Roberto Carneiro: retrato de um ministro que eu conheci (artigo de Manuel Sérgio, 83)

Ética no Desporto 10-05-2015 18:16
Por Manuel Sérgio
Morava eu na Avenida de Berna, em Lisboa, e portanto a poucos metros do gabinete do Doutor Roberto Carneiro, ministro da Educação, de 1987 a 1991. Tinha regressado do Brasil, onde trabalhara dois anos (1987 e 1988) como professor da Universidade Estadual de Campinas e foi o dr. Eduardo Monteiro, seu sapiente adjunto para a área do desporto, que dele me aproximou e me introduziu, nos primeiros dias do ano de 1989, na generosa familiaridade do seu afeto. Insinuante na maneira de exprimir-se, cortês no trato, gentleman no convívio, a breve trecho percebi que me encontrava diante de alguém de inteligência superior, que se movia incontestavelmente no plano dialético, não a dialética do político, sempre em defesa da legitimidade do seu governo, mas a de um apóstolo que sobrepõe à argumentação racional a intuição visionária, o arroubo do iluminado, o anúncio do profeta.

De facto, isso me foi dado verificar logo na primeira conversa que com ele mantive e nas demais conversas que depois, esporadicamente, com ele renovei, em Roberto Carneiro, a inteligência era um caminho para a sublimidade e a sublimidade morava, nele, paredes meias com o sagrado. Foi, se bem me recordo, o grande místico do desporto, que eu conheci, em toda a a minha vida. Tendo nascido em Cascais, em 10 de Maio de 1947, de ascendência macaense; licenciado em engenharia e doutor em filosofia, estudioso de invulgar erudição e um exaltador do ideal estético – pratica habitualmente o seu lazer desportivo (onde encontra um estímulo vital de incomparável eficácia) com o mesmo respeito e devoção com que, digamos assim, entra no templo da religião que professa (ele é católico, apostólico, romano).

E assim acreditando nos valores ensinados por Jesus de Nazaré, que a si mesmo se apresentou aos homens de boa vontade, como o Caminho, a Verdade e a Vida, por mais pessimistas que fossem as nossas conversas, nunca rastejavam, nem ensinavam a rastejar. A “sede de altura” que em Roberto Carneiro se afirmava, ampliava-se a quem o ouvia e a todos fazia erguer acima da triste condição de entediados ou desanimados ou descrentes.

Foi até hoje, o único ministro português que um dia me perguntou qual o significado e a definição do paradigma científico da Faculdade de Motricidade Humana. Aliás, mostrou um conhecimento de Husserl e Merleau-Ponty, onde radica a minha definição de motricidade humana, que não está ao alcance de qualquer governante, designadamente daqueles que se vê, à vista desarmada, que nunca leram um livro, de fio a pavio. Por isso, não é de estranhar que os seus escritos sobre desporto possam transformar-se em preciosos “documentos humanos” que de lamentar será se extraviem ou se esqueçam. O que é o desporto senão uma das mais nobres, educativas condutas que uma pessoa pode assumir?

Uma sólida consciência e de vigilante acuidade, uma informação exigente e rigorosa, uma ética de uma lucidez admirável não permitiam a Roberto Carneiro o menor desvio de uma visão do desporto, de uma prática desportiva que poderão evocar-se como fundamente, fielmente exemplares. As ações que desenvolveu durante o seu mandato, como Ministro da Educação, nanifestaram sempre o seu talento especulativo e metafísico e um conhecimento seguro da “coisa desportiva”, ou seja, uma síntese perfeita entre a prática e a teoria.

Ao presidir à conceção e à elaboração e à própria redação da Lei de Bases do Sistema Desportivo (Lei 1/90), que substituiu uma lei congénere da década de 40 do século passado e o caudal exausto de uma ideia de desporto definitivamente sepulta; ao criar um Programa Integrado de Desenvolvimento Desportivo, coordenado pelo general Rodolfo Begonha, também um desportista da mais pura linhagem; ao propor e realizar a primeira Conferência Permanente dos Ministros do Desporto dos PALOP; ao tornar realidade o Ano da Ética Desportiva e um Código de Ética Desportiva e o programa “Jogo Limpo”; ao confiar ao Doutor Gustavo Pires a direção de um Gabinete do Desporto Escolar, com os meios necessários e julgados indispensáveis, como nunca até hoje foi possível concretizar; ao oferecer à Informação Desportiva o logos e a práxis de um desporto novo, através do Curso de Auditores da Informação Desportiva – Roberto Carneiro é um nome a reter e a cultuar, na história do desporto, em Portugal. Sem favor!

A propósito de logos e práxis, peço o auxílio do Padre Manuel Antunes: “Quem diz logos diz sentido da reunião dos aspectos múltiplos e diversos do fenómeno em causa; diz compreensão, ou tentativa de compreensão, por dentro das suas linhas mestras; diz leitura, ora sintética, ora analítica, ora simplesmente tópica, de um processo por demais complexo na sua génese e, não menos, na sua estrutura; diz explicação, ou ensaio de explicação, de um produto histórico, com os seus meandros e ao seus enigmas, as suas causas e os seus efeitos, presentes e, acaso, futuros; diz a possibilidade de, ao substantivo, se poder acrescentar a preposição dia (helenicamente, diálogos, o nosso diálogo) abrindo, por essa via, a uma das exigências maiores do nosso tempo (…). Práxis é o vocábulo que, desde Marx, se encontra carregado de um enorme potencial estecífico de acção revolucionária (…). Práxis opõe-se a poeisis, completando-a (…). A ligação dos dois termos (logos e práxis) encontra a explicação, no nosso contexto, quando se considera a própria essência do político” (grandes derivas da história contemporânea, edições Brotéria, Lisboa, 1972). Com o logos e a práxis de Roberto Carneiro, o desporto aparece-nos sempre, como um fenómeno extraordinariamente belo e bom e vário.

Tenho para mim que o logos do desporto, atualmente, se constitui, na confluência da filosofia grega, do misticismo medieval, do empirismo e liberalismo britânicos, na síntese, quase perfeita, do olimpismo de Pierre de Coubertin e na competição, muitas vezes sem freios de nenhuma espécie, típica da sociedade de mercado (prefiro uma sociedade com mercado). Em desportistas, como Roberto Carneiro, o desporto é sempre um húmus fecundo onde viceja e floresce uma sombra de fraterno acolhimento, que se estende a pessoas de todas as raças e condições. No desporto sonhado por Roberto Carneiro, é legítimo sonhar a viabilidade de um mundo de incomparável beleza estética, política e moral. Depois dos serviços inestimáveis que prestou ao desporto nacional, como não lembrá-lo como um conselheiro solícito onde se buscam e encontram seguros incentivos e guiadoras inspirações?

Com 68 anos de idade, Roberto Carneiro foi, no que à política desportiva diz respeito, um marco inapagável. Contra ventos e marés, ele percebeu que, verdadeiramente, o desporto não é tão-só uma teoria, ou uma prática – é uma vida! E, na sua radicalidade, apela à relação, ao encontro amigo e aberto. Por isso, quando, no seu gabinete de ministro, eu o escutava, nos diálogos que ele fazia o favor de conceder-me, tinha a sensação de tocar a carne viva, a própria essência humana do desporto.

Muito obrigado, Roberto Carneiro!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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