As Olisipíadas: Para uma Cultura de Autenticidade (artigo de Gustavo Pires, 4)

Olimpismo 14-11-2014 23:58
Por Gustavo Pires
Os jogos estão de volta à cidade de Lisboa. Mas, ao voltarem, levantam uma questão que se relaciona com o nome com que, desta feita, se apresentam: Olisipíadas. As Olisipíadas, segundo o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), “são o primeiro evento desportivo organizado pela Câmara Municipal de Lisboa em parceria com as novas 24 freguesias”. Todavia, independentemente do entusiasmo com que os Jogos da Cidade foram apresentados, causa preocupação a sua associação ao nome da cidade ao tempo da dominação romana: Olisipo.

Do ponto de vista semântico, a palavra Olimpíada não significa os jogos propriamente ditos. Contudo, à semelhança do que acontece com o termo Olimpíada os especialistas do marketing, para quem, geralmente, a cultura é um empecilho à técnica de comunicação, com uma simples associação de ideias, construíram a palavra Olisipíadas sem cuidarem de saber as implicações que resultariam de tal associação. Porque, se a palavra Olimpíada significa, tão só, um período de quatro anos, uma Olisipíada não é mais do que um período de quatro anos relativo aos Jogos Olisipos. Portanto, tal como as Olimpíadas não são os Jogos Olímpicos, as Olisipíadas também não podem ser os Jogos de Lisboa.

Mas a questão semântica tem, também, implicações de ordem cultural. A raiz dos Jogos Olímpicos está na civilização grega e não na civilização romana que se limitou a adulterá-los ao ponto de os transformar naquilo que de pior a condição humana pode expressar que é o culto do prazer sádico do sofrimento e da morte alheia. Em consequência, em 392 da era cristã, os Jogos que se tinham transformado num circo de violência gratuita, de terror e morte, foram proibidos pelo imperador romano Teodósio. Assim sendo, é absolutamente inapropriado associar os Jogos da Cidade de Lisboa à civilização romana.
Na antiguidade clássica os jogos praticados pelos romanos pouco ou nada tinham a ver com os jogos praticados pelos gregos.

Conforme se entende do grego Plutarco, que viveu em Roma na passagem do primeiro para o segundo século, os romanos estabeleceram uma rutura de paradigma desde logo porque consideravam que as palestras, o culto do corpo, os exercícios de euritmia, as dietas e a alimentação regrada que faziam parte da vida dos gregos, promoviam a preguiça e destruíam o espírito guerreiro. Na opinião dos romanos, dizia Plutarco, os gregos deixaram de praticar os exercícios de armamento pois preferiam ser hábeis lutadores em vez de soldados e cavaleiros.
De facto, a perspetiva de vida dos gregos era bem diferente da dos romanos. De acordo com Hesíodo n’ ”Os Trabalhos e os Dias”, na sociedade grega, de características mais orgânicas do que burocráticas, cada cidadão livre, na sua autoestima, atribuía-se como missão suplantar o semelhante porque, na busca da excelência que incutia à sua vida, desejava ser melhor do que ele. Ora, esta posição contrastava com a estrutura pouco orgânica e super burocratizada da civilização romana cujo Estado, através de uma forte liderança, tomava conta da vida dos cidadãos.

Se para os gregos os jogos se processavam na esfera da vida privada e das decisões de cada um pelo que, como refere Tucídides, eles agiam como cidadãos em função daquilo que entendiam ser um homem livre tanto relativamente aos assuntos públicos quanto aos privados, para os romanos, os Jogos deixaram de ser uma questão dos cidadãos para passarem a ser um assunto de Estado. Quer dizer, da civilização grega para a romana, aconteceu uma mudança de paradigma no que diz respeito à organização política e social que, naturalmente, se repercutiu nas práticas desportivas. Se os gregos, enquanto cidadãos livres, eram mais praticantes do que espetadores, já os romanos, com a sua sociedade estandardizada de cima para baixo, acabaram por se transformar em simples voyeurs de espetáculos circenses de carácter animalesco.

Na realidade, a arena romana era completamente diferente do estádio olímpico. Na arena romana os gladiadores estavam sujeitos a um juramento terrível: “uri, vinciri, ferroque necari”, quer dizer, juravam suportar serem queimados, amarrados, espancados e a morrerem pela lei da espada. No circo romano o sofrimento e as feridas serviam para animar o espetáculo circense num completo desprezo pela morte que os espectadores glorificavam ao desfrutarem do empenho com que os gladiadores se entregavam à luta pela vida nos “damnati ad gladium”, quer dizer, nas lutas entre gladiadores.

Pelo contrário, no estádio olímpico, quando o jovem grego competia na luta, na corrida ou nos lançamentos pensava na satisfação da sua cidade natal na medida em que era a glória dela que ele desejava projetar e até as coroas de louros que os juízes colocavam nas suas cabeças eles as consagravam aos deuses das suas cidades.

Assim sendo, o papel do gladiador circense nada tinha a ver com o do atleta olímpico. Qualquer deles tinha um papel especial na cultura da respetiva civilização. Mas, se para os gregos o estádio olímpico era o local onde os gregos exerciam a sua cidadania, para os romanos a arena era um local onde o Estado exercia o seu poder.

Em conformidade, os próprios imperadores monopolizavam a organização dos espetáculos circenses e, para sua honra e glória, também promoviam as suas próprias escolas de gladiadores as “damnati ad ludum” que, bem vistas as coisas, representavam a função que, hoje, compete aos centros de treino instituídos para honra e glória dos regimes. E o imperador tanto podia poupar um gladiador condenado à morte como mandar para a arena quem lhe aprouvesse. Por exemplo, o imperador Cláudio irritado, devido ao mecanismo do palco não ter funcionado de acordo com o programado, obrigou os mecânicos responsáveis a protagonizarem uma luta de morte na arena.

Os espetáculos romanos seguiam as normas segundo uma rígida hierarquia social desde logo porque a máxima de Juvenal relativa ao pão e ao circo devia ser executada com a observância do máximo rigor. Pelo contrário, na Grécia era a paz olímpica que dominava o espírito dos Jogos. E mesmo os jogos fúnebres que eram realizados em honra dos mortos serviam para celebrar a vida. Quer dizer, estavam envolvidos numa cultura de vida. E eram festejados pelos poetas como, entre outros, Píndaro que na sua exaltação dos vencedores, transmite-nos uma imagem do mundo grego, em que o desporto cumpre sobretudo uma função espiritual já que era impossível separar a palavra “agôn” da tríade jogo, festa e sagrado porque o que devia resultar da disputa entre dois rivais valorosos não era o ódio ou a vingança, mas a amizade na medida em que um antagonista de brio proporcionava ao outro a possibilidade de se conhecer e renovar continuamente as suas forças vitais, em busca da excelência.

Nas competições desportivas na Grécia antiga também acontecia sangue, lesões graves e até morte sobretudo no pancrácio. Todavia, quando tal acontecia a ocorrência era desencadeada por cidadãos livres que punham na competição desportiva o sentido da autodeterminação da sua vida. Na arena, não havia sequer a ilusão de autodeterminação, havia sofrimento e sangue, o sangue em que as noivas romanas mergulhavam os pentes a fim de se pentearem para a cerimónia do casamento. Por isso, enquanto para os gregos os Jogos serviam para inspirar a paz e promover a vida, para os romanos as arenas eram locais de terror e de morte que deviam inspirar um espírito de guerra que se projetava na sociedade.

Em conclusão, se o estádio olímpico dos gregos representa uma cultura de paz, a arena do circo romano representa uma cultura de violência, de sofrimento e de morte.
Não está em causa a realização de um projeto como os Jogos da Cidade que até tem as suas virtuosidades. O que está em causa é atribuir-se-lhes uma designação completamente despropositada, desde logo, porque os desvirtua. Se tal acontece por ignorância só revela o nível cultural das pessoas que, na CML, são responsáveis pelo desporto. Se tal acontece em consciência representa tão só, por parte dos responsáveis, uma perspetiva de desenvolvimento do desporto do tipo “bellum omnium contra omnes”, quer dizer, uma guerra de todos contra todos, o que nos parece profundamente inapropriado.

As políticas desportivas, quer sejam públicas quer sejam privadas, exigem uma cultura de autenticidade. Por isso, também é necessário avaliar a posição do Comité Olímpico de Portugal o que fica para uma próxima crónica.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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