Desporto e Desenvolvimento ou um livro de Gustavo Pires (artigo de Manuel Sérgio, 59)

Ética no Desporto 11-12-2014 18:57
Por Manuel Sérgio
1. A tese deste artigo, que nasceu da leitura do livro OLIMPICAMENTE, de Gustavo Pires (prefácio de Carlos Colaço, Faculdade de Motricidade Humana, 2014) pode assim resumir-se: o êxito de qualquer programa de desenvolvimento desportivo depende, em última análise, da atenção prestada à sua dimensão cultural e ética. Não podemos reduzi-lo a uma operação económica ou a um projecto meramente tecnológico ou até exclusivamente biomédico.

É certo que o desenvolvimento requer o contributo de especialistas e técnicos altamente treinados, mas este é apenas um dos requisitos necessários para programas de desenvolvimento eficazes. A realidade começa a dar-nos uma lição: é impossível conseguir o desenvolvimento, sem considerar as suas dimensões culturais. O problema põe-se deste modo, por dois motivos: em primeiro lugar, para nos ajudar a compreender como tantos anos de esforços dedicados ao desenvolvimento deram até agora resultados tão diminutos; depois, para mostrar aos nossos contemporâneos, desapontados com a permanência do subdesenvolvimento, que o desenvolvimento é também um desafio cultural e moral. Está a tornar-se duvidoso um certo tipo de desenvolvimento, aquele que consiste simplesmente em enviar auxílio e assistência aos países mais atingidos pela pobreza. Um novo tipo de desenvolvimento está a nascer, aquele que leva as pessoas e os povos a tornarem-se moralmente solidários entre si, procurando mudar as mentalidades, designadamente a decadente escolástica de um saber tão repetitivo, tão inamovível, que se aproxima da superstição. Que o mesmo é dizer: desenvolvimento significa o progresso moral e cultural, alcançado pela própria humanidade. No entanto, os factos dão-nos uma dura lição: o subdesenvolvimento continua e aumenta, embora as injeções desinteressadas e massivas de dinheiro, que chegam às nações mais carentes. Porquê?

Tudo o que constitui o substrato de uma cultura (as relações, as crenças, as motivações) e ainda a ignorância, o medo, a intolerância, a recusa da inovação são duros obstáculos ao desenvolvimento. Depois, as mais de cem nações que declararam a sua independência, desde 1945, ainda que procurando a modernização, dão prioridade a valores tradicionais e religiosos que dizem justificar a sua identidade nacional. E, assim, o desenvolvimento é bem mais complexo do que o que pensam alguns teóricos, supõe uma transformação cultural que envolve os mais diversos temas. Repensar o papel da família e da educação, avaliar a informação dos cidadãos e a sua vida cívica, acompanhar a deslocação das populações das áreas rurais para as urbanas, retomar um contacto íntimo com os líderes religiosos e políticos, acentuar o caráter profano e secular da ciência e da cultura, renovar as mentalidades – tudo isto é necessário, para que o desenvolvimento aconteça. Demais, as regiões mais pobres do planeta já tomaram consciência do seu peso coletivo e reclamam dignidade igual à das nações mais ricas. Os países mais abastados experimentam, por isso, um estado de choque talvez mais doloroso do que o choque que eles provocaram no Terceiro Mundo. Já não basta dar o que sobra, necessária se torna uma solidariedade internacional, que envolva compreensão e corresponsabilidade, em relação aos povos que se empenham, real e ativamente, no seu progresso e desenvolvimento. É muito fácil afirmar que o desenvolvimento depende das ajudas desinteressadas dos ricos. O desenvolvimento é, antes do mais, um processo de cultura e educação e onde portanto a medicina é mais do que medicina e o direito mais do que direito e o desporto mais do que desporto, etc., etc..

2. Não me canso de repetir que o desporto é um dos aspetos da motricidade humana, ou seja, do movimento (em equipa, em grupo) intencional da superação. Ora, como negar que o desporto é um fator de desenvolvimento se, por ele, o praticante se transcende, num espaço donde deve emergir a solidariedade? O futuro da humanidade depende principalmente do reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada grupo, de cada nação. O desporto que não quer ser um reflexo servil do economicismo (ainda dominante) pode (deve) ser um dos líderes principais, na educação para o desenvolvimento humano. E porquê? Gustavo Pires (estudioso que muito aprendeu e mestre que muito nos pode ensinar) assim no-lo diz: “Se, por um lado, a dimensão competitiva do jogo e da vida não deve ser condicionada, sob pena de perder aquilo que de mais útil tem, que é a dimensão da luta livre, nobre, leal, pela superação, por outro lado, não deve ser deixada ao sabor do imprevisto e do improviso porque, tendo em atenção os mais primários sentimentos da condição humana, pode desencadear processos absolutamente dramáticos, para a vida das pessoas, dos países ou das regiões. Nesta perspetiva, diremos que uma sociedade pode beneficiar do equilíbrio de tensões, criado entre os seus membros” (p. 13). Em poucas palavras: porque procura a excelência, o desporto é um fator de desenvolvimento. Assim o entendeu, muito antes de nós, Pierre de Coubertin que frequentou os gregos (como aliás o Nietzsche o fez) para que, através da restauração dos Jogos Olímpicos, um desporto novo, liberto do cartesianismo da Educação Física, pudesse implementar-se e nele pudesse encontrar-se uma poderosa alavanca do desenvolvimento. Não ignoro, neste momento, a leitura que fiz de A Origem da Tragédia (que Nietzsche dedicou a Richard Wagner) na disciplina de “História da Cultura Clássica”, de que era docente o inesquecível Padre Manuel Antunes. Neste livro, o filósofo alemão traça o contraste entre dois aspetos da alma grega: as paixões, a irracionalidade de Dionísio; e a medida, a racionalidade de Apolo. A singularidade da cultura grega assenta na síntese Apolo-Dionísio, que Sócrates depois iria romper, seduzido pelo culto exclusivo da razão.

Para Coubertin, escreve Gustavo Pires, desde a Grécia e a organização, em 1896, dos Jogos Olímpicos de Atenas “até ao último combate da sua vida, que foi a defesa da realização dos Jogos de Berlim, em 1936, nunca o desporto foi uma atividade assética, longe dos problemas do mundo e da política que rege as relações humanas (p. 15). Afinal, é Coubertin a dizê-lo: o objetivo do Olimpismo “é o de colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana, em vista a promover uma sociedade pacífica, preocupada com a preservação da dignidade humana” (p. 18). No entanto, se o desporto se renova pelo estudo da Antiguidade, Coubertin não pretende a restauração da Antiguidade. Como os humanistas dos séculos XV e XVI reabriram o túmulo da Antiguidade, sem com ela se confundirem Os seus mentores foram um pedagogo, Thomas Arnold (1795-1842); um sociólogo, Frédéric Le Play (1806-1882); o filósofo Hippolyte Adolphe Taine (1828-1893); o médico William Penny Brookes (1809-1895); o frade Henri Didon (1840-1900). Querendo, pelo desporto, transformar o homem, na sua integralidade, força foi escutar a fisiologia, a pedagogia, a sociologia, a filosofia e a teologia. E, digamos em termos atuais, após um trabalho interdisciplinar, Coubertin, logo no dealbar dos anos 80 do século XIX, “percebeu que era necessário ultrapassar os modelos ginásticos que, de características mais ou menos higiénicas de combate à tuberculose ou militarizadas de confrontação belicista, visavam a supremacia de determinadas raças sobre as demais” (p. 33). E, no lugar de uma competição hostil, fomentar a competição desportiva, como “instrumento de promoção da paz” (p. 34). Não era o Super-Homem de Nietzsche o atleta de Coubertin...

3. Não me é possível no espaço de um artigo sintetizar o magnífico esforço e o brilho intelectual de Gustavo Pires que, profundo conhecedor de Thomas Kuhn, se fez capaz de um corte epistemológico para acompanhar, aplaudir e seguir o essencial do pensamento e da obra de Pierre de Coubertin. “A originalidade de Coubertin foi ter percebido a necessidade de provocar, no mundo das atividades físicas de caráter recreativo, uma mudança de paradigma, introduzindo-lhes uma dimensão institucionalizada de competição (…). Coubertin estava interessado num desporto sério e não recreativo, realizado à escala global entre nações que, assim, à semelhança dos Gregos Antigos, podiam transferir para os campos de jogos as disputas que então se travavam nos campos de batalha (p. 43). A grande originalidade de Coubertin “foi a de considerar a competição como um instrumento de alcance pedagógico de extraordinária importância. Claro que tal visão, ao tempo, não podia ser anunciada de uma forma clara, pelo que Coubertin teve o cuidado de a dissimular nos grandes objetivos do primeiro Congresso Olímpico de 1894” (pp. 43-45). Também ao mens sana in corpore sano do poeta romano Juvenal prefere o citius, altius, fortius do frade Henri Didon. Enfim, ao tomar em consideração a dimensão cultural do desenvolvimento; ao incrementar a participação dos desportistas, na vida cultural; ao promover a cooperação internacional de um desporto entendido como cultura, como forma superior de humanização; concluindo por isso que o desenvolvimento desportivo é infinitamente mais complexo do que o espera o verbalismo doutoral de alguns comentadores (não todos, evidentemente) do futebol – Gustavo Pires merece o nosso agradecimento sincero. É que o tema, “o desporto como cultura”, tem sido largamente negligenciado pela universidade. E tarda a entender-se como ficção irrealista uma análise do desporto que seja desporto tão-só.

De quanto precede se vê a importância do livro OLIMPICAMENTE – a rutura de Pierre de Coubertin com a Educação Física, de que o Gustavo Pires é autor e a Faculdade de Motricidade Humana editou. É uma obra a muitos títulos notável que, sem favor, vai tornar.se num livro fulcral onde se polariza o muito saber do seu autor sobre o olimpismo e uma tentativa de dilucidação da condição humana, através das ideias de Pierre de Coubertin. De facto, “o maior sentido da vida não é vencer, mas lutar com uma ideia de superação. Um sentimento justo, nobre e leal, quer dizer, com um espírito de cavalheirismo e fair-play, em que o desporto cria um sistema transparente de igualdade desportiva que depois (…) permite ao atleta superar-se, transcender-se e afirmar-se como o melhor” (p. 61). O grande poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz , esse “incessante explorador do espaço das culturas e das épocas do saber”, como o qualifica Claude Roy, afirma que “o poema deve provocar o leitor, obrigá-lo a escutar e a escutar-se”. Com efeito, Octavio Paz não dissimula a sua fé profunda, tanto no poder da palavra, como na natureza da poesia, enquanto ato pelo qual o homem se funda e se revela. Gustavo Pires deixou aquecer-se pelo fogo da inteligência de Coubertin e contagiar pela cordialidade e oportunidade da sua mensagem. E o olimpismo (e o desporto) ganhou mais um magistral estudo, sobre a sua essência e o seu valor. Um estudo de grande qualidade – a tal qualidade que Tucídides reivindicou como sendo “uma aquisição para sempre”.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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