporto, que tenho qualquer saber oculto sobre o “desporto-rei”. Ora, eu de futebol pouco ou nada sei e, diante do José Mourinho, ou de outros treinadores, mesmo de mais pobre currículo, são eles sempre os mestres e eu o discípulo. Por isso, quando me perguntam o que é preciso ler para se chegar a figura relevante, como treinador de futebol, sempre respondo que ler ou investigar, sendo necessário, não é o suficiente. Mais do que ler, importa antes sentir e sofrer e viver o futebol. Estão inçadas de erros as teses que sugerem leitura, leitura tão-só, aos futuros treinadores de futebol. A leitura é necessária, mas a prática ainda é mais necessária. Volto ao meu livro, com 38 anos de vida, A Prática e a Educação Física: “A prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática”.

Do que venho de escrever se infere que o José Mourinho é tão prático como os “práticos” que o criticam e o invejam e, porque sabe teorizar a sua prática e é mais dotado intelectualmente do que todos eles - é bem melhor do que eles! Tenho alguma autoridade para adiantar que os triunfos de José Mourinho (indiscutíveis, irrefutáveis) provêm, acima de tudo, das suas superiores qualidades intelectuais e da sua boa formação moral. “Boa formação moral?” reagem alguns com uma gargalhada malévola. É verdade: com boa formação moral! Não se é o melhor treinador do mundo (em qualquer modalidade desportiva) se os jogadores não acreditam piamente no seu treinador, que o mesmo é dizer: se não se é eticamente admirável. “Pellegrini critica o estilo do Chelsea. Técnico do Manchester City diz que fez o mesmo o ano passado, mas com um futebol atrativo” (A Bola, 2015/5/4). Na alta competição, não é o Belo que fundamenta o resultado, mas a eficácia. Em relação ao José Mourinho, importa que se passe do “anátema ao diálogo” e que se procurem as razões da sua diferença. Porque é melhor taticamente? Porque utiliza métodos desconhecidos de preparo físico? Porque os melhores jogadores fazem todos parte do “plantel” do Chelsea? Porque ainda não se disse que ele, intelectualmente, é o melhor? Quando se segue com atenção a liderança de José Mourinho, como treinador de futebol, pulsa-se a perspicácia inigualável do seu comportamento e do seu discurso. E aqui começa a diferença! E aqui está a diferença!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.
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