A Educação da Violência (artigo de Gustavo Pires, 6)

Espaço Universidade 26-02-2015 19:02
Por Gustavo Pires
A violência tem estado associada ao futebol desde as suas origens no século XIII. Na idade medieval os jogos de futebol que, sob diversas designações, aconteceram nos vários países da Europa, envolviam centenas de jogadores pelo que se transformavam em autênticas batalhas campais onde muitos aproveitavam para resolverem contendas que nada tinham a ver com as questões do jogo da bola. Entretanto, na tradição da aristocracia, associada aos valores vitorianos do cristianismo muscular das escolas públicas inglesas, a partir de princípios do século XX, o futebol começou a ser desenvolvido na Europa de uma forma mais disciplinada muito embora a violência, tirando pequenos períodos que se seguiram às Grandes Guerras, nunca tivesse deixado de lhe estar associada.

Mais recentemente, em princípios dos anos sessenta, em Inglaterra, a violência, com todo o seu esplendor, apareceu associada aos espetadores oriundos das classes trabalhadoras sob o nome de “hooliganismo”. Primeiro, no interior dos estádios, depois, acabou, também, por tomar conta das ruas.

Hoje, presenciamos na comunicação social cenas lamentáveis como a dos adeptos do Feyenoord que, no passado dia 19-02-2015, embriagados, desencadearam o caos no centro de Roma por ocasião da 1.ª mão dos dezasseis avos de final da Liga Europa. No dia 21-02-2015, assistimos envergonhados a uma desprezível cena de racismo no metropolitano de Paris protagonizada por alguns adeptos do Chelsea. E no dia 25-02-2015 tomámos conhecimento de que o ministro-adjunto dos Desportos da Grécia anunciou a suspensão, por tempo indeterminado, dos campeonatos de futebol, para serem tomadas medidas a fim de terminar com a violência nos estádios.

Nas palavras de Hans-Georg Gadamer (1900-2002), enquanto competição, “o jogo é o fio condutor da explicação ontológica”. Assim sendo, dá um sentido à vida pelo que pode assumir a dimensão trágica da luta pela sobrevivência ou do próprio jogo da guerra que, hoje, encontra nos desportos coletivos a sua melhor metáfora. Heraclito (535 a.C.-475 a.C.) há mais de dois mil e quinhentos anos afirmava que: “de todos a guerra é pai, de todos é rei; de uns faz deuses, de outros homens; de uns faz escravos, de outros homens livres”.

Em termos atuais, esta dimensão trágica do jogo da guerra, foi magistralmente expressa no filme “Apocalypse Now” quando o Coronel Bill Kilgore, perante a cena dantesca de um ataque de helicópteros a uma aldeia vietnamita, dizia: “I love the smell of napalm in the morning... It smells like victory”.

Arnold Toynbee (1889-1975), no livro “Guerra e Civilização”, defendeu que: “não há nenhuma civilização em que a guerra não tenha sido uma instituição estabelecida e dominante, mesmo nos estádios mais primitivos da humanidade. A este respeito, até a ideia de que a civilização maia era pacífica não passa de uma mistificação. Linda Schele (1942-1998), no livro “The Blood of Kings” vai mesmo ao ponto de afirmar que: “o sangue era a argamassa da sociedade dos antigos maias.”

Peter Turchin (n. 1957) no livro “War and Peace and War: The Rise and Fall of Empires” defende que o principal motor da evolução das sociedades humanas é a guerra intensiva. Na ideia de Turchin não nos podemos admirar que, ao longo da história, a guerra tenha sido, nas mais variadas circunstâncias, aceite como positiva na medida em que desenvolvia: a inteligência; o brio; a dignidade; os músculos; o prestígio dos líderes; a alma do povo; e a regeneração da raça.

Ortega y Gasset (1883-1935) na “Origem Desportiva do Estado” vê no desporto a própria origem desportiva do Estado. Para ele, quando os jovens decidiram roubar as moças das hordas afastadas deu-se um dos acontecimentos mais geniais da história da humanidade. Não era uma tarefa fácil porque “as hordas não toleravam impunemente o rapto das suas mulheres”. Para as roubar era preciso combater e, assim, nasceu a guerra como meio ao serviço do amor e da procriação não consanguínea. Johan Huizinga (1872-1945) no “Homo Ludens” vê no jogo os antecedentes de toda a espécie de competição lúdica desde os duelos e combates entre comunidades até à própria guerra passando pelas mais diversas atividades sociais.

Para Roger Callois (1913-1978) no “Os Jogos e os Homens” os jogos são fósseis culturais, quer dizer, vestígios dos rituais mágicos e religiosos, das rezas e lengalengas, dos cerimoniais de iniciação e passagem, do trabalho da caça e da pesca, das festas, das danças e cantares, do hedonismo da luta e da competição, da arte da guerra, da derrota do outro.

Para Bernard Jeu (1929-1991) no livro ”Le Sport, la Mort, la Violence” o desporto é um jogo de violência regulada e de afrontamento que ritualiza a própria morte. Os mitos subjacentes aos jogos de outrora perduram até aos nossos dias. Assim sendo, para compreender o desporto, é necessário recuar até aos primórdios da história da humanidade, quer dizer, do cenário da criação do mundo tal como é representado nas religiões primitivas, com o objetivo de se apurar as suas reminiscências antropológicas que se projetam nas hordas de adeptos que buscam no confronto a satisfação necessária ao equilíbrio das suas vidas.

Desmond Morris (n. 1928) na “Tribo do Futebol” argumenta que: “… as raízes da “tribo do futebol” mergulham fundo nas origens mais remotas da humanidade, ao tempo em que os nossos antepassados viviam e morriam como caçadores de animais selvagens. Eles tornaram-se gradualmente mais atléticos e, ao mesmo tempo, mais inteligentes, pela necessidade de coordenação do trabalho em equipa que o instinto de sobrevivência lhes exigia. Depois, através de uma liderança deliberada, concebiam estratégias, planeavam tácitas, organizavam o ataque e a defesa, montavam armadilhas, corriam riscos e, deste modo, preservavam a vida ludibriando a morte certa.

Se no passado, em muitas circunstâncias, a guerra era um jogo de combate entre senhores feudais, a partir das guerras napoleónicas, modernizou-se e adquiriu uma capacidade de destruição e morte absolutamente inaceitáveis, pelo que deixou de ter aquele envolvimento lúdico que as batalhas, os torneios e as justas tinham na idade média. A partir de então, o preço em sofrimento passou a ser demasiado elevado. Contudo, longe de se ter transformado numa memória dos tempos bárbaros e primitivos da humanidade, a guerra apenas se tem vindo a modernizar através dos novos conhecimentos científicos e das conquistas das novas tecnologias que a têm transformado numa das atividades mais cínicas, mais sádicas e mais mortíferas praticadas pelo homem.

Para Friedrich Nietzsche (1844-1900) na “Competição em Homero”, no homem as qualidades naturais e as que são designadas propriamente humanas estão inseparavelmente unidas. “O ser humano, nas suas mais elevadas e mais nobres energias, é inteiramente natureza e transporta consigo o inquietante duplo carácter daquelas. As suas capacidades terríveis e consideradas desumanas talvez sejam até o solo fértil donde exclusivamente pode brotar tudo o que seja humanidade, sob a forma de sentimentos, ações e obras”. De facto, o homem, sendo um ser violento, na aceção de Edward O. Wilson é, também, um ser de esperança. Não há homem que não deseje a paz. O problema é que quando o homem deseja a paz é para fazer a guerra e quando está em guerra não há nada que mais deseje do que fazer a paz. Como refere Turchin “a paz traz a guerra e a guerra traz a paz”.

O futebol moderno desafia as leis do caos quando, ao mobilizar milhares de apaniguados, tal qual horda incontrolável, numa espécie de “retrocesso biológico” desencadeia o sentimento do desejo de luta e de violência que está contido no código genético de cada ser humano. Então, surgem os apupos aos jogadores, os insultos aos dirigentes, a crucificação dos treinadores, a agressão às forças policiais, as provocações racistas e xenófobas, a destruição e, até, o terror e a morte como, infelizmente, já aconteceu.

Perante a violência que acontece no futebol, as burocracias instaladas, invariavelmente, tratam de fazer com que sejam fixadas mais regras cada vez mais pesadas, mais leis, mais coerção, mais julgamentos e mais condenações exemplares. Estão convencidas que assim conseguirão instituir mais disciplina e paz no futebol. Todavia, elas deviam atentar nas palavras de Thomas Moore quando, n´”O Sentido da Alma”, nos diz que é ilusório abordar a violência movidos pela singela ideia de que pode ser eliminada”. E continua, qualquer tentativa para erradicar a violência que existe no ser humano, poderá fazer com que ele se desligue do poder profundo que sustenta a vida criadora.

Nesta perspetiva, aqueles que, através de um discurso moralista, pretendem privar o futebol das suas origens antropológicas que têm a ver com a necessidade de extravasão controlada da violência própria de cada ser humano poderão estar a transformar o jogo numa mera recreação em que o objetivo se resume a curtir o deleite da destreza do gesto acrobático ou da estética geométrica da progressão no terreno que também se encontram em muitas outras atividades humanas. Podem estar a fazer com que, o desporto em geral e o futebol em particular, percam os laços que os prendem às suas verdadeiras raízes que se encontram nas origens da humanidade, fazendo com que deixem de ter a “atração mágica” que, semana após semana, época após época, independentemente do seu estatuto social, credo, género ou idade, conduz aos estádios, quer direta, quer indiretamente através da televisão, dezenas de milhões de espetadores por todo o mundo.

A violência que move os seres humanos no sentido da sobrevivência tanto os pode levar a realizarem os feitos mais sublimes como as maiores atrocidades. Por isso, quando ela erradia das tribos do futebol não vale a pena combatê-la nem com discursos mais ou menos moralistas, nem com mais violência coerciva através da força dos polícias, da lei e dos tribunais. Combate-se com educação desportiva e cultura desportiva a partir das escolas do ensino básico.

Através da educação desportiva as crianças e os jovens podem aprender não só a controlarem a violência que têm dentro de si como a dar-lhe um sentido positivo em benefício das suas vidas e da própria sociedade. Porque, como referiu Nietzsche, as capacidades terríveis e até consideradas desumanas “talvez sejam até o solo fértil donde exclusivamente pode brotar tudo o que seja humanidade, sob a forma de sentimentos, ações e obras” que conferem à vida um sentido de esperança e de futuro.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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