Thomas Bach e a Educação Física (artigo de Gustavo Pires, 7)

Espaço Universidade 21-03-2015 16:50
Por Gustavo Pires
Thomas Bach, o atual presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), encontra-se na difícil situação que é a de sucessor a Jacques Rogge que, depois de Pierre de Coubertin, foi seguramente, o presidente do COI com maior e melhor capacidade e competência para gerir a instituição.

A situação de Thomas Bach é tanto mais difícil quanto se sabe que, na dinâmica neoliberal que envolve o Movimento Olímpico (MO), os Comités Olímpicos Nacionais (CONs) dos mais diversos países, sejam eles capitalistas, comunistas ou as duas coisas ao mesmo tempo como é o caso da República Popular da China, à revelia de uma ética de autenticidade, estão prisioneiros dos respetivos governos que os obrigam a dedicarem, em regime de exclusividade, os seus esforços, não à promoção dos valores do Olimpismo mas, tal qual máquinas burocráticas, à conquista de medalhas olímpicas para honra e glória dos regimes e dos seus dirigentes. Esta situação leva a que os dirigentes olímpicos ao serviço dos respetivos governos apostem em opções estratégicas de concentração de forças num número reduzido de praticantes e até de modalidades, em detrimento da promoção e generalização da prática desportiva a montante que, numa relação virtuosa com os atletas de elite, podia, realmente, melhorar o nível desportivo dos países.

Em resultado desta miopia olímpica, as Federações Desportivas ficam perante um dilema: se apostam na generalização da prática desportiva ficam sem recursos para investirem no alto rendimento a fim de ganharem visibilidade e protagonismo político e social que lhes garantam o acesso aos recursos; em alternativa, se apostam no alto rendimento ficam sem recursos para investirem na base do sistema onde, tirando partido do “efeito de volume”, podem selecionar os atletas mais talentosos a fim de conquistarem as almejadas medalhas olímpicas.

Infelizmente, perante a endémica dependência dos recursos do Estado, às Federações Desportivas só lhes resta optarem pela hipotética obtenção de resultados nas competições internacionais sob pena de, se assim não o fizerem, deixarem de ser financiadas na medida das suas necessidades. Elas sabem que qualquer governo sabe que, na era do neomercantilismo, para honra e glória dos regimes, mais vale uma medalha olímpica do que cem mil crianças e jovens a praticarem desporto. Esta situação agrava-se de uma forma dramática quando os CONs, que deviam ser entidades independentes e com uma missão exclusivamente fundamentada nos princípios do Olímpio, se transformam em simples repartições públicas ao serviço dos regimes neoliberais por esse mundo fora.

Em consequência da opção esquizofrénica pelas medalhas, os Jogos Olímpicos correm o risco de poderem vir a ficar sem o suporte de uma base alargada de praticantes desportivos em virtude de, muitos países, devido às políticas públicas vazias de sentido social, não serem sequer capazes de, minimamente, cumprirem a “lei da centésima parte”. Perante esta difícil situação que decorre da quebra do Estado social, o que se esperaria era que os CONs, enquanto entidades com características supra nacionais que têm como missão zelar pelo cumprimento da Carta Olímpica, assumissem as suas responsabilidades levando à prática a máxima de que o Olimpismo é uma filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano. O problema é que, em muitos países, os CONs funcionam na dependência ideológica, política e financeira dos Governos e dos partidos institucionais, com uma inaceitável promiscuidade a nível do dirigismo que ao circular entre o governo, os partidos, as federações e os CONs, no mais completo desrespeito pela Carta Olímpica acabam até por, simultaneamente, acumular vários cargos.

Hoje, o COI está perante a situação de ter de conciliar o enorme êxito dos Jogos Olímpicos com a endémica situação do desporto de base que se pratica em muitos países. Trata-se de um problema de ordem ética e moral ao ponto de assumir uma situação tanto mais preocupante quanto se sabe que, se os Jogos Olímpicos, enquanto expressão final de todo um projeto de desenvolvimento humano, não se fundamentarem numa base desportiva alargada, corre-se o risco dos CONs se transformarem numa espécie de clubes de uma decadente “nacional socialite” e os Jogos Olímpicos numa patética réplica do “Cirque du Soleil”, aliás como já acontece com alguns eventos desportivos.

A fim de ultrapassar este crescente divórcio entre o MO e a generalidade da população através de uma prática desportiva alargada, o COI está a tentar induzir o aumento da prática desportiva de base nos mais diversos países do mundo. Para o efeito, voltou-se para a solução aparentemente mais óbvia que é a de tentar colocar as escolas do ensino básico e secundário na base do MO. Em conformidade, numa parceria com a Unesco e com o apoio de várias entidades entre elas a Comissão Europeia e o “International Council of Sport Science and Physical Education” (ICSSPE), foi elaborado um documento, intitulado “Quality Physical Education Guide Lines for Policy-Makers - 2015”, onde são postas em equação um conjunto de recomendações com a finalidade de estimularem os governos dos mais diversos países a investirem na quantidade e qualidade da educação física oferecida no sistema de ensino. E o Presidente do COI Thomas Bach disse: “A educação física é crucial para promover hábitos de atividade física. O desporto desempenha um papel central no sistema educativo, não apenas como forma de combate à obesidade e sedentarismo mas, também, pelos efeitos positivos do exercício físico, cientificamente comprovados, no desenvolvimento social e intelectual dos jovens”.

