O engenheiro Fernando Santos: - o mesmo e o diferente (artigo de Manuel Sérgio, 55)

Ética no Desporto 16-11-2014 16:18
Por Manuel Sérgio
André Malraux, sempre pomposo na postura e no gesto, afirmou: “Deus morreu e o homem entrou em agonia”. Michel Foucault também falou com entono e solenidade, ao sustentar: “O homem está em vias de desaparecer”. Louis Althusser disse o mesmo doutra forma: “A história é um processo e um processo sem sujeito”, Foi (e ainda é) moda passar a certidão de óbito a qualquer Absoluto. O próprio Homem tornou-se cada vez mais dispensável.

No futebol, vibráteis conversas na televisão ou na rádio, textos de comentadores competentes nos jornais ou na internet – também no futebol o Homem morreu, surgindo, no seu lugar, a tática. O 4x4x2, o 4x3x3, o 3x5x2, o 4x2x3x1, etc., etc. têm a chave da resolução dos problemas mais intrincados do futebol. Ora, tive a sorte de conviver com alguns treinadores de futebol que fizeram o favor de procurar-me, para melhor entenderem o que eu escrevia, nos meus livrinhos, ou declarava, nas minhas palestras, precisamente sobre o desporto em geral e o futebol em particular. E a nenhum desses autênticos especialistas no “desporto-rei”, alguns deles verdadeiros predestinados, a tática era o tema que mais os preocupava. Julgo até (não sei se não laboro em erro) que a tática não era o que mais desassossego lhes trazia. Bem pelo contrário: a qualidade futebolística do “plantel” (física, intelectual e técnica), a problemática do treino, a liderança e o comportamento moral e profissional dos jogadores eram os assuntos que emergiam das suas mais instantes preocupações.

Assim, se me perguntarem qual a tática preferida de José Maria Pedroto, do Artur Jorge, do Fernando Vaz, do José Mourinho, do Jorge Jesus, treinadores que me dispensaram, com generosidade, algumas horas (horas, digo bem) das suas vidas – não sei responder. O Sr. Pedroto, quando eu o felicitava pelas vitórias das suas equipas, respondia-me sempre sorridente: “Eu ganho, porque tenho os melhores jogadores”. E acentuava: “O treinador, que não tem ao seu dispor grandes jogadores, dificilmente consegue grandes vitórias”.

E, ao mesmo tempo que os filósofos, como Althusser, Lacan (médico também), Foucault, Derrida e outros proclamavam a morte de Deus e do Homem, os “agentes do futebol” diziam o contrário: o Homem continua vivo, porque sem homens não há vitórias! Há poucos dias, o engenheiro Fernando Santos, selecionador nacional de futebol, em resposta à pergunta de um jornalista, sobre a sua tática preferida, para o jogo Portugal-Arménia, não hesitou: “O sistema tático diz-me muito pouco” e salientou que era à “dinâmica da equipa, em campo”, que mais atenção dedicava. Mas não há dinâmica, sem jogadores, os quais se movimentam com o que são fisicamente e intelectualmente e eticamente e ao nível do desejo e da vontade e até das suas utopias. A tática é bem pouco, no âmbito do treino. É evidente que faz parte do treino, mas não é o mais difícil de treinar-se. O trabalho mais custoso e cansativo e penoso, no treino do futebol, é fazer do homem um futebolista. É conhecida a tese de Peter Sloterdijk: “Quem de move, move sempre mais do que apenas a si próprio” (A Mobilização Infinita, Relógio d`Água, Lisboa, 2002, p. 29). E este “mais” também se treina, por mais que muita gente o esqueça. No Portugal-Arménia, de 2014/11/14, o selecionador português escolheu uma equipa “com nada menos do que seis jogadores com mais de 30 anos: Bosingwa, Pepe, Ricardo Carvalho, Tiago, Danny e Helder Postiga. Mais um do que no jogo da Dinamarca. Nunca houve até agora nenhum jogo em que Portugal tenha entrado em jogo com mais titulares, acima dos 30 anos” (Rogério Azevedo, A Bola, de 2014/11/15). Nunca houve até agora nenhum jogo (digo eu) em que Portugal tenha apresentado mais experiência, mais anos de prática profissional e de jogadores que melhor pudessem compreender um jogo com um olhar agudo e profundo.

Não me esqueço também que, nas primeiras linhas de A Condição Humana, Hannah Arendt refere o modo como, na Grécia clássica, ação e discurso surgiam próximos e complementares: “o discurso e a ação eram tidos como coevos e co-iguais, da mesma categoria e da mesma espécie”. De facto, o que se faz supõe uma razão que o verbo deve explicar. É verdade que, com Copérnico, o Homem deixou de ser o centro do universo; com Darwin, o Homem deixou de ser o centro do reino animal; com Marx, o Homem deixou de ser o centro da História; com Freud, o Homem deixou de ser o centro de si mesmo. Mas é no Homem (como diziam os existencialistas) que a existência precede a essência. Sartre esclarece: “O importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”. Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo são produto da formação do Sporting Clube de Portugal, onde o trabalho do meu amigo Aurélio Pereira tem revelado superior inteligência e honestidade que nunca é demais elogiar. Mas o génio do Ronaldo e o talento do Quaresma precisaram de muitos anos de treino e de vivência de inúmeras situações (na alegria e na tristeza) para que as suas potencialidades se transformassem na eficácia e no esplendor técnico, que deliciam os seus adeptos e convencem, rendidos, até os seus adversários. “Cada um tem a idade da sua dor” diz um sacerdote de François Mauriac a um adolescente martirizado pela vida. É caso para acrescentar-se que cada jogador de futebol (e estou a lembrar-me dos “trintões” da nossa seleção) tem a idade do muito que sofreu e amou e viveu. Rafael Guerreiro, de 20 anos de idade, embora a sua mocidade que lhe permitiu correr sem cansaço os 90 minutos de jogo (aliás, exibição de muito bom nível) não teve, não pode ter ainda, a intimidade com a bola e a inteligência de jogo de um Ricardo Carvalho. E há momentos em que só a experiência pode adivinhar o perigo...

Ora, o engenheiro Fernando Santos sabe tudo isto. Até sabe que o futebol (como o desporto), para estudar-se, com segurança, deverá entender-se como ciência humana. Sabe tudo isto e, por isso, não faz o mesmo – faz diferente! Não diz que a tática não é necessária; diz tão-somente (se bem o entendo) que há problemas, para um treinador, muito mais difíceis de resolver.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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