O modelo racionalista do jornal A Bola (artigo de Manuel Sérgio, 71)

Ética no Desporto 08-02-2015 17:04
Por Manuel Sérgio
“A chegada de A Bola veio alterar o panorama da imprensa desportiva da época. Os jornais desportivos de maior dimensão eram então três: Os Sports, a revista Stadium e O Norte Desportivo. O líder do mercado era a Stadium, vendida a 15 tostões e caracterizada pela beleza das suas fotografias e por crónicas ligeiras. A primeira edição de A Bola surgiu a 29 de Janeiro de 1945 e esgotou. Custava apenas 8 tostões e apareceu com 8 páginas. Tinha como director Álvaro de Andrade, uma vez que nem Cândido de Oliveira, nem Ribeiro dos Reis, podiam desempenhar o cargo: o primeiro por ter sido preso político (no Tarrafal) e o segundo por ser oficial do exército” (João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal, Edições Afrontamento, Porto, 2002, p. 334).

De grande préstimo me é também o livro do jornalista António Simões, de A Bola, que dá pelo título Desporto com Política e editado por A Bola e pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Pelo fulgor das imagens e pela ductilidade do estilo compôs António Simões um livro esclarecedor, que se lê, com aprazimento. “A Bola chegou pela primeira vez às bancas, em 29 de Janeiro de 1945. Custava um escudo. Um ano antes, André Navarro deixara o Governo, a secretaria da Agricultura, para se tornar presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Jogara ténis no Sporting e fora campeão nacional de pares. Era presidente da Junta Central da Legião, membro da Comissão Executiva da União Nacional, deputado na Assembleia Nacional, quase todas as suas intervenções tinham, fosse pelo que fosse, o mesmo pano de fundo: o ataque ao comunismo, esse terrível perigo para a Nação. Em 11 de Março, realizou-se um Portugal-Espanha (…). Durante o desafio, o secretariado da Propaganda lançou dos céus do Jamor, de uma avioneta, panfletos” onde se pedia futebol, mais futebol: “Afinal, o que nós queremos é futebol!... Sobre isso, A Bola nada disse. De propósito. Constou que, no dia seguinte, muita gente apanhou o murmúrio no ar: Lá está já o Cândido a fazer das suas. Incontrolável” (p. 152). Afinal, o Cândido queria futebol, mas como fenómeno festivo de uma democracia e não como fenómeno alienante de uma ditadura.

Há quarenta anos menos um, encontrei eu uma frase de Roger Garaudy que deixou em mim um rastro de encanto: “O sentido da vida não é exterior ao acto de criar a vida” (Palavra de Homem, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1976, p. 51). Para este autor, a vida não tem um sentido, porque o sentido somos nós a criá-lo. Facilmente absolutizamos o relativo e tomamos o efémero por eterno e definitivo. Mas a criação traz consigo uma questão e não tanto o porquê, o científico, o causal, mas o para quê, o axiológico, o ético e o estético. É evidente que tanto Cândido de Oliveira, como o Dr. Vicente de Melo, eram abertamente democratas, no ambiente repressivo e mefítico da ditadura. O tenente-coronel Ribeiro dos Reis era-o implicitamente, pois que nunca hostilizou e sempre acompanhou fraternalmente os seus companheiros de jornada, na fundação de A Bola. Aliás, o desporto era, então, um fator de aglutinação ideológica. Vale a pena voltarmos a folhear o livro de António Simões, aqui referido: Em 1932, “Gustavo Cordeiro Ramos , na qualidade de ministro da Instrução Pública largou desconcertante esta preocupação: “Há cada vez mais médicos que se manifestam contra o abuso da mania desportiva, definindo-a como uma das causas do definhamento do nosso povo, da nossa raça. E retocou assim a sua ideia: O que pertence ao cérebro sobreleva o que pertence ao músculo. Nas escolas primárias e secundárias os desportos devem ser afastados com toda a energia, porque os organismos infantis depauperados não os suportam, sem graves prejuízos e os atletas marcam a decadência dos grandes povos. A Grécia e a Roma dos atletas são precisamente a Grécia e a Roma da decadência” (p. 152).

Já em 1977, no meu livro A Prática e a Educação Física, eu escrevia que lutar por um desporto novo significava, sem margem para dúvidas, “negação do acto pedagógico, correspondente a uma organização fixista da sociedade” (p. 21). Creio que os fundadores de “A Bola” fariam suas estas minhas palavras, já com trinta e oito anos de vida!

Mas o nascimento de A Bola significa, na sociedade portuguesa, evolução, na teoria e na prática. Recordo O Fenómeno Humano, de Teilhard de Chardin: “Cegos esses que não vêem a amplitude de um movimento cujo espaço, ultrapassando infinitamente as ciências naturais, alcançou e invadiu, sucessivamente, a Química, a Física, a Sociologia e até as Matemáticas e a História das Religiões. A evolução apenas uma teoria, um sistema, uma hipótese? Nada disso e muito mais do que isso. Trata-se de uma condição geral à qual devem obedecer e satisfazer doravante, para serem verdadeiras, todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas. Uma luz que ilumina todos os factos, uma curvatura que todos os traços devem acompanhar, eis o que é a evolução” (Le Phénomène Humain, Oeuvres, Ed. Du Seuil, Paris, p. 255). Diz ainda Teilhard de Chardin que, até ao surgimento do Homem, a evolução vingou de forma ascendente, convergente e progressiva. Com o Homem, porém, despontou o pensamento e a liberdade e, com eles, apareceu a crise, a objetividade tornou-se problemática, a história deixou de ter um só sentido. Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo provaram, com o nascimento de A Bola, que o futuro da história é um horizonte aberto à liberdade humana. E, num país onde o Logos era o do ditador, o sentido de um jornal passou a ser decidido por três homens, desportistas e democratas. Muitas vezes, de olhos marejados pela emoção, o Homero Serpa, que sempre timbrou em honrar com inesquecíveis palavras de gratidão os progenitores do seu jornal, me resumiu o que deles pensava: “Foram três homens, especialmente o Cândido, que dignificaram e enobreceram o jornalismo, com a preocupação prioritária de fazerem dele um insubstituível fator de cultura”. E acrescentava: “E que ajudasse a uma visão nova do desporto, como um fenómeno cultural e político”. Sem querer ser injusto para ninguém, julgo que o Vítor Santos, o Carlos Miranda, o Carlos Pinhão, o Alfredo Farinha e o Homero Serpa souberam corporizar, na marcha do tempo, o espírito, as ideias, os objetivos primeiros do Cândido e seus pares, os quais, porque diferentes, criaram o Futuro e, uma vez mais, a Origem foi a des-Ordem, as minorias, as margens! A Origem não foi a Lei, mas a Exceção!

Este modo de pensar a realidade em permanente estado de crise (Bachelard assim o pensava também, ao caracterizar a epistemologia não-cartesiana) que a liberdade, como ética e como política, orienta e providencia - ainda se revela, hoje, no ímpeto dinâmico e persuasivo dos jornalistas que cumprem, nesta Casa e sem desfalecimentos, a sua missão. Hoje, no entanto, refiro-me especialmente a dois, com funções de direção e gestão: o Vítor Serpa e o Fernando Guerra. Com eles dialogo (com o Vítor, um intelectual sempre de simpatia e fraternidade familiares por temas culturais, desde há muitos anos já) e deles recebo um idealismo afirmativo e veemente de confiança na instituição onde trabalham e de crença no triunfo do espírito que a criou. Quando se descobrirá a escola de jornalismo de A Bola, fixando-lhe os traços marcantes e as tendências mais pronunciadas? Não me parece cedo demais para tão salutar e necessária iniciativa. É que o espírito de Cândido de Oliveira, de Ribeiro dos Reis, de Vicente de Melo continua, perdura, alarga-se, interpreta-se, todos os dias... mais e melhor! Sem a metalinguagem despótica do tempo do salazarismo, porque é a força moral, porque é uma racionalidade crítica, presentes em cada um dos trabalhadores deste diário, que dão unidade e continuidade a uma forma invulgar de informar, formando, através do desporto. Homero Serpa reivindicava sempre uma dimensão ética e cognitiva ao futebol do Cândido. Aurélio Márcio sustentava que os seus (do Cândido, como é óbvio) triunfos “na condução das equipas dividiam-se em partes iguais, pela elevada capacidade técnica e os notáveis dotes de psicologia”. Mas foi o Homero Serpa, em livro notável, Cândido de Oliveira - Uma biografia, quem melhor retratou o Cândido de Oliveira, quem com justeza e sobriedade melhor veiculou a sua mensagem, incluindo o seu fervente apostolado cívico. Por isso, não me furtarei a rápido bosquejo deste livro, num dos meus próximos artigos.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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