É evidente que o rendimento desportivo que justifica os Jogos Olímpicos, se for fundamentado e alimentado a montante pelo sistema de ensino é “ouro sobre azul”. Todavia, se assim é, então, porque é que nunca foi conseguido? Porque é que a disciplina de educação física, onde os países despendem anualmente muitos milhões de euros, não tem estado verdadeiramente vocacionada para a criação de hábitos desportivos e a promoção do espírito olímpico entre as crianças e os jovens?
A razão é simples de explicar. Independentemente dos discursos politicamente corretos, o “lobby” da educação física sempre combateu o desporto enquanto atividade eminentemente competitiva que é. Pierre de Coubertin foi o primeiro a compreendê-lo. Por isso, abandonou o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” por si fundado em 1888, para: em 1982 lançar a ideia da institucionalização dos Jogos Olímpicos da era moderna; em 1894 fundar o “Comité International des Jeux Olympiques”; e, em 1896, conseguir que os gregos organizassem a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna o que não foi nada fácil.

No último quartel do século XIX, em França, a par de Pierre de Coubertin que era um aristocrata interessado na dimensão política das questões da pedagogia e do internacionalismo desportivo através da realização dos Jogos Olímpicos, pontuavam ainda duas figuras: Paschal Grousset (1844-1909), um homem da Comuna de Paris que tinha da educação física uma conceção de atividade física recreativa, de caráter educativo, de pendor nacionalista e com uma dinâmica de combate político; e Philippe Tissié (1852-1935), um médico “suecofílico”, regionalista, interessado sobretudo nas questões da atividade física para a saúde através do método sueco. Ambos abominavam a competição formal, opunham-se à escola inglesa de Thomas Arnold introduzida em França por Coubertin e, consequentemente, ao modelo competitivo do projeto Olimpismo organizado à escala global. Se relativamente ao revolucionário da Comuna de Paris Coubertin recusava ter com ele quaisquer relações, no que diz respeito a Tissié, depois de várias tentativas de cooperação, por divergências insanáveis, acabou por assumir a rutura após o Congresso Olímpico do Havre realizado em 1897.

Entretanto, passados que estão quase 120 anos, pela leitura do documento “World-wide Survey of School Physical Education” datado de 2013 que apresenta um extenso relatório acerca da situação da disciplina de educação física em 232 países e regiões autónomas, chega-se facilmente à conclusão de que o conflito ideológico entre a educação física e o desporto, devido aos valores da competição, continua por resolver. Diz o relatório: “a ênfase colocada em atividades desportivas competitivas contraria as tendências sociais e levanta questões que envolvem significado e relevância para os jovens, bem como questões de qualidade dos programas desenvolvidos. O mesmo acontece em atividades extra curriculares e do desporto escolar. Daqui resulta o aumento do desinteresse pelas aulas da disciplina de educação física pelos alunos com o consequente declínio da sua condição física e altos níveis de sedentarismo e obesidade”.

É claro que esta situação é real mas a contrária também o é. Quer dizer que, devido à perspetiva inclusiva, eclética, generalista, coeducativa e, entre outras, recreativa da generalidade dos programas da disciplina de educação física para todos os graus de ensino, existem alunos que, a partir da pré-adolescência, começam a desinteressar-se das aulas porque não encontram nelas qualquer satisfação relativamente à sua apetência para evoluírem numa determinada modalidade desportiva com o inerente desafio da competição organizada na via da excelência.

Assim sendo, no quadro atual das forças em presença, temos sérias dúvidas de que os esforços (estratégia) do Presidente do COI tenham resultados dignos de menção até porque, pela leitura do documento “Quality Physical Education Guide Lines for Policy-Makers”, se chega facilmente à conclusão de que o discurso aponta tão só para o reforço da educação física existente, sem apresentar qualquer perspetiva inovadora na conceção da superestrutura capaz de promover uma verdadeira articulação entre a disciplina de educação desportiva e os Jogos Olímpicos, para além do desenvolvimento da literacia no âmbito da motricidade humana, da promoção da condição física e da criação de hábitos desportivos para a vida.

Por isso, estamos em crer que se está no domínio de simples projetos de intenções contraditórias entre partes com diferentes interesses em que, para cada uma delas, as palavras têm distintos significados. Tem sido assim de há quase cento e vinte anos a esta parte. É pena mas tudo indica que assim vai continuar.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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