Rui Jorge: e o treinador do Futuro (artigo de Manuel Sérgio, 52)

Ética no Desporto 30-10-2014 17:43
Por Manuel Sérgio
Convivi e com alguns cheguei a fazer amizade, com um número bem razoável de jogadores e de treinadores de futebol, desde 1964, o ano em que o Dr. Vale Guimarães me convidou para sub-diretor (e chefe de redação e redator e repórter, etc., etc.) do jornal «Os Belenenses».

Não esqueço Mário Wilson, como treinador dos ´azuis´ de Belém e professor da Escola de Educação Física de Lisboa; nem José Maria Pedroto, sempre de curiosidade desperta, procurando no David Monge da Silva e em mim a informação que ele pensava escassear-lhe; e o Fernando Vaz, que sendo ´agente do futebol´ e jornalista não considerava a literatura coisa supérflua e dialogava comigo mais sobre temas literários do que sobre a técnica e a tática, no futebol. Nunca encontrei no futebol (não me refiro a jornalistas) um homem de tão sôfrega vontade de respirar o hálito embriagante de um texto de um bom autor, como o Fernando Vaz (ao contrário de José Maria Pedroto que fazia do futebol o seu tema favorito). Aqui muito à puridade posso adiantar que, assim como o engenheiro Ângelo Correia diz, com muita simpatia, que fui eu que o ensinei a ler Fernando Pessoa, o Fernando Vaz, se vivo fosse, não esconderia também que fui eu a primeira pessoa que o aconselhou a deliciar-se com a poesia do Manuel Alegre, recitando-lhe (se bem me lembro) esta quadra que sei de cor: “Que o poema seja microfone e fale / uma noite destas de repente às três e tal / para que a lua estoire e o sono estale / e a gente acorde finalmente em Portugal”. Receio que, pelos meus breves e pobres comentários, não possa transluzir sequer o valor profissional e ético de Fernando Vaz, de Mário Wilson e de José Maria Pedroto, como “homens do futebol”. Os três seriam, hoje, também, treinadores exemplares. Em capacidade, engenho e saber, iguais aos melhores que o mundo atual publicita...

Julgo nunca ter cumprimentado, mesmo em rápido aperto de mão, o Rui Jorge, antigo profissional de futebol e a desempenhar as funções de selecionador nacional de sub-21. No entanto, já dele me falaram como treinador, com obra renovadora, no âmbito dos jogadores mais jovens. Não desejo, ninguém com o mínimo de seriedade deseja, que emudeçam as críticas sérias (absolutamente necessárias) ao trabalho do Rui Jorge mas, francamente, a seu respeito, só tenho escutado, com imparcialidade e objetividade, palavras de louvor, pelo seu valor incontroverso. Porque nunca pude dialogar, e portanto aprender com ele, li, com redobrada atenção, de ponta a ponta, a sua entrevista ao jornal A Bola, de 2014/10/25. A serenidade é a marca inapagável das suas respostas às perguntas do jornalista Rogério Azevedo: “Tento que seja” (diz ele) e refere ainda: “E equilibrado também. Cabe-nos a nós, pessoas que vivem o futebol por dentro, passar ao lado daquela pontinha de irracionalidade que, por vezes, os adeptos têm. Mas reconheço que é por esta irracionalidade que o futebol tem tanto impacto. Porém, quem está a fazer o julgamento das coisas, como é o caso dos treinadores, tem de ser mais estável, nas emoções e nas análises. E tento sê-lo”.

Acompanhei com entusiasmo, como simples espectador, o trabalho excecional, no setor da formação, do Carlos Queirós e do Nelo Vingada (era eu, então, professor no ISEF de Lisboa) – trabalho que, no meu modesto entender, deveria considerar-se, pelo futebol português, um tesouro de inestimável preço. Não sei se a inveja e a ignorância preguiçosa não deitaram por terra o que se fez. Não sei e, por isso, sigo em frente. Ora, o Rui Jorge pareceu-me, na entrevista, com a serenidade (repito) de quem é capaz de aplicar, com plena e absoluta consciência, a tecnociência que distingue a sua profissão. Rui Jorge, ressumante de exatidão mental, atesta íntima familiaridade com todos os aspetos, formas e realidades do treino e da competição. Está a nascer um grande treinador de futebol? Para mim, já nasceu!

Mas voltemos, sem mais delongas, ao Rui Jorge, quando ele assinala o ótimo desempenho da seleção nacional de sub-21, que o surpreendeu: dez jogos, dez vitórias! Denais, “desde que esta competição se disputa nestes moldes, há vinte anos, é a primeira vez que tal acontece”. E, curto e incisivo, continua: “Nunca até agora uma equipa ganhou os oito jogos da fase de qualificação e os dois do play-off. Se nunca acontecera em duas décadas, com grandes seleções de países de grandes tradições na formação, era difícil esperar que o conseguíssemos”. E quais as causas do excelente desempenho? Eis a resposta de Rui Jorge: “Foi tudo trabalho, talento, sorte e também as próprias condições do apuramento. Nunca é demais recordar que, para uma equipa tecnicamente evoluída como a nossa, são necessários bons relvados. Se tivemos trabalho, talento e sorte, tivemos também muito bons relvados, para os nossos jogos na qualificação”. E, embora os seus métodos rigorosos, meticulosos, é afável e modesto: “Vejo o futebol como um desporto coletivo e todos nós, de treinadores a jogadores, passando por todas as restantes pessoas, têm quota-parte neste apuramento. Quando ganhamos, ganhamos todos, quando perdemos, perdemos todos”. E, como homem de ciência (a ciência da sua especialidade) num estilo singularmente claro, afirma: “Não concebo que se diga que somos favoritos, na fase final, quando ainda não conhecemos em profundidade os nossos adversários”. Rui Jorge, nesta entrevista, surge, aos olhos dos mais atentos, com a humildade de quem procura, de quem estuda e não com a altivez do proprietário da Verdade. Todo o grande homem deixa de o ser, quando se comporta como se o fosse. Quando o jornalista o questiona: “Quais são as suas funções e as de Fernando Santos e Ilídio Vale, no Gabinete Técnico das Seleções?” - disse muito, em poucas palavras: “Tentaremos pensar o nosso futebol. Este gabinete foi criado para isso: para pensar e melhorar o nosso futebol. Basicamente é isto!”. A consciência humana, aberta e emancipada, orienta-se sempre para o mais saber, para o mais ser...

Mas um ponto nos merece especial realce: Rui Jorge é sensível (muito sensível) aos aspetos éticos, na competição desportiva, sublinhando que a sua equipa, eticamente, teve, segundo palavras suas, “comportamento exemplar e fazemos questão de o ter em todos os jogos”. Se não laboro em grave erro, esta entrevista espelha o seu autor de maneira realmente extraordinária. Nela, Rui Jorge deixou correr o pensamento, com uma sinceridade e uma precisão, que o mostram a cada instante, na sua realidade pessoal mais viva e verdadeira. Há, neste jovem treinador de futebol, uma fusão entre a força da convicção e o conhecimento rigoroso. Daí, a sua apurada lucidez. E nada, absolutamente nada, me consente descrer da promessa que ele hoje é, no futebol português e...não só! A tecnociência é um bem, imprescindível ao progresso do futebol. Mas não pode degenerar num tecnologismo, assente unicamente em equações, em fórmulas e estruturas químicas. O desporto (a vida humana) não pode tornar-se algidamente quantitativo e mecânico, expresso unicamente em números. O ser humano (o desportista) integra de facto tudo isto. Mas também o transcende.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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