As incertezas da ciência (artigo de Manuel Sérgio, 56)

Ética no Desporto 20-11-2014 23:19
Por Manuel Sérgio
Desde o século XVII nos vêm prometendo que, através das ciências, seríamos, mais tarde ou mais cedo, “donos e senhores da natureza”. Há muito pouco tempo, Stephen Hawking afirmou-nos, convictamente, que as ciências estão prontas a conhecer “os planos do próprio Deus” e a sintetizar, numa “teoria de tudo”, a nossa compreensão das forças fundamentais que governam o mundo físico.

De facto, dominam-se os segredos do átomo e já se produz a sua desintegração; graças à “revolução biológica” de meados do século XX e convictos que dominamos muitos dos antigos segredos do mundo vivo, rapidamente passámos de uma biologia da análise para uma biologia da reconstrução, de que a zootecnia é um produto florescente. E ao nível micromolecular e biomédico? Não me é possível, no curto espaço de um artigo e porque me falecem sérios conhecimentos, resumir os hodiernos e espantosos avanços, no campo da ciência. Demais, ainda há quem, fundamentado no paradigma mecanicista, afirme que, pela medição e pelo cálculo, chegará a uma compreensão ideal da natureza.

A física, a química, a biologia evoluíram de “ciências da natureza” para “ciências de artefactos”, engenharias autênticas, capazes de reconstruírem átomos, moléculas e genes. E, porque se julga que a natureza não tem alma, não passando de uma máquina bioquímica, a tecnociência salvará logicamente o presente e dir-nos-á como será o futuro. No entanto, esta mesma tecnociência que ajuda ao nascimento de extraordinários atletas, não garante que os super-atletas apresentem, para o resto das suas vidas de pós-competição, uma saúde com razoável estabilidade. E assim, de quando em vez, assistimos ao passamento de antigas “estrelas” do espetáculo desportivo, ainda antes de poderem considerar-se idosas, vitimadas pelas mais diversas patologias. Quando são apresentadas ao mundo como figuras paradigmáticas, do ponto de vista biomédico, deveria acrescentar-se que, no desporto de alta competição, não se faz desporto para ter saúde, mas porque se tem saúde. E que a sua prática pode não dar mais vida aos anos...

No dia 9 de agosto de há nove anos atrás, no hospital de La Rochelle da sua província natal de Charente Maritime, faleceu de cancro na garganta Collete Besson, campeã olímpica dos 400 metros, nos Jogos Olímpicos do México (1968), com 59 anos de idade. Acrescente-se que Colette Besson não era fumadora. Conforme José Cutileiro o relata no Expresso (2005-8-27): “Até ao dia 16 de Outubro de 1968, só parentes, amigos e colegas saberiam quem ela era. Fora, é certo, selecionada para os Jogos Olímpicos da Cidade do México, mas não era uma das vedetas onde se punham esperanças e que a Federação de Atletismo Francesa apaparicava: o seu treinador não fora incluído, no estágio da equipa, antes dos Jogos. E ao aprontar-se para a prova que a viria a tornar célebre – os 400 metros – na pista 5, com o número 117, só tivera em mente um fito: não chegar em última. A favorita de todos os entendidos era Lilian Board”.

Colette Bresson era francesa e, em Maio desse mesmo ano, os universitários franceses exigiam que a imaginação fosse poder, rejeitavam a sociedade capitalista burguesa, faziam suas as palavras incendiárias de Herbert Marcuse. O capitalismo, diziam os mais publicitados revolucionários daquele tempo, produz esquizofrénicos tão-só; reintroduz códigos, limites, identidades, para dominar o desejo; a loucura (Michel Foucault foi o primeiro a dizê-lo) é uma construção sócio-política.

Derrida, precisamente em 1968, intitulou a sua conferência na Sociedade Francesa de Filosofia: Différance! Para este filósofo, diferir é deslocar, frustrar, deslizar. De facto, embora de modo anárquico, a universidade francesa queria ardentemente o diferente, o novo. Era preciso desconstruir. E a desconstrução “multiplica as palavras (...) numa substituição sem fim e sem fundo, cuja única regra é a afirmação soberana do jogo sem sentido”. Deste turbilhão de palavras e desejos emergia, na opinião pública, uma ideia confusa, contraditória, inexata da vida política. E os que (como Paul Ricoeur) pretendiam iluminar alguns aspetos ignorados, vincar alguns traços menos expressivos, anunciar os fundamentos – eram adjetivados de caquéticos, reacionários ou até fascistas. A França dividira-se e, em 1968, parecia navegar ao sabor da maré...

