Urgente é salvar vidas e não a defesa das fronteiras

Opinião 21-04-2015 19:21
Por Martins Morim
As tragédias que se sucedem no mar Mediterrâneo trazem-me à memória um drama vivido por dois familiares, que, empurrados pela miséria de Portugal nos anos 60, tentaram «a salto» futuro melhor em terras de França. Isto é, emigrar ilegalmente.

Porém, sem êxito. Algo correu mal e o «passador» deixou-os abandonados à sorte deles no meio dos Pirenéus. Acabaram por ser detidos pela Guardia Civil. Mais tarde, até agradeceram a detenção. De outro modo, teriam talvez morrido à chuva, ao frio e à fome. É que os meses de bom tempo também eram bons para a vigilância da Guarda Fiscal , da Guardia Civil ou da Gendermerie.

Os que agora arriscam a vida fogem à guerra e às consequências dela. A fome é apenas uma. Muitos deles com bebés e crianças. O desespero atira-os para Mediterrâneo em embarcações sobrelotadas e sem a mínima garantia de segurança, com risco de poderem a ser engolidos pelo mar, antes de porem pé na terra da esperança, a Europa, onde, qualquer ajuda, quem sabe se não mesmo qualquer esmola, parece ser para eles melhor do que o nada que têm ou o tudo que perderam. Só um desespero inimaginável pode levar o ser humano a arriscar tanto. Haverá quem diga: loucura! Não é. A morte em massa de refugiados nas fronteiras externas da Europa não é um desastre, mas o resultado direto da política europeia.

Até com algum cinismo. Não vale a pena continuar a olhar para o ar, quando há, em Varsóvia, funcionários olhando para monitores vendo as imagens que recebem de drones e satélites de vigilância das fronteiras e vendo, portanto, o que se passa também no Mediterrâneo.

Mas, pelo que vê, parece que os funcionários estão mais preocupados com o registo de irregularidades do que com alertar para os barcos à deriva com vidas humanas a bordo. Assim funciona a Frontex - Agência de Defesa das fronteiras - desde dezembro de 2013. Diferente era o programa Mare Nostrum, que tinha barcos mar para salvar, mas para o qual deixou de haver dinheiro.

Mais do que irresponsabilidade, é crime o que está acontecendo. Porque viola também a Carta Constitucional da União Europeia, que garante proteção aos que fogem da guerra ou da perseguição política.

Independentemente do que vier a ser decidido na cimeira de quinta-feira, urgente é agir no presente. Já! A indiferença europeia é um crime!
Ler Mais

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais