Feliz Ano Novo ao Desporto Português (artigo de Manuel Sérgio, 63)

Ética no Desporto 31-12-2014 23:31
Por Manuel Sérgio
A competição desmedida em que o espetáculo desportivo descambou, conjugada com a crise moral que trocou a sabedoria pelo primado do económico – vem espalhando a crença que o progresso (e o progresso desportivo) se põe, antes de tudo, numa economia sem qualquer referência axiológica, monadicamente fechada a outras ideias, aspirações e desejos.

Desta sorte, o praticante desportivo, abandonado a si mesmo, depois do naufrágio das metanarrativas, designadamente o cristianismo, parece um autêntico Robinson Crusoé, mesmo que acompanhado de multidões de basbaques, ou de automóveis e meninas, último modelo. Ensinaram-lhe a correr, a saltar, a rematar, dentro de um sistema tático que o treinador determina; sublinharam, em ementas cientificamente preparadas, o que deveria comer e o que, à mesa, deveria rejeitar; os dirigentes, com encapotada agressividade, destacaram, diante dos seus olhos, regras e regulamentos, internos do clube... que são para ele cumprir, evidentemente; falaram-lhe do fair-play e doutras coisas a que não atribuiu grande importância; os órgãos da Comunicação Social afogam-no num “mare magnum” de publicidade, erguem-lhe altares de mentiras, empurram-no a um mundanismo ridículo. E, com o que tem e o que é, incluindo uma inteligência corporal quinestésica, que os treinos desenvolvem, aí está um campeão do desporto. O que é bem pouco, parecendo muito. Podemos escutar, neste passo. Guy Debord: “Em 1967, mostrei num livro, A Sociedade do Espectáculo, aquilo que o espectáculo moderno era já essencialmente: o reino autocrático da economia mercantil, tendo acedido a um estatuto de soberania irresponsável, e o conjunto das novas técnicas de governo, que acompanham este reino” (Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo, mobilis in mobile, Lisboa, 1995, p. 14). Nesta sociedade, o que não é espetacular, praticamente não existe, “as únicas forças organizadas são aquelas que querem e promovem o espetáculo” (p. 34).

Oiço por aí alguns comentadores políticos, bem enraizados na “sociedade do espetáculo”, que se dizem escandalizados, com a espetacularidade da justiça. Mas por que não se diz também que são os mesmos “que querem e promovem a sociedade do espetáculo” que se encontram em tácita aliança com os que tornam possível a sabotagem económica, a fuga de capitais, a falência dos bancos, a depredação dos agros, a ruína das pequenas e médias empresas, a corrupção, etc., etc.? Guy Debotd não o esconde: “A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira” (p,. 75). Ora, em tudo o que é espetáculo há uma audaciosa mentira, porque “as leis se fazem, para serem torneadas, por aqueles que justamente possuirão todos os meios para isso” (p. 87). Sejamos claros: é o aparelho legislativo e o executivo que “fabricam” as leis. O que resta à nossa jurisprudência (de que já ouvi falar, no estrangeiro, com reverência e respeoto) não passa de simples interpretação. Nada mais! Não é a justiça, portanto, que afinal obedece às leis que outros fizeram, a “causa das causas”, nem das leis, nem da justiça-espetáculo. Chegou o tempo de não iludir os problemas estruturais que enfrentamos neste e noutros domínios. Em sentido extenso, também o desporto é política: reflete a sociedade e pode concorrer à sua transformação. O desporto, como o teatro, o cinema, a literatura, a dança, pode e deve mobilizar, motivar, esclarecer, cumprir a sua função lúdica e política (digo política e não partidária). Sendo movimento intencional e em equipa da transcendência, ou superação, mas de uma transcendência, ou superação, que possa valer como explicação integral da pessoa humana – nele, a competição, socialmente institucionalizada, deve significar capacidade de estabelecer relações construtivas, compreensivas. tolerantes e respeito pela diferença e exercício dos valores da cidadania. Faltam-nos dirigentes, em número suficiente, capazes de assumir uma não-violência, tanto a física como a não-violência verbal. A nossa verdade e a dos adversários são sempre relativas ou parciais. Também no desporto só unidos venceremos!

Quando portanto se deseja Feliz Ano Novo ao Desporto Português, importa realçar, antes do mais, que o momento não é de divisões e o diálogo entre clubes é absolutamente necessário. “No começo era a ação” dizia o velho Goethe. O nosso desporto tem de transformar-se num mapa de ações novas onde a competição seja também cooperação, onde possa nascer, de facto, o neologismo coopetição, ou seja, competição com cooperação. “Uma manhã, ao despertar de sonhos agitados, Gregor Samsa deu por si, na sua cama, transformado num monstruoso inseto”. Com estas palavras, Kafka principia A Metamorfose, um conto escrito em Novembro de 1912. Uma coisa estranha, no desporto, são também aqueles que não sabem o que é nem qual a utilidade do desporto, numa sociedade civilizada. Aconselha-se a leitura de grande parte dos textos de Coubertin aos nossos dirigentes desportivos, há neles o fermento de um renovo, que não devemos deixar morrer.

A busca do Absoluto, na prática desportiva, sublinha a necessidade de justificar o Desporto pela adesão a uma ideia ou a um projeto coletivo donde se divise um mundo mais humano e humanizante. Tanto como praticar desporto há que praticar uma cultura desportiva, para que o desporto tenha sentido e passe de Atividade unicamente Física a uma Atividade Humana, autenticamente Humana. São estes os nossos votos primeiros, para o desporto português, no ano de 2015. E que os dias amanheçam invariavelmente promissores para as nossas seleções nacionais das várias modalidades desportivas. À personalidade original e expressiva do José Mourinho; à juventude, no corpo e na alma, do André Villas-Boas e Nuno Espírito Santo; ao Cristiano Ronaldo, o melhor futebolista do mundo; aos futebolistas e treinadores portugueses que, no estrangeiro, se afirmam pelo seu incontestável valor desportivo; a todos os “agentes do desporto”, portugueses, aquém e além-fronteiras - com uma grande ternura a derreter-se nos meus lábios enternecidos(os meus 81 anos já me permitem um ar paternal, em muitas circunstâncias) aqui deixo a todos os meus votos sinceros de Feliz Ano Novo, corporizando “o espírito desportivo, enraizado nos valores e nos comportamentos éticos”!

