“A Bola”: uma práxis que é preciso manter (artigo de Manuel Sérgio, 70)

Ética no Desporto 01-02-2015 16:32
Por Manuel Sérgio
No dia dos 70 anos de A Bola, entrei no hotel onde habitualmente compro os meus jornais impelido por um misto de impaciência e de júbilo: impaciência que sempre sinto pelas notícias matutinas mais salientes e júbilo pela bonita idade daquele que, desde rapaz, já o sagrei como o meu jornal preferido.

Aliás, esta ideia da incontroversa excelência de A Bola foi acolitada por figuras de relevo, na política, no desporto, na cultura, ao longo do exemplar que me chegou às mãos, na manhã do dia 29 de Janeiro de 2015. Joseph Blatter, Michel Platini, Fernando Gomes (presidente da FPF), Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro, Nélson Évora, Marques Guedes, António Costa, Adriano Moreira, Mário Wilson, José Augusto, Henrique Calisto, Toni, Manuel José, Jesualdo Ferreira, Domingos Paciência, Manuel Alegre, Marcelo Rebelo de Sousa, José Manuel Constantino, Gonçalves Manuel Muandumba (ministro da Juventude e Desportos de Angola), José Maria das Neves (primeiro-ministro de Cabo Verde) e, pela pessoa que é e pelas funções que desempenha, com inexcedível dignidade, o presidente da República de Cabo Verde, o meu amigo Dr. Jorge Carlos Fonseca.

Porque, à minha maneira (ou seja, como espectador atento e estudioso entusiasta) conheço os nomes maiores do nosso desporto, da nossa política, da nossa cultura, peço licença, para começar por colher nas palavras do Dr. Jorge Carlos Fonseca (um “uomo universale”, na política) o que pretendo distinguir, nos 70 anos de vida do jornal A Bola. Escreve este cabo-verdiano da melhor estirpe: “Pessoalmente, repito o que disse, há algum tempo: de algum modo, cresci com A Bola (…). Aprendi sobremaneira o gosto pela língua, com a leitura – completa e amiúde repetida – das crónicas de Vítor Santos, Alfredo Farinha, entre outros notáveis cultores da língua portuguesa”. É tradicional, nos juristas, o culto do vernáculo, a ilustração e defesa do idioma que une e distingue os povos de Cabo Verde, Angola, Moçambique, Brasil, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor e Portugal. Ora, o Dr. Jorge Carlos Fonseca, jurista insigne que é, mostra, neste e noutros textos da sua autoria, um inequívoco amor à língua portuguesa. O presidente da República de Cabo Verde contribui, assim, à unidade de um idioma que, no meio de todas as deficiências e erros enormes do colonialismo, abriu as portas da cultura ocidental a três quartas partes do globo. Como português que sou, aqui lhe deixo um abraço de profunda amizade e admiração.

E o presidente da República de Cabo Verde, que considera A Bola glória comum das duas Pátrias, Cabo Verde e Portugal, salientou ainda: “Assim, nesta altura em que o prestigiado jornal completa 70 anos de existência, saúdo os seus dirigentes, jornalistas e trabalhadores, desejando longa vida ao jornal e votos de continuado sucesso para o desenvolvimento do desporto em Portugal, particularmente o futebol, mas igualmente no nosso país e noutros que são membros da grande Comunidade dos povos de língua oficial portuguesa, sem esquecer o fomento da cultura e da ética desportivas (…). Saudação que faço simbolicamente centrar, na figura de Cândido de Oliveira, homem de distinção no campo do desporto e sua cultura, mas também como humanista e lutador por causas que nos eram e nos são gratas e pelas quais ainda nos batemos.”. Ou seja, em Cabo Verde (e as palavras do Dr. Jorge Carlos Fonseca assim o confirmam) já se sabe, há muito tempo, que o desporto é um fenómeno cultural e político. E que o Mestre Cândido sabia muito de Desporto, porque sabia mais do que Desporto. O Dr. José Maria das Neves, também um cabo-verdiano insigne, é bem da “equipa” do Dr. Jorge Carlos Fonseca, quando escreve: “Há uma ligação muito forte com Cabo Verde de muitos homens progressistas portugueses, que passaram pelo campo de concentração do Tarrafal. E é uma feliz coincidência o facto de um progressista, Cândido de Oliveira que, por causa dos seus ideais de liberdade passou pelo Tarrafal, ser também um dos fundadores do jornal A Bola”.

No meu pensar, o Desporto é um dos aspetos da motricidade humana (ao lado da dança, da ergonomia, da reabilitação, da gestão do desporto, etc.). Motricidade humana, ou seja, movimento intencional e em equipa da transcendência (ou superação). Ora, é pela transcendência (ou superação) que o ser humano prova que não é objeto, mas sujeito da história; que o ser humano é sempre e em todas as circunstâncias uma tarefa a realizar. Daí, a transcendência não resumir-se às dimensões biológicas, nem aos aspetos quantitativos, do movimento, No movimento está o homem todo, ou melhor: está a complexidade humana!

Com um sorriso discreto e cético, perguntou-me um dia o Eduardo Prado Coelho, meu contemporâneo na Faculdade de Letras de Lisboa: “Se você não ensina aos seus alunos, nem técnica, nem tática, nem preparação física, o que lhes ensina você?”. E, insistindo, com olhar interrogativo: ”Eu sei que você é de Filosofia e... o que lhes ensina você de Filosofia?”. Atalhei deste modo: “A teoria que possa servir à prática” e continuei: “Assim, faço das minhas aulas uma proposta de pensamento do corpo, da motricidade, do desporto”. E ele: “Mas a Filosofia deve ter também a sua erótica, a sua estética”. E eu: “Mas, antes, porque estou na universidade, tenho que procurar o paradigma da licenciatura, onde leciono, distinguindo o saber científico do saber não-científico que o precedeu. É que há demasiado pré-saber, nesta área e pouca vontade de superá-lo”.

Sente-se no jornal A Bola, atualmente, uma prudente atitude crítica que leva muitos dos seus jornalistas a rigorosa informaçao, a um estudo sério. O grande poder de vida, colorido e relevo, típico de um jornal desportivo, não exclui, antes supõe, esta questão essencial: Comparando as epistemologias de Popper e de Bachelard, ambas se caracterizam por se fundarem no princípio, segundo o qual a ciência só nos fornece um conhecimento “aproximado” (Bachelard), ou um conhecimento “provisório” (Popper) e que as ciências se encontram em constante “retificação” (Bachelard) ou “modificação” (Popper). A verdade, no conhecimento científico, vive assim em incessante “construção” (Bachelard) ou “interpretação” (Popper), resultantes de uma “superação de obstáculos” (Bachelard) ou de uma “lógica de descoberta” (Popper). Mas, porque o ser humano é o sujeito da história; porque os problemas que se levantam ao cientista são também questões de forte pendor social e político – no trabalho do cientista, a ética toma lugar de relevo. E, porque o modelo das ciências da natureza me parecia (e parece) insuficiente e mesmo inadequado ao estudo do ser humano, o facto de ter adiantado, com alguma ousadia e o escândalo de meia dúzia de pessoas que se julgam importantes, que o Desporto só nas ciências hermenêutico-humanas poderia encontrar o seu paradigma fundante.

Por isso, diante do cartesianismo e do positivismo do treino desportivo daquele tempo que, de tão físico que era, separava os factos dos valores – bem depressa concluí que a defesa de um novo paradigma, centrado nas ciências humanas, poderia dar mais conhecimento e segurança profissional aos treinadores desportivos e até aos estudiosos e aos jornalistas que do Desporto se ocupam. Isto mesmo o entendeu o jornalista Vítor Serpa que de epistemologia já falou tantas horas comigo como eu já falei de treino com o Monge da Silva, podendo assim dizer-se que, nos 70 anos de vida de A Bola, um corte epistemológico se anuncia, nesta Casa. Não, não me considero, ridiculamente, um daqueles “profissionais do triunfo”, que julgam existir apenas para que o mundo todo os aplauda. O corte epistemológico não é meu! É dos jornalistas e da direção do jornal A Bola. É, de facto, do jornal A Bola! E até de colaboradores seus, como o dr. Tomaz Morais que assim escreveu, na edição de 2015/1/31: “Ambicionamos muito as boas competições, medalhas, campeões e egos, mas esquecemos recorrentemente que o ingrediente para o aumento da competitividade está na forma como cada atleta é treinado e preparado. Só se batem recordes, quando os treinadores são de qualidade, disponíveis; os treinos apropriados, com o máximo rigor científico; os atletas estão comprometidos e focados, beneficiando de horários adaptados às exigências das competições e existe estrutura administrativa que contribui para a facilitação do que é necessário. As competições, por si, não fazem progredir os atletas”.

Repito as palavras do Tomaz Morais: as competições, por si, não fazem progredir os atletas. Sem dúvida! Antes, há que escolher o paradigma científico. Porque só o paradigma certo nos permite encontrar o rigor na metodologia. O nascimento do jornal A Bola representou, na década de 40, um corte epistemológico, assumido por Cândido de Oliveira, em relação ao pré-saber que era o nosso desporto de então. Hoje, novo corte parece aflorar e nascer neste mesmo jornal, assinalando como características essenciais: a independência das ciências humanas, em relação às ciências da natureza; a proposta de um novo conceito de Homem, onde o corpo, a motricidade e a relação tomem lugar essencial; o reconhecimento do Desporto como sistema ou subsistema das ciências humanas, em interdisciplinaridade com os demais campos do saber (a teoria geral dos sistemas assim o assinala). E por aqui fico, hoje... se Deus quiser e os homens também!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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