História e Filosofia das Ciências, no Desporto e... no Benfica! (artigo de Manuel Sérgio, 61)

Ética no Desporto 20-12-2014 17:53
Por Manuel Sérgio
A História e Filosofia das Ciências emergiu como área disciplinar inovadora, em 31 de Julho de 1964 (Decreto nº. 45480), nas Faculdades de Ciências e nas licenciaturas em Física, Química, Geologia, Biologia e ainda nas licenciaturas em Matemática Pura e em Matemática Aplicada.

Dez anos depois, foi concedida às Faculdades de Ciências a competência para outorgar doutoramentos, em História e Metodologia das Ciências. O Decreto 53/78, de 31 de Maio, atribuiu caráter obrigatório à Epistemologia Geral e opcional à Epistemologia das Ciências Humanas, Epistemologia das Ciências da Natureza e História e Sociologia das Ciências, na Licenciatura em Filosofia, prevendo a Epistemologia Geral e a Epistemologia das Ciências Humanas, como cadeiras opcionais, na Licenciatura em História.

Durante a década de oitenta, disciplinas idênticas, ou semelhantes, foram nascendo, em diversos cursos universitários, provenientes do dinamismo, da dialética que animava o conhecimento científico, o qual se manifestava numa história descontínua, não-acumulativa, bem diferente da tradicional linearidade dogmática e simplista, vigente no século XIX. Alexandre Koyré, Gaston Bachelard, Georges Canguilhem, Louis Althusser, Michel Foucault, Karl Popper, Thomas S. Kuhn, Imre Lakatos, Edgar Morin, Ilya Prigogine, etc., etc. manifestam, com clareza, que pensar é “pensar com” e “pensar contra”. Se assim não fosse, isto é, se não houvesse um “não”, no diálogo entre o velho e o novo, o processo histórico não se concretizaria, nunca sairíamos do mesmo, da repetição, da rotina. O reconhecimento de revoluções científicas, de mudanças de paradigma, de cortes epistemológicos significa que os problemas científicos se transformam, opondo-se frontalmente à tradição. Não é por acaso que os inovadores são considerados heréticos, pela cólera dos instalados, dos repetitivos, dos comodistas...

Nas Faculdades e nos Institutos onde o Desporto se estuda, a epistemologia é praticamente desconhecida. Estuda-se, entre outras disciplinas ”básicas”, anátomofisiologia, psicofisiologia, bioquímica, sociologia e, com mais amplitude, a pedagogia, a psicologia e a gestão. A Filosofia, incluindo a Filosofia das Ciências, parece não dizer nada a alguns professores da(s) ciência(s) do desporto. Ora, para definir o alcance do seu significado e a dimensão do seu conteúdo e o sentido da sua história, designadamente porque se trata de uma ciência nova, o Desporto necessita do contributo da Filosofia e da Epistemologia. E se se pretende estudar o atleta, ou o educando, não basta a dimensão biomédica, mormente se se está diante de um superdotado. Há demasiados alunos, nas licenciaturas em Desporto, que dão tamanho relevo às aulas de caráter biomédico que nunca entenderam o que é a Medicina hoje, nem que o Desporto é bem mais do que uma Atividade Física. O discurso do José Mourinho, no dia do seu doutoramento “honoris causa”, deveria chegar ao conhecimento da universidade portuguesa. Afinal, esconderam-no, ou não lhe deram o devido apreço. Para os prosélitos de um Passado esclerótico todos os meios parecem justificáveis. O nosso Fernando Pessoa, sob o heterónimo de Ricardo Reis, estava certo quando escreveu:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua alta
Brilha porque alta vive”.

E sob o heterónimo Álvaro de Campos declara:

“Quanto mais eu sinta como várias
Pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for”.

O nosso grande poeta manifesta que, para conhecer a complexidade humana, há necessidade de uma compreensão do humano, que há-de procurar-se também na Filosofia. Os antigos alunos das Faculdades, onde se estuda Desporto, não sossobram, nas suas carreiras de treinadores, porque não conhecem os métodos do treino, mas se desconhecem o humano naquilo que não é empírico, nem epidérmico, nem imediatamente visível. Aliás, se estudassem um pouco de História e Filosofia das Ciências, chegariam rapidamente à conclusão que é preciso aprender a pensar, para compreender o Desporto, no que ele tem de mais profundo e original. Quando propus a criação da disciplina de Epistemologia da Motricidade Humana, na Faculdade de Motricidade Humana, pensava em todos estes problemas. Só que há quem não pense. E, pior ainda, não consegue ultrapassar conceitos paralizadores. Por que será que uma Faculdade nova não deverá exprimir-se de modo original, consentâneo com a sua juventude? Tudo isto me parece lógico e legítimo. Os séculos XV e XVI, em Portugal, foram precedidos e acompanhados por uma verdadeira revolução nas mentalidades, que é bem visível na Oratio pro rostris, a que Joaquim de Carvalho chama “verdadeiro manifesto do humanismo”, redigido com a “eloquência dum pedagogo revolucionário”. Camões fechou com chave de oiro uma época que nunca foi rudimentar, na forma e no fundo. Do que venho de escrever se infere que foi com viva admiração e sentida alegria que frequentei o Benfica LAB, “o coração tecnológico do Seixal, na prevenção e recuperação das lesões” (A Bola, de 2014/12/6). E não só pela tecnociência que o distingue, mas também pela lucidez crítica dos que nele trabalham, mormente o seu responsável, o fisiologista Bruno Mendes.

Não faço qualquer anotação pretenciosamente sagaz, porque me falecem os conhecimentos, sobre o trabalho no âmbito físico e fisiológico: “A capacidade física é um aspeto que não é o total do talento, mas é uma parte importante”. Cinjo-me, por isso, à transcrição destas palavras de Bruno Mendes, à referida edição do jornal A Bola: “Há estudos que apontam que determinados jogadores contraem lesôes graves porque o estado emocional, quando a lesão ocorreu, estava em baixo”. E respigo ainda o seguinte do entrevistador, o jornalista Paulo Alves: “O Benfica LAB está também, neste momento, a estudar um novo mecanismo que permitirá fazer testes de controlo do sono”. Bruno Mendes tem como máxima “desenvolver e otimizar, rumo à excelência” . Mas sabe que a sua preparação de especialista, hoje e no âmbito da alta competição, deve proporcionar-lhe não só a informação, os métodos e as técnicas de base, mas também a formação pessoal e a social adequadas ao exercício da função. A excelência, na alta competição, não postula o Super-Homem de Nietzsche, não supõe uma apoteose da neutralidade axiológica, porque o corpo destila espírito, como diria Teilhard de Chardin. Assim, o fisiologista Bruno Mendes sente-se obrigado não só ao conhecimento científico do corpo, mas também do espírito que esse corpo é. As superlativas valorações dos desempenhos quantitativos e físicos nem sempre notam que aquém do desporto cresce o espírito que fortifica o fisiológico. Por isso, o Bruno Mendes, sem deixar de ser fisiologista, quer ser mais do que fisiologista. Todo o seu trabalho no Benfica LAB é também a procura desfatalizadora do que no fisiológico não é matéria tão-só. Com uma judicação serena, arguta, verdadeiramente precursora de conclusões inovadoras, Bruno Mendes afirma: “As grandes questões da fisiologia não são unicamente fisiológicas”.

De facto, quando se procura decifrar o essencial, numa ciência, são mais as interrogações do que as afirmaçôes. Bruno Mendes, como fisiologista tem futuro e é futuro. A sua presença no Benfica LAB é fundamental para a completa e salutar preparação dos jogadores do Benfica. Fernando Guerra, “alma mater” de A Bola on line e jornalista que se deixa cativar pelo que é bom e belo e justo, para os clubes, adiantou a propósito: “Antigamente, a história dos clubes desportivos resumia-se à crónica dos seus fundadores e às lendas dos jogadores de eleição. Hoje, um especialista como o Bruno Mendes, parece e é essencial na história do Benfica dos nossos dias”. Tem razão Fernando Guerra: Bruno Mendes é essencial num Benfica indispensável ao desporto português!

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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