E, por fim, pela seu ano excecional de 2014, como treinador de futebol, um sentido abraço ao Jorge Jesus. Não esqueço nunca o seu convívio como, sob determinados aspetos, uma das coisas extraordinárias que na vida me foi dado desfrutar.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.
Ler Mais
17:32  -  24-12-2014
A grande revolução de Jesus na Vida e... no Desporto! (artigo de Manuel Sérgio, 62)
17:53  -  20-12-2014
História e Filosofia das Ciências, no Desporto e... no Benfica! (artigo de Manuel Sérgio, 61)
22:56  -  17-12-2014
Uma resposta breve a Miguel Cardoso Pereira (artigo de Manuel Sérgio, 60)
18:57  -  11-12-2014
Desporto e Desenvolvimento ou um livro de Gustavo Pires (artigo de Manuel Sérgio, 59)
18:36  -  04-12-2014
Nossos contemporâneos (artigo de Manuel Sérgio, 58)
18:19  -  27-11-2014
Da Desconfiança à Solidariedade em Pinto da Costa e Filipe Vieira (artigo de Manuel Sérgio, 57)
23:19  -  20-11-2014
As incertezas da ciência (artigo de Manuel Sérgio, 56)
16:18  -  16-11-2014
O engenheiro Fernando Santos: - o mesmo e o diferente (artigo de Manuel Sérgio, 55)
18:39  -  11-11-2014
Ou interdisciplinaridade ou ignorância (artigo de Manuel Sérgio, 54)
10:25  -  08-11-2014
Carta Aberta ao Presidente da República de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 53)
17:43  -  30-10-2014
Rui Jorge: e o treinador do Futuro (artigo de Manuel Sérgio, 52)
15:56  -  23-10-2014
O engenheiro Fernando Santos: o ser e o tempo (artigo de Manuel Sérgio, 51)
19:34  -  16-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol, 2.ª parte (artigo de Manuel Sérgio, 50)
17:38  -  11-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol (1) (artigo de Manuel Sérgio, 49)
22:14  -  03-10-2014
Eduardo Monteiro: perfil de um dirigente! (artigo de Manuel Sérgio, 48)
17:55  -  28-09-2014
A propósito do engenheiro Fernando Santos (artigo de Manuel Sérgio, 47)
16:47  -  22-09-2014
O campeão observado a dois ângulos de visão (artigo de Manuel Sérgio, 46)
00:24  -  18-09-2014
Há falta de treinadores negros (artigo de Manuel Sérgio, 45)
01:06  -  13-09-2014
Valdano: um homem que transporta uma frustração (artigo de Manuel Sérgio, 44)
18:39  -  08-09-2014
A grande revolução a fazer no futebol (artigo de Manuel Sérgio, 43)
18:36  -  03-09-2014
Mais Platão, menos Prozac! (Artigo de Manuel Sérgio, 42)
14:57  -  28-08-2014
Fiel ao Belenenses e... aos amigos! (artigo de Manuel Sérgio, 41)
18:38  -  17-08-2014
O Deus dos filósofos e os deuses do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 40)
18:34  -  10-08-2014
O olho das rãs e o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 39)
21:47  -  04-08-2014
“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
16:52  -  26-07-2014
“Preparar para Ganhar”: um livro de José Neto (artigo Manuel Sérgio, 37)
22:24  -  15-07-2014
O Futebol na Sociedade Pós-Capitalista ou a vitória da Alemanha (artigo Manuel Sérgio, 36)
00:43  -  07-07-2014
Código de Ética Desportiva (artigo Manuel Sérgio, 35)
16:35  -  02-07-2014
A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
20:53  -  27-06-2014
O Futebol e os Escritores (artigo Manuel Sérgio, 33)
22:45  -  22-06-2014
As dúvidas do Doutor Eduardo Barroso: as dele e as minhas! (artigo Manuel Sérgio, 32)
16:17  -  08-06-2014
Carta Aberta ao Ministro do Desporto do Brasil (artigo Manuel Sérgio, 31)
18:08  -  01-06-2014
Da poesia ao futebol (artigo Manuel Sérgio, 30)
18:57  -  27-05-2014
Factos e valores (artigo Manuel Sérgio, 29)
18:50  -  19-05-2014
Parabéns ao Benfica: na vitória e na derrota (artigo Manuel Sérgio, 28)
16:35  -  12-05-2014
Marco Silva: um grande treinador, com toda a certeza! (artigo Manuel Sérgio, 27)
21:07  -  01-05-2014
A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
00:52  -  24-04-2014
O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
18:33  -  11-04-2014
Os mitos fundadores da Modernidade (artigo Manuel Sérgio 24)
23:56  -  06-04-2014
Os cem anos da FPF: em Portugal também há progresso? (artigo Manuel Sérgio 23)
20:01  -  30-03-2014
Nova Teoria do Sebastiano e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio 22)
23:11  -  23-03-2014
José Medeiros Ferreira: o desportisra, o político, o intelectual (artigo Manuel Sérgio 21)
17:26  -  18-03-2014
Nossos contemporâneos (artigo Manuel Sérgio 20)
21:39  -  03-03-2014
Há necessidade de uma utopia (artigo Manuel Sérgio 19)
00:49  -  22-02-2014
“Filosofia e Futebol: troca de passes” - um livro de grande atualidade ( artigo Manuel Sérgio 18)
22:28  -  16-02-2014
A Inteligência Competitiva e o Espectáculo Desportivo (artigo Manuel Sérgio 17)
18:50  -  12-02-2014
Plano Nacional de Ética no Desporto (artigo Manuel Sérgio 16)
21:08  -  02-02-2014
Porque sou belenenses... (artigo Manuel Sérgio 15)
00:04  -  28-01-2014
Aurélio Pereira ou um projeto antropológico (artigo Manuel Sérgio 14)
00:19  -  23-01-2014
O nome da rosa (artigo Manuel Sérgio 13)
00:11  -  15-01-2014
Cristiano Ronaldo: agilidade física ou intelectual? (artigo Manuel Sérgio 12)
00:38  -  13-01-2014
Eusébio tem lugar indiscutível no panteão nacional (artigo Manuel Sérgio 11)
23:59  -  03-01-2014
Ciência no Futebol e outras coisas mais... (artigo Manuel Sérgio 10)
00:04  -  30-12-2013
O Desporto nem sempre educa... (artigo de Manuel Sérgio 9)
00:37  -  23-12-2013
Carta Aberta aos jogadores do Bom Senso F.C. (artigo de Manuel Sérgio 8)
00:14  -  10-12-2013
Os golos do Ronaldo e a ética da palavra (artigo de Manuel Sérgio 7)
22:14  -  03-12-2013
Cristiano Ronaldo: - um herói da cultura! (artigo de Manuel Sérgio 6)
21:39  -  20-11-2013
Os erros dos árbitros e os erros dos outros... (artigo de Manuel Sérgio 5)
11:56  -  28-10-2013
«O Desporto (o Futebol) não é violência» (artigo de Manuel Sérgio 4)
22:58  -  18-10-2013
«O Desporto e o Desafio do Sentido» (artigo de Manuel Sérgio 3)
22:45  -  06-10-2013
«O pensamento ético contemporâneo e o Desporto» (artigo de Manuel Sérgio 2)
18:40  -  27-09-2013
«O Desporto em que eu acredito» (artigo de Manuel Sérgio 1)
Comentários (0)

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais