A grande revolução de Jesus na Vida e... no Desporto! (artigo de Manuel Sérgio, 62)

Ética no Desporto 24-12-2014 17:32
Por Manuel Sérgio
Se nem só de pão vive o homem, também não se pode viver sem pão. Sem um certo ter, não se pode ser. Os bens materiais só são desprezíveis quando se erguem como obstáculo a uma ordem social, económica, espiritual, onde todos nos sintamos irmãos, ou melhor: onde todos nos sintamos com iguais oportunidades.

Podemos por isso afirmar, sem receio, que pode construir-se uma sociedade moldada nos princípios que Jesus de Nazaré ensinou. Que o mesmo é dizer: não se transforma uma sociedade unicamente por meio de decretos e de leis, ou pelo carisma de líderes incontestados. De uma revolução política, fundamentada nas melhores intenções, podem nascer invejas, ódios incontidos, ambições insatisfeitas. A grande revolução de Jesus transforma o social e o político, porque antes nos transformou a cada um de nós.

Interrogam-se os fariseus sobre o reino de Deus e Jesus responde: “O reino de Deus não chega de uma maneira que impressiona a vista. O reino de Deus está dentro de vós”. Porque desejava fazer um mundo novo, Ele trabalhou e ofereceu a sua própria vida para que nascesse também um ser humano novo. Quando os discípulos lhe perguntaram: Mestre, de nós qual será o primeiro no reino dos céus? Jesus sentou-se, reuniu os doze à sua volta e disse-lhes: “Se algum quiser ser o primeiro, que seja agora o último e esteja ao serviço de todos”. E, chamando uma criancinha, envolveu-a carinhosamente num abraço e ensinou: “Em verdade vos digo que, se não vos tornardes como esta criança, não entrareis no reino dos céus”. Jesus é fator de progresso material, natural, porque é também fator de progresso moral, espiritual. De muitas revoluções, com os melhores propósitos, surgiram figuras hediondas, que deixaram o povo vivendo miseravelmente, em crassa ignorância e estagnação..

Jesus é bem explícito, a este respeito: Ele chamou aos discípulos pescadores de homens e não pescadores de almas. E, quando reza ao Pai, suplica: “Não Vos peço que os retireis do mundo, mas que os preserveis do mal”. Por isso, recomenda que se pague o tributo a César, sacia multidões esfomeadas, vai às núpcias de Caná, manifesta um carinho especial por Maria Madalena, etc., etc. Trata-se, de facto, de um cidadão exemplar, mas porque se fundamenta em princípios perfeitamente revolucionários: Bem-aventurados os pobres de espírito (ou seja, os modestos, os humildes, os que sabem tanto que sabem que sabem pouco) porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os que pacificam, porque serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus. E chega mesmo a dizer: “ Se trouxerdes a vossa oferta ao altar e aí vos lembrardes que o vosso irmão tem qualquer coisa contra vós, deixai ali a oferta, ide reconciliar-vos primeiro com o vosso irmão e depois voltai e oferecei a vossa oferta”. Em Jesus, há uma seiva espiritual que alimenta e percorre todo o Seu comportamento, onde brilham a solidariedade e a justiça. São um logro as revoluções sociais e políticas lideradas por ditadores, por violentos, por hipócritas, mesmo que pronunciem palavras encantadoras, ou se afirmem enviados por Deus. Jesus avisa: “Nem todo o que diz Senhor! Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”.

Não há na Sua doutrina qualquer dualismo (razão-fé, ciência-religião, natureza-cultura, imanência-transcendência, espiritualismo-materialismo, rico-pobre, branco-preto, senhor-servo, indivíduo-pessoa, sagrado-profano): Ele dá sentido à evolução, ao processo histórico – o amor de Deus confunde-se com o amor do próximo! E, porque vês Deus, no teu próximo, sê então um revolucionário. Ocorre-me, neste passo, a frase célebre de Agostinho de Hipona: “Ama e faz o que quiseres”. Com Jesus, nasce um mundo novo e um homem novo. Jesus tudo adotou, retificou, uniu, completou, Ele corresponde aos postulados mais universais e profundos que animam o ser humano. N’Ele, a dimensão social e a dimensão espiritual confundem-se na complexidade humana! A grande revolução de Jesus é esta: a vida tem sentido, sempre que se ama a Deus no próximo, sempre que se descobre a transcendência na imanência. Com isto, não nego a necessidade da meditação e da oração. Digo tão-só que, sem obras, a fé é morta. Foi das primeiras coisas que aprendi, na disciplina de História da Cultura Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa: a cultura ocidental radica na filosofia grega, no espírito jurídico latino e na mensagem judaico.cristã (eu gosto de acrescentar-lhes o criticismo de Kant e ainda os grandes nomes do Iluminismo).

Mas, no lugar da religião do indivíduo, é preciso apostar na religião da comunidade, que não subalterniza a realidade e o valor do indivíduo, mas o considera essencialmente relativo aos outros e à sociedade. No plano dos valores, portanto, requer-se a passagem de uma ética individualista a uma ética comunitária, onde todos são corresponsáveis. Em Jesus, não há só o proximus, o amigo, o familiar, mas principalmente o socius, na criação de instituições mais solidárias, mais justas. Jesus não lutou por uma religião dos espíritos, mas por uma religião dos homens, sabendo que, se uma revolução social não chega para criar o “homem novo”, pode criar condições ao seu nascimento. A religião de Jesus não sofre de absentismo e conformismo. Ele escolheu a religião do afrontamento contra os privilégios, contra a violência dos poderosos, contra as injustiças do sistema dominante. Por isso, foi crucificado. Ao proclamar, diante de multidões extasiadas, que todos somos iguais, que perante Deus o escravo era igual ao imperador, o servo era igual ao senhor – assinou a sua sentença de morte! Homem extraordinário para conviver, com pessoas de todas as classes sociais era, contudo, na gente do povo que encontrava a maior recetividade. Os seus discípulos escolheu-os, entre os pobres pescadores da Galileia. Há dois mil anos! E o cristianismo chegou ao mundo todo! Neste Natal de 2014, importa que tenhamos presente um dos pilares onde assenta a nossa cultura e a nossa civilização, a mensagem de Jesus de Nazaré, que afinal está na génese do nascimento do desporto moderno. Quem se deite a estudar (um pouco que seja) a História do Desporto verá um cónego, Thomas Arnold, como o grande anunciador do desporto atual, na sociedade vitoriana.

Justifica-se assim o que vem expresso no Código de Ética Desportiva, editado pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude: “Nos termos da Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto (Lei nº 5/2007) de 16 de Janeiro) a atividade desportiva é desenvolvida em observância dos princípios da ética, da defesa do espírito desportivo, da verdade desportiva e da defesa integral de todos os participantes. Falar de ética no desporto é centrarmo-nos em valores que deverão estar presentes na orientação dos praticantes, em todos os agentes desportivos e no movimento associativo, de forma a que o desporto se possa constituir como um verdadeiro fator educacional, de integração e inclusão social, contribuindo para o desenvolvimento de todas as potencialidades e consciencialização de todos os agentes que se relacionam com o desporto quanto à respetiva responsabilidade na observância de comportamentos leais e que possam servir de modelo positivo para os mais jovens (…). Um desporto baseado nos princípios da ética será, para todos os que nele participarem, mais apelativo, motivador, realizador e útil”.

Chegou o momento de todos os desportistas, que são certamente mulheres e homens de boa vontade, crentes ou ateus, reconhecerem (porque se trata de uma verdade histórica insofismável) que o desporto moderno nasce, em pleno seio do cristianismo, que há valores cristãos a presidir a uma autêntica prática desportiva. E termino, pedindo desculpa por hoje não me ter ocupado, nem do Benfica, nem do Porto, nem do Sporting, nem do meu Belenenses, nem da fidelidade a princípios que tornam mais efetiva a verdade desportiva. È que estamos na quadra natalícia, fez-se homem um Menino-Deus!

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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