Ao Povo-Irmão de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 74)

Ética no Desporto 07-03-2015 17:47
Por Manuel Sérgio
Poucas horas antes de voar para Cabo Verde, o Vítor Serpa perspetivou assim a minha viagem a este querido País (hoje, querido também, para mim). “O meu amigo vai gostar muito de Cabo Verde”. E, numa tarde de Fevereiro do ano em curso, frígida, mas muito quieta no ar imóvel, deixei-me levar até à Cidade da Praia, pelos Transportes Aéreos de Cabo Verde. A 11 500 metros de altitude, entrei de garatujar, num pedaço de papel branco, umas conhecidas solenidades acerca do generoso convite do Presidente da República, Prof. Jorge Carlos Fonseca, que faz o favor de ser meu Amigo. Convite (acrescente-se) que me deixou mudo de espanto (ocorrem-me as palavras de Antonio Machado: “Morir es irse cada cual com su secreto”).

De facto, não esperava o convite, nem sei se o merecia. Embora possa compreendê-lo agora, após o convívio fraterno, que me proporcionou, chegando ao ponto de me apresentar à Esposa, Amigos e Colaboradores, durante um jantar no Monte Tchota, na residência de férias da Presidência da República. Trajava “à desportista”, quando me recebeu, acompanhado da Dra. Lígia Fonseca, a sua Mulher e advogada que pertence à estirpe dos juristas que têm algo a dizer do que tange ao íntimo da ciência jurídica. Sem gravata, nem calças de vinco impecável, confidenciou-me a razão da minha estada em Cabo Verde, ao mesmo tempo que contemplava, enlevado, a vastidão de serras, montanhas e desfiladeiros, que daquele cimo se contemplam: “Sou um desportista, joguei futebol nos escalões mais jovens do Vitória de Setúbal e não dispenso o meu lazer desportivo, praticando um futebol e uma natação, sem grandes exigências. Mas este meu amor pelo desporto exige de mim que o pense e que o saiba inscrever no quadro das coisas interessantes desta vida”. Atalhei eu: “Em Portugal, tinha gente muito mais apetrechada, para um diálogo sobre o que o desporto é e o que vale”. A voz de Jorge Carlos Fonseca veio bondosa, apenas com uma leve ironia: “Aos práticos já os ouvi. Desta feita, quero ouvir um scholar e um crítico vigilante”.

Aferrando-me à bela oportunidade, avancei com convicção: “E por que não, antes do mais, um resumo do Senhor Presidente sobre o que de mais essencial distingue o seu País?”. Depois de um curto silêncio de reflexão, na tarde serena, Jorge Carlos Fonseca principiou, na entoação mais cortez: “Sou eu que estou aqui, para ouvi-lo”. E, com um suave sorriso: “Mas faço-lhe a vontade”. E prosseguiu: “O que julgo que mais devo assinalar é a profunda ligação e sintonia existente entre o nascer do constitucionalismo cabo-verdiano, a criação do Estado de Cabo Verde e o processo de luta e conquista da independência nacional, processo que, impulsionado pelo desencadear das exigências independentistas em África e Ásia, que se seguiram à Revolução Socialista de Outubro e ao fim da Segunda Guerra Mundial, ganha corpo com a criação em Bissau, em Setembro de 1956, do Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC). Processo articulado que era já admitido e teorizado por Amilcar Cabral e que aparece em documentos fundamentais, elaborados pelos dirigentes do PAIGC e do Estado de Cabo Verde”. O Jorge Carlos Fonseca é, para mim, sobretudo, um poeta: foi poeta, quando, acusado de ideias subversivas, o expulsaram da Universidade de Coimbra e o incorporaram compulsivamente no exército; foi poeta, quando, mesmo acusado de “terrorista”, se licenciou em Direito, com o aplauso e o brilho suficientes para ser convidado à docência, pela Faculdade de Direito de Lisboa; foi poeta, quando “desatou” a escrever, criando revistas e lançando jornais, em luta pela emancipação cultural e política do seu povo; foi poeta, quando propôs e criou, no seu País, o Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais, instituição única em toda a África lusófona; por ser poeta, foi investido nas funções de Presidente da República de Cabo Verde, “numa cerimónia marcada por música, poesia e declarações de fidelidade”; por ser poeta, tem um amor irredento e teimoso pelo Direito; por ser poeta, escreve poemas que são o fundamento do seu viver. São as “razões do coração” que o movem, mais do que as “razões da razão”. Como em Wittgenstein, em Jorge Carlos Fonseca, o que importa é dar-se conta de que o ponto de partida não é o conhecimento, mas a ação. Também no Presidente da República de Cabo Verde o cogito é bem menos do que o sum. Cada qual pensa como é...

Tentei mais uma pergunta: “Quem é, para o meu Amigo, Amilcar Cabral?”. Emocionado, respondeu-me: “É o meu ídolo e o de todos os cabo-verdianos e um dos dois grandes humanistas que a política mundial conheceu, no século passado. Para mim, Nelson Mandela e Amilcar Cabral ensinaram ao mundo que a força de um homem não está nas cóleras vingativas, senão na serena confiança em princípios e em valores, mesmo que, por eles, seja preciso dar a vida, em combate insano”. E numa voz muito calma: “Mesmo que, por eles, nos julguem loucos”. Lembram-se do Elogio da Loucura do Erasmo, um livro do século XVI? Todos os grandes santos e sábios e heróis parecem loucos. É que as ações de todos eles constituem desafio à lógica da mediocridade, em que por vezes (muitas vezes) nos deixamos enredar. O Presidente da República de Cabo Verde é um poeta, um artista, onde o dizer e o ser se equivalem. Relembro um texto de Jorge de Sena: “Na ascensão dos povos à liberdade e à felicidade, há que transmitir-lhes e que ensinar-lhes a experiência de liberdade e de felicidade que, mesmo nas mais desesperadas e nas negras obras de arte, se contém. Só a arte contém uma experiência deste mundo e não contém mesmo outra, ainda quando fale exclusivamente e obsessivamente de outro mundo (…). Nestas condições, o estudo das obras de arte, um estudo metodologicamente considerado e conduzido, é indispensável à própria consciência humana que só na arte e pela arte se realiza plenamente” (Dialécticas da Literatura, Edições 70, Lisboa, pp. 116/117). Assim, a arte confere à práxis humana inúmeros motivos de credibilidade e, aqui e além, a certeza das provas irrefutáveis, já que a visão do artista parece pura, absoluta e instantânea. São, por isso, muitos os motivos que me levam a escrever que a República de Cabo Verde tem o Presidente que merece e de que inteiramente necessita. As pessoas deixam guiar-se, não por argumentos, mas por modelos.

No entender de Jorge Miranda, “Jorge Carlos Fonseca é um jurista de excepção (…). Penalista de origem, sabe versar, porém, matérias de Direito constitucional e de Ciência Política, numa articulação interdisciplinar de mérito” (in Jorge Carlos Fonseca, Cabo Verde – constituição, democracia, cidadania, Livraria Almedina, Coimbra, 2011). Acima do mais, um homem culto, mas (foi ele a dizer-mo) que não é partidário do aristocratismo da cultura, no sentido de fazer dela um privilégio de casta. “A cultura tem de chegar a todos os cabo-verdianos. Tem de ser um hábito, para todos eles”. E eu: “Como o desporto?”. E ele, convicto: “Como o desporto! E por isso um desporto que não seja unicamente espetáculo, para meia-dúzia de artistas”. Sem nunca assumir a atitude hierática, própria de um chefe, o Presidente da República de Cabo Verde mostra saber o que é o desenvolvimento para o tempo em que vivemos – para um tempo de mais justiça social, de mais solidariedade, de melhor educação-para-todos e... até de um Marx que não seja marxista! Ao Povo-Irmão de Cabo Verde deixo a certeza que o Prof. Jorge Carlos Fonseca é um iniludível fator de progresso do seu País. Ele não se parece com aquelas pessoas “caridosas” (cito agora o Émile de Rousseau) que amam “os tártaros, para se dispensar de amar o seu vizinho mais próximo”. Ele quer para todos o que deseja para si. Desta casa, A Bola, que ele tanto preza, aqui rendo preito ao seu patriotismo exemplar, que não sobrevaloriza nem subvaloriza o Desporto. Afinal, o Desporto, por si só, não transforma nem se transforma. Nele, apetece dar razão às sensações, ou melhor: fazer das sensações a razão suprema. O que é muito, mas não é tudo! Embora seja público o que vou referir, o Presidente da República de Cabo Verde é “apaixonado” por dois clubes portugueses: o Sport Lisboa e Benfica e o Vitória de Setúbal. “Apaixonado mesmo” sublinhou o Lúcio Antunes, antigo selecionador nacional cabo-verdiano, um dos convidados para o jantar e também meu querido Amigo. Começava a escurecer. Cá fora, no céu alto, rompia um lindo luar...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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