Até que a professora de Educação Física Colette Besson venceu os 400 metros planos dos Jogos Olímpicos do México, os quais, transmitidos pela televisão e diante da vitória da Colette, concorreram, iniludivelmente, a um reacender do espírito patriótico, que parecia em crise. Quando regressou a França, o general de Gaulle quis recebê-la e condecorá-la e apontar a sua vida, também como fonte de saúde e de bem-estar. Mais tarde, bateria mesmo “ex-aequo” com Nicole Duclos, sua amiga e compatriota, o recorde do mundo dos 400 metros planos. A Colette Besson (1946-2005) o desporto que praticou não lhe prolongou a vida, mas fez dela uma heroína francesa dos tempos modernos. O desporto não é (não deve ser) uma exortação belicosa de patriotismo, mas pode concorrer à reabilitação do sentimento patriótico. As incertezas da ciência não nos permitem dizer se o desporto é sempre um fator de saúde, mas há nele um opulento, honrosíssimo inventário de páginas do mais lídimo patriotismo.

Ao invocarmos as lágrimas de Colette Besson, no pódio dos Jogos Olímpicos do México, saudemos nela o ímpeto, o pundunor, a grandeza de ânimo, típicos de um magnífico sentimento de pátria. O desporto é, de facto, uma prática exemplar, quando é acima do mais um ideal. E um povo sem ideais é como um corpo sem sangue, preparado para a decomposição. O caráter social do desporto implica, logicamente, relações sociais e deve, por isso, visar a transformação do Homem, da Vida, da Sociedade e da História. “Implementar legislação e outros instrumentos, em prol da ética desportiva; promover e defender o desporto, como um direito universal, bem como a sua dimensão pedagógica e educativa; fomentar a prática desportiva, tendo em consideração os valores éticos” , conforme as sábias palavras do Código de Ética Desportiva (PNED, Instituto Português do Desporto e Juventude) – tudo isto é desporto, porque visa a implementação do desenvolvimento humano.

Seria bom também (a propósito e a despropósito) chamar a atenção para o facto de aceitar-se acriticamente a exaltada expressão. “o desporto dá saúde”. Ora, tanto dá, como pode não dar, pois que são várias as vítimas de doença súbita, durante um simples e calmo encontro desportivo. Não me refiro à alta competição, onde o ímpeto da luta provoca um inevitável desgaste físico e psicológico. Assinalo o facto de que nem sempre se deve fazer desporto, mesmo no lazer desportivo.

O controlo médico é, em todas as circunstâncias, inevitável. Com o “nihil obstat” do médico, a motricidade humana é sempre aconselhável. “Movo-me, logo existo”. Mas “movo-me” com que objetivos? Só para eu ter saúde? Não só, mas também... porque devo movimentar-me, para, entre outros objetivos, ajudar à transformação da sociedade! É numa sociedade justa que a saúde-para-todos pode promover-se e organizar-se. Trata-se de um tema que muitos teóricos do desporto esquecem, ou seja, que o desporto só dá saúde, no dia em que se transformar numa prática política.

É a partir daqui que seria de repensar os programas do desporto escolar! Mas o desporto, na Escola, deverá politizar e politizar-se? Eu não digo que as aulas de Desporto se transformem num espaço de propaganda partidária, mas de educação política... que não é a mesma coisa! O desporto, como área do conhecimento, é ciência e ética. E, perante as incertezas naturais da ciência, sujeita a uma constante dúvida metódica, façamos sempre do desporto uma ética em movimento. Tendo assim a certeza que, com ética, também servimos e ajudamos ao indispensável conhecimento científico.

E mais: sem ética, o desporto pode ser ciência, mas deixa de ser uma sabedoria, deixa de ser um espaço onde se defendem aqueles valores, sem os quais impossível se torna viver humanamente – aqueles valores que estão na génese do nascimento do próprio desporto! Um feixe de Sol, coado através da alta competição do espetáculo desportivo hodierno! Faço minhas as palavras de Eduardo Prado Coelho, em Tudo o que não escrevi (Edições ASA, Porto, 1992): “mercado e liberalismo ignoram a dimensão cultural da vida, como demanda trágica de um sentido” (p. 56).

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
Ler Mais
16:18  -  16-11-2014
O engenheiro Fernando Santos: - o mesmo e o diferente (artigo de Manuel Sérgio, 55)
18:39  -  11-11-2014
Ou interdisciplinaridade ou ignorância (artigo de Manuel Sérgio, 54)
10:25  -  08-11-2014
Carta Aberta ao Presidente da República de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 53)
17:43  -  30-10-2014
Rui Jorge: e o treinador do Futuro (artigo de Manuel Sérgio, 52)
15:56  -  23-10-2014
O engenheiro Fernando Santos: o ser e o tempo (artigo de Manuel Sérgio, 51)
19:34  -  16-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol, 2.ª parte (artigo de Manuel Sérgio, 50)
17:38  -  11-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol (1) (artigo de Manuel Sérgio, 49)
22:14  -  03-10-2014
Eduardo Monteiro: perfil de um dirigente! (artigo de Manuel Sérgio, 48)
17:55  -  28-09-2014
A propósito do engenheiro Fernando Santos (artigo de Manuel Sérgio, 47)
16:47  -  22-09-2014
O campeão observado a dois ângulos de visão (artigo de Manuel Sérgio, 46)
00:24  -  18-09-2014
Há falta de treinadores negros (artigo de Manuel Sérgio, 45)
01:06  -  13-09-2014
Valdano: um homem que transporta uma frustração (artigo de Manuel Sérgio, 44)
18:39  -  08-09-2014
A grande revolução a fazer no futebol (artigo de Manuel Sérgio, 43)
18:36  -  03-09-2014
Mais Platão, menos Prozac! (Artigo de Manuel Sérgio, 42)
14:57  -  28-08-2014
Fiel ao Belenenses e... aos amigos! (artigo de Manuel Sérgio, 41)
18:38  -  17-08-2014
O Deus dos filósofos e os deuses do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 40)
18:34  -  10-08-2014
O olho das rãs e o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 39)
21:47  -  04-08-2014
“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
16:52  -  26-07-2014
“Preparar para Ganhar”: um livro de José Neto (artigo Manuel Sérgio, 37)
22:24  -  15-07-2014
O Futebol na Sociedade Pós-Capitalista ou a vitória da Alemanha (artigo Manuel Sérgio, 36)
00:43  -  07-07-2014
Código de Ética Desportiva (artigo Manuel Sérgio, 35)
16:35  -  02-07-2014
A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
20:53  -  27-06-2014
O Futebol e os Escritores (artigo Manuel Sérgio, 33)
22:45  -  22-06-2014
As dúvidas do Doutor Eduardo Barroso: as dele e as minhas! (artigo Manuel Sérgio, 32)
16:17  -  08-06-2014
Carta Aberta ao Ministro do Desporto do Brasil (artigo Manuel Sérgio, 31)
18:08  -  01-06-2014
Da poesia ao futebol (artigo Manuel Sérgio, 30)
18:57  -  27-05-2014
Factos e valores (artigo Manuel Sérgio, 29)
18:50  -  19-05-2014
Parabéns ao Benfica: na vitória e na derrota (artigo Manuel Sérgio, 28)
16:35  -  12-05-2014
Marco Silva: um grande treinador, com toda a certeza! (artigo Manuel Sérgio, 27)
21:07  -  01-05-2014
A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
00:52  -  24-04-2014
O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
18:33  -  11-04-2014
Os mitos fundadores da Modernidade (artigo Manuel Sérgio 24)
23:56  -  06-04-2014
Os cem anos da FPF: em Portugal também há progresso? (artigo Manuel Sérgio 23)
20:01  -  30-03-2014
Nova Teoria do Sebastiano e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio 22)
23:11  -  23-03-2014
José Medeiros Ferreira: o desportisra, o político, o intelectual (artigo Manuel Sérgio 21)
17:26  -  18-03-2014
Nossos contemporâneos (artigo Manuel Sérgio 20)
21:39  -  03-03-2014
Há necessidade de uma utopia (artigo Manuel Sérgio 19)
00:49  -  22-02-2014
“Filosofia e Futebol: troca de passes” - um livro de grande atualidade ( artigo Manuel Sérgio 18)
22:28  -  16-02-2014
A Inteligência Competitiva e o Espectáculo Desportivo (artigo Manuel Sérgio 17)
18:50  -  12-02-2014
Plano Nacional de Ética no Desporto (artigo Manuel Sérgio 16)
21:08  -  02-02-2014
Porque sou belenenses... (artigo Manuel Sérgio 15)
00:04  -  28-01-2014
Aurélio Pereira ou um projeto antropológico (artigo Manuel Sérgio 14)
00:19  -  23-01-2014
O nome da rosa (artigo Manuel Sérgio 13)
00:11  -  15-01-2014
Cristiano Ronaldo: agilidade física ou intelectual? (artigo Manuel Sérgio 12)
00:38  -  13-01-2014
Eusébio tem lugar indiscutível no panteão nacional (artigo Manuel Sérgio 11)
23:59  -  03-01-2014
Ciência no Futebol e outras coisas mais... (artigo Manuel Sérgio 10)
00:04  -  30-12-2013
O Desporto nem sempre educa... (artigo de Manuel Sérgio 9)
00:37  -  23-12-2013
Carta Aberta aos jogadores do Bom Senso F.C. (artigo de Manuel Sérgio 8)
00:14  -  10-12-2013
Os golos do Ronaldo e a ética da palavra (artigo de Manuel Sérgio 7)
22:14  -  03-12-2013
Cristiano Ronaldo: - um herói da cultura! (artigo de Manuel Sérgio 6)
21:39  -  20-11-2013
Os erros dos árbitros e os erros dos outros... (artigo de Manuel Sérgio 5)
11:56  -  28-10-2013
«O Desporto (o Futebol) não é violência» (artigo de Manuel Sérgio 4)
22:58  -  18-10-2013
«O Desporto e o Desafio do Sentido» (artigo de Manuel Sérgio 3)
22:45  -  06-10-2013
«O pensamento ético contemporâneo e o Desporto» (artigo de Manuel Sérgio 2)
18:40  -  27-09-2013
«O Desporto em que eu acredito» (artigo de Manuel Sérgio 1)
Comentários (0)

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais