Ou interdisciplinaridade ou ignorância (artigo de Manuel Sérgio, 54)

Ética no Desporto 11-11-2014 18:39
Por Manuel Sérgio
Em 1806, o poder militar prussiano foi esmagado pelos exércitos de Napoleão. Diante de tamanho desastre, o que fez o rei da Prússia? Concluiu, ruminando tristeza, que uma derrota de tão vastas consequências só podia significar uma grande ignorância, por parte dos derrotados. E não perdeu muito tempo: decidiu imediatamente criar uma universidade de um tipo novo, que teria, obrigatoriamente, como alunos, os próximos e futuros responsáveis pela administração e pelas forças armadas do país... para que se atualizassem!

Assim nasceu, em 1810, em Berlim, a universidade-piloto do século XIX europeu. Uma lição que poderá invocar-se, quando se escutam, depois dos jogos, os treinadores e os dirigentes das equipas, com resultado desfavorável. Infelizes, ressabiados, indignados, sempre que juntam duas ideias é, quase sempre, para condenar o árbitro, o principal culpado, presumem eles, da derrota dos seus clubes. Que graves erros se acoitem na direção, ou na equipa técnica, ou nos jogadores são ideias em que não pensam, nem lhes interessa pensar. Contentam-se com um fundamentalismo clubista, que descobre inimigos, no céu e na terra e... na arbitragem! A suspeita de outras dimensões capazes de explicar os inêxitos das suas equipas são temas que não lhes polarizam a atenção. O Vítor Serpa, com a alma e a eficiência dos fundadores de A Bola, escreveu este sugestivo texto, no dia 1 de Novembro de 2014: “Lopetegui tem-se mostrado um treinador promissor e um cidadão civilizado. Teve um começo curioso, procurando impor a sua personalidade, a sua visão, o seu conceito de futebol. As suas declarações também mostravam um ser humano criativo e inteligente. No entanto, havia quem o acusasse de não ser um treinador à Porto. Agora já é. Sem qualquer razão que o justificasse. Lopetegui veio a público dizer esta preciosidade: Juntos seremos mais fortes, contra tudo e contra todos. É a velha fórmula quixotesca de arregimentar quem se decida lutar, contra moinhos de vento. Contra tudo e contra ninguém”.


Miguel Real, em assomo de penetrante sagacidade, escreveu, no seu último livro, O Futuro da Religião (Vega, Outubro de 2014): “O fundamentalismo religioso consiste no ato mental de passagem de uma religião, animada pela fé, a uma religião animada pela alucinação mental” (p. 49). Também o fanatismo clubista é, como se sabe, uma “alucinação mental” e, por isso, o problema de saber-se qual o lugar das ideias, num contexto clubista, tem uma importância chave, sempre que se pensa no desenvolvimento de uma qualquer modalidade desportiva. Se bem penso, nos dias que correm, um departamento de futebol deveria assemelhar-se e uma equipa pluridisciplinar, liderada logicamente por um treinador de futebol. No desporto do futuro, a interdisciplinaridade será uma exigência, mormente no desporto de alta competição, tendo em conta uma prática informada dos seus treinadores. Um cientista, sedento de fama e de honrarias, isolado no seu laboratório, não atingiria nunca as culminâncias do génio criador porque só em grupo, solidariamente e à luz de um projeto interdisciplinar tal será possível. Há vários tipos de interdisciplinaridade que não é possível analisar-se, aqui e agora. “Grosso modo”, a interdisciplinaridade segue os passos seguintes: encontro entre especialistas de diversas disciplinas que estudam paralelamente o mesmo problema; comunicam entre si os resultados obtidos; elaboram, por fim, avaliados os resultados e os métodos de cada uma das disciplinas, um relatório comum. A interdisciplinaridade não nos permite dissociar a teoria da prática, já que, verdadeiramente, é a prática que se pretende enriquecer ou transformar. “A pesquisa interdisciplinar faz apelo, pois, a diversos pesquisadores a fim de que, debruçando-se cada um sobre um mesmo problema, na linha da sua especialidade, decorra de seus saberes, reunidos e integrados, um conhecimento mais completo e menos unilateral” (Hilton Japiassu, Interdisciplinaridade e Patologia do Saber (Imago Editora, Rio de Janeiro, p. 88).

Partindo do pressuposto que o futebol (como o desporto, em geral) é um dos aspetos da motricidade humana e que nos situamos portanto no âmbito das ciências humanas, será de estabelecer-se depois a metodologia do interdisciplinar, constituindo-se uma equipa de trabalho de especialistas de várias áreas do conhecimento – mas especialistas que gostem do futebol e, nas suas linhas gerais, o conheçam, para que não se descambe na situação absurda e singular de um estudo sobre o futebol não ter em conta os factos e os acontecimentos que o futebol segrega, mas tão-só o jogo metafísico das ideias. Com isto, não digo que a um “agente do futebol” não interesse a leitura de um Dante, ou de um Dostoievsky, ou de um Dickens, ou de um Vieira, ou de um Camões, ou de um Pessoa (estes três últimos escritores os nomes maiores, no meu entender, da literatura portuguesa). Mas que não se tente resolver os problemas do futebol, teorizando tão-só. É que, para mim (e há muitos anos já) quem só teoriza não sabe. Em 1977, escrevi eu um livrinho, editado pela Compendium, A Prática e a Educação Física, onde pode ler-se: “De facto, a unidade prática-teoria constitui uma totalidade em que à prática assiste papel fundamental, pois é nelas que se reconciliam e interfecundam o objectivo e o subjectivo (…). A prática, sem teoria, é cega – para pouco serve; a teoria, sem prática, definha no idealismo mais concêntrico – para nada serve” (p. 15). Em 1991, publiquei A Pergunta Filosófica e o Desporto, também editado pela Compendium, e reforcei esta mesma ideia: “é especialista em futebol quem o pratica e o teoriza para praticá-lo melhor” e portanto importa: “radicar a teoria na prática; acompanhar a prática de teoria; teorizar, para perspetivar e antecipar uma nova prática” (p. 51). A vida (e o futebol é vida) não é tanto um problema intelectual que é preciso resolver, mas uma situação que é preciso viver, para poder transformar-se.

Não tenho dúvidas que, para formular-se um problema, importa antes conhecer o todo donde esse problema nasce. E, no todo, porém, há mais do que desporto e mais do que tecnociência e mais do que filosofia e mais do que arte. Daí, a necessidade imperiosa da cooperação interdisciplinar, entre saberes vários, no mundo irradiante e complexo do desporto de alta competição, onde o futebol se movimenta. Daí, a necessidade também de um líder da equipa interdisciplinar (no futebol, o treinador principal) que não desconheça a complementaridade, entre as diversas áreas do saber e se mostre capaz de liderar a superação do fracionamento disciplinar, rumo a uma nova síntese. É o conhecimento integrado do futebol (ou de qualquer outra modalidade desportiva) que pode assegurar não só um clarão fulgurante de reflexões, mas também uma revolução científica, que consagre o desporto (e portanto o futebol) como autonomia disciplinar. Com a interdisciplinaridade, há um enriquecimento evidente de uma área disciplinar. Um estudo do futebol, por exemplo, que não se interesse senão pelo que é específico do futebol aproxima-se, a passo estugado, da ignorância. São os “agentes do futebol” que sabem, pelo seu saber de experiência feito, o que é o futebol. Ninguém pode preconizar, no âmbito do conhecimento científico, que as fronteiras de uma disciplina se esfumem, se diluam. No entanto, o seu progresso não se realiza, sem a colaboração doutras ciências. Um facto indiscutível, indiscutido, na epistemologia hodierna. Tudo o que é humano faz parte de um universo inacabado e em génese. Tudo, incluindo o futebol!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
Ler Mais
10:25  -  08-11-2014
Carta Aberta ao Presidente da República de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 53)
17:43  -  30-10-2014
Rui Jorge: e o treinador do Futuro (artigo de Manuel Sérgio, 52)
15:56  -  23-10-2014
O engenheiro Fernando Santos: o ser e o tempo (artigo de Manuel Sérgio, 51)
19:34  -  16-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol, 2.ª parte (artigo de Manuel Sérgio, 50)
17:38  -  11-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol (1) (artigo de Manuel Sérgio, 49)
22:14  -  03-10-2014
Eduardo Monteiro: perfil de um dirigente! (artigo de Manuel Sérgio, 48)
17:55  -  28-09-2014
A propósito do engenheiro Fernando Santos (artigo de Manuel Sérgio, 47)
16:47  -  22-09-2014
O campeão observado a dois ângulos de visão (artigo de Manuel Sérgio, 46)
00:24  -  18-09-2014
Há falta de treinadores negros (artigo de Manuel Sérgio, 45)
01:06  -  13-09-2014
Valdano: um homem que transporta uma frustração (artigo de Manuel Sérgio, 44)
18:39  -  08-09-2014
A grande revolução a fazer no futebol (artigo de Manuel Sérgio, 43)
18:36  -  03-09-2014
Mais Platão, menos Prozac! (Artigo de Manuel Sérgio, 42)
14:57  -  28-08-2014
Fiel ao Belenenses e... aos amigos! (artigo de Manuel Sérgio, 41)
18:38  -  17-08-2014
O Deus dos filósofos e os deuses do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 40)
18:34  -  10-08-2014
O olho das rãs e o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 39)
21:47  -  04-08-2014
“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
16:52  -  26-07-2014
“Preparar para Ganhar”: um livro de José Neto (artigo Manuel Sérgio, 37)
22:24  -  15-07-2014
O Futebol na Sociedade Pós-Capitalista ou a vitória da Alemanha (artigo Manuel Sérgio, 36)
00:43  -  07-07-2014
Código de Ética Desportiva (artigo Manuel Sérgio, 35)
16:35  -  02-07-2014
A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
20:53  -  27-06-2014
O Futebol e os Escritores (artigo Manuel Sérgio, 33)
22:45  -  22-06-2014
As dúvidas do Doutor Eduardo Barroso: as dele e as minhas! (artigo Manuel Sérgio, 32)
16:17  -  08-06-2014
Carta Aberta ao Ministro do Desporto do Brasil (artigo Manuel Sérgio, 31)
18:08  -  01-06-2014
Da poesia ao futebol (artigo Manuel Sérgio, 30)
18:57  -  27-05-2014
Factos e valores (artigo Manuel Sérgio, 29)
18:50  -  19-05-2014
Parabéns ao Benfica: na vitória e na derrota (artigo Manuel Sérgio, 28)
16:35  -  12-05-2014
Marco Silva: um grande treinador, com toda a certeza! (artigo Manuel Sérgio, 27)
21:07  -  01-05-2014
A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
00:52  -  24-04-2014
O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
18:33  -  11-04-2014
Os mitos fundadores da Modernidade (artigo Manuel Sérgio 24)
23:56  -  06-04-2014
Os cem anos da FPF: em Portugal também há progresso? (artigo Manuel Sérgio 23)
20:01  -  30-03-2014
Nova Teoria do Sebastiano e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio 22)
23:11  -  23-03-2014
José Medeiros Ferreira: o desportisra, o político, o intelectual (artigo Manuel Sérgio 21)
17:26  -  18-03-2014
Nossos contemporâneos (artigo Manuel Sérgio 20)
21:39  -  03-03-2014
Há necessidade de uma utopia (artigo Manuel Sérgio 19)
00:49  -  22-02-2014
“Filosofia e Futebol: troca de passes” - um livro de grande atualidade ( artigo Manuel Sérgio 18)
22:28  -  16-02-2014
A Inteligência Competitiva e o Espectáculo Desportivo (artigo Manuel Sérgio 17)
18:50  -  12-02-2014
Plano Nacional de Ética no Desporto (artigo Manuel Sérgio 16)
21:08  -  02-02-2014
Porque sou belenenses... (artigo Manuel Sérgio 15)
00:04  -  28-01-2014
Aurélio Pereira ou um projeto antropológico (artigo Manuel Sérgio 14)
00:19  -  23-01-2014
O nome da rosa (artigo Manuel Sérgio 13)
00:11  -  15-01-2014
Cristiano Ronaldo: agilidade física ou intelectual? (artigo Manuel Sérgio 12)
00:38  -  13-01-2014
Eusébio tem lugar indiscutível no panteão nacional (artigo Manuel Sérgio 11)
23:59  -  03-01-2014
Ciência no Futebol e outras coisas mais... (artigo Manuel Sérgio 10)
00:04  -  30-12-2013
O Desporto nem sempre educa... (artigo de Manuel Sérgio 9)
00:37  -  23-12-2013
Carta Aberta aos jogadores do Bom Senso F.C. (artigo de Manuel Sérgio 8)
00:14  -  10-12-2013
Os golos do Ronaldo e a ética da palavra (artigo de Manuel Sérgio 7)
22:14  -  03-12-2013
Cristiano Ronaldo: - um herói da cultura! (artigo de Manuel Sérgio 6)
21:39  -  20-11-2013
Os erros dos árbitros e os erros dos outros... (artigo de Manuel Sérgio 5)
11:56  -  28-10-2013
«O Desporto (o Futebol) não é violência» (artigo de Manuel Sérgio 4)
22:58  -  18-10-2013
«O Desporto e o Desafio do Sentido» (artigo de Manuel Sérgio 3)
22:45  -  06-10-2013
«O pensamento ético contemporâneo e o Desporto» (artigo de Manuel Sérgio 2)
18:40  -  27-09-2013
«O Desporto em que eu acredito» (artigo de Manuel Sérgio 1)
Comentários (0)

Destaques

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais