O engenheiro Fernando Santos: o ser e o tempo (artigo de Manuel Sérgio, 51)

Ética no Desporto 23-10-2014 15:56
Por Manuel Sérgio
Não, não vou ocupar-me do Ser e Tempo de Martin Heidegger (1889-1976). Nem, para tanto, reconheço em mim competência tamanha. Mas parece-me filosófica a questão: para saber de desporto (e portanto de futebol) o que é preciso saber? Qual o saber radical (ou o decisivo e fundamental) onde assenta o conhecimento do futebol? Uma pergunta ainda, com a mesma intenção: qual a essência do futebol?

Sem o dizer, o engenheiro Fernando Santos ensinou-nos, com inflexível e austera firmeza: é o ser humano, é o “agente do futebol”, designadamente o praticante. E, por isso, foi a este nível que se centraram as suas preocupações. E o Ricardo Carvalho e o Tiago e o Danny e o Cédric e o William Carvalho integraram o “onze” em que mostrou mais acreditar. O Ricardo Quaresma, um dos melhores jogadores portugueses, também foi convocado e também jogou. No próprio dia do Dinamarca-Portugal, Fernando Santos dizia ao jornal A BOLA: “Quem decide no campo são os jogadores, eu estou cá fora”. De facto, para quem viu o jogo (eu vi pela televisão) ficou demonstrado que a tática quatro-quatro-dois-losango (que por vezes se transformou em quatro-três-três) resultou em plenitude, mas foi a classe de Ricardo Carvalho e de Ricardo Quaresma e o génio de Cristiano Ronaldo (e a honestidade de todos eles) a “causa das causas” da vitória memorável, em Copenhague. Venho assinalando, há um bom par de anos já, que nâo há remates, há homens (e mulheres) que rematam; não há defesas, há homens (e mulheres) que defendem; não há fintas, há homens (e mulheres) que fintam – se eu não compreender antes os homens (e as mulheres) que rematam e defendem e fintam, não entenderei nunca nem os remates, nem as defesas, nem as fintas. O Cristiano Ronaldo, após o Dinamarca-Portugal, sem pormenores engenhosos, desassombradamente afirmou: “Ja tinha saudades de jogar com o Ricardo Quaresma”. E sorridente acrescentou: “É que eu já sei como ele centra, eu sabia o percurso da bola e assim fiz o golo. Eu conheço-o bem”.

O desporto não é apenas uma teoria, nem tão-só uma doutrina – o desporto é uma vida! Uma equipa, como uma família, mostra-se nos mais pequenos trechos de fraterna amizade, entre os jogadores, e no respeito pelas ordens do treinador que se aceita como conselheiro ou guia. Uma equipa, ou se movimenta, estrutura, enobrece, como uma família, ou o 4x3x3, ou o 4x4x2, ou o 3x5x2, ou o 4x2x3x1, surgem acorrentados a erros e fragilidades sem conta. Juan Mata, jogador do Manchester United, ao El País, de 2014/10/20, assegurou com palavras solenes: “Van Gaal es honesto. Es más importante ser una buena persona que un buen técnico”. Ao Juan Mata apresentam-no os jornais como um rapaz rebelde e livre, pagando, com frequência, as consequências das suas atitudes, do seu desprezo pelas fórmulas feitas, da sua falta de respeito pelas consagrações indevidas. Mas, segundo o jornalista que o entrevistou, é um leitor habitual de bons livros. Talvez, por isso, e instruído pela lição diária dos factos, a sua plena crença na necessidade de o treinador ser pessoa de admirável lucidez e honestidade... antes do mais! O desporto de alta competição tende, hoje, a reduzir-se à racionalidade técnica e tática, à rentabilidade económica (o futebol é um negócio) e a uma retórica de salivoso e anacrónico clubismo. Ora, e a dignidade incontornável do homem, como pessoa, presente em cada um dos elementos que constituem um departamento de futebol? E não é por aqui que deve começar o treino do futebolista de alta competição? Para que serve a ética no treino e na competição? Concorre ela a uma performance mais plena? O Juan Mata na mesma entrevista não esconde a admiração que sente pelo treinador Van Gaal: “ Gosta muito de falar connosco e perguntar-nos que opinião temos dos exercícios que fazemos nos treinos. Por vezes, fala de Guardiola e dos conselhos que lhe dava. Van Gaal tem prazer em ouvir os jogadores, principalmente quando eles procuram soluções que podem beneficiar o grupo”.

A reflexão filosófica acordou tarde para o Desporto, que era uma Atividade Física e quanto mais física mais desatinada. Após esta melancólica conclusão, a Filosofia não poderia ocupar-se do Desporto. Até que (e agora, desde os gregos, dou um salto de séculos) o Desporto passou a estudar-se de um modo unificado onde entravam dialeticamente, integrando a mesma totalidade, aspetos epistemológicos, éticos, estéticos, tecnocientíficos, sociais, políticos, culturais. E então a Filosofia descobriu que o Desporto era uma Atividade, mais do que Física, Humana e sentiu que não podia ficar indiferente à humanidade que o Desporto é. E temas como ciência, consciência, competição, motricidade, solidariedade, liberdade, utopia, desejo são problemas filosóficos porque são desportivos e são problemas desportivos porque são filosóficos. E na escola hegelo-marxista, na fenomenologia, em Nietzsche, em Ortega y Gasset, em Wittgenstein, em Huizinga, em Arnold Gehlen, em Adorno, em Marcuse, em Hannah Arendt, em Habermas encontramos juízos esclarecedores acerca do corpo, do jogo, do desporto, do espetáculo, da competição. E do discurso, da comunicação. N`A Condição Humana (Relógio d`Água, Lisboa, 2001), Hannah Arendt observa: “Nenhuma outra actividade humana precisa tanto do discurso como a acção” (p. 41). O ser do Desporto é o Homem! Numa competição ou num treino, quando se pergunta: o que aconteceu? É pelo Homem que se pergunta...

O que venho de escrever, nas suas linhas essenciais o engenheiro Fernando Santos conhece. Entre as dezenas de jogadores profissionais de futebol, que já conheci, mesmo os de mais larga audiência, nenhum me mostrou desagrado, pelo seu atual (ou antigo) treinador, por razões de ordem tática. Os fatores decisivos da sua antipatia residiam na prepotência, na canhestra comunicação, na teimosia, na incapacidade de liderar e organizar. Numa grande equipa de futebol, hoje, liderança, ética e humanismo convergem. A crise, portanto, não é normalmente de ordem tática. Por isso, eu confio no engenheiro Fernando Santos, como treinador e líder da nossa seleção nacional. No meu modesto entender deverá nascer, no futebol, uma perspetiva paradigmática nova, onde o que o define não tem apenas e só uma natureza científica. A transcendência (a superação) é o sentido da vida e portanto do desporto. E no ato da transcendência não há ciência tão-só, há vontade e esperança e fé – há a convicção profunda de que o Homem e o Desporto são tarefas a realizar! Só quando o Futebol for um modo de desfatalizar a História, o futebol poderá desenvolver-se, numa ordem imprevisível e nova. Por isso, repito, eu confio no engenheiro Fernando Santos, como treinador e líder da nossa seleção nacional.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
Ler Mais
19:34  -  16-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol, 2.ª parte (artigo de Manuel Sérgio, 50)
17:38  -  11-10-2014
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol (1) (artigo de Manuel Sérgio, 49)
22:14  -  03-10-2014
Eduardo Monteiro: perfil de um dirigente! (artigo de Manuel Sérgio, 48)
17:55  -  28-09-2014
A propósito do engenheiro Fernando Santos (artigo de Manuel Sérgio, 47)
16:47  -  22-09-2014
O campeão observado a dois ângulos de visão (artigo de Manuel Sérgio, 46)
00:24  -  18-09-2014
Há falta de treinadores negros (artigo de Manuel Sérgio, 45)
01:06  -  13-09-2014
Valdano: um homem que transporta uma frustração (artigo de Manuel Sérgio, 44)
18:39  -  08-09-2014
A grande revolução a fazer no futebol (artigo de Manuel Sérgio, 43)
18:36  -  03-09-2014
Mais Platão, menos Prozac! (Artigo de Manuel Sérgio, 42)
14:57  -  28-08-2014
Fiel ao Belenenses e... aos amigos! (artigo de Manuel Sérgio, 41)
18:38  -  17-08-2014
O Deus dos filósofos e os deuses do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 40)
18:34  -  10-08-2014
O olho das rãs e o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 39)
21:47  -  04-08-2014
“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
16:52  -  26-07-2014
“Preparar para Ganhar”: um livro de José Neto (artigo Manuel Sérgio, 37)
22:24  -  15-07-2014
O Futebol na Sociedade Pós-Capitalista ou a vitória da Alemanha (artigo Manuel Sérgio, 36)
00:43  -  07-07-2014
Código de Ética Desportiva (artigo Manuel Sérgio, 35)
16:35  -  02-07-2014
A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
20:53  -  27-06-2014
O Futebol e os Escritores (artigo Manuel Sérgio, 33)
22:45  -  22-06-2014
As dúvidas do Doutor Eduardo Barroso: as dele e as minhas! (artigo Manuel Sérgio, 32)
16:17  -  08-06-2014
Carta Aberta ao Ministro do Desporto do Brasil (artigo Manuel Sérgio, 31)
18:08  -  01-06-2014
Da poesia ao futebol (artigo Manuel Sérgio, 30)
18:57  -  27-05-2014
Factos e valores (artigo Manuel Sérgio, 29)
18:50  -  19-05-2014
Parabéns ao Benfica: na vitória e na derrota (artigo Manuel Sérgio, 28)
16:35  -  12-05-2014
Marco Silva: um grande treinador, com toda a certeza! (artigo Manuel Sérgio, 27)
21:07  -  01-05-2014
A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
00:52  -  24-04-2014
O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
18:33  -  11-04-2014
Os mitos fundadores da Modernidade (artigo Manuel Sérgio 24)
23:56  -  06-04-2014
Os cem anos da FPF: em Portugal também há progresso? (artigo Manuel Sérgio 23)
20:01  -  30-03-2014
Nova Teoria do Sebastiano e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio 22)
23:11  -  23-03-2014
José Medeiros Ferreira: o desportisra, o político, o intelectual (artigo Manuel Sérgio 21)
17:26  -  18-03-2014
Nossos contemporâneos (artigo Manuel Sérgio 20)
21:39  -  03-03-2014
Há necessidade de uma utopia (artigo Manuel Sérgio 19)
00:49  -  22-02-2014
“Filosofia e Futebol: troca de passes” - um livro de grande atualidade ( artigo Manuel Sérgio 18)
22:28  -  16-02-2014
A Inteligência Competitiva e o Espectáculo Desportivo (artigo Manuel Sérgio 17)
18:50  -  12-02-2014
Plano Nacional de Ética no Desporto (artigo Manuel Sérgio 16)
21:08  -  02-02-2014
Porque sou belenenses... (artigo Manuel Sérgio 15)
00:04  -  28-01-2014
Aurélio Pereira ou um projeto antropológico (artigo Manuel Sérgio 14)
00:19  -  23-01-2014
O nome da rosa (artigo Manuel Sérgio 13)
00:11  -  15-01-2014
Cristiano Ronaldo: agilidade física ou intelectual? (artigo Manuel Sérgio 12)
00:38  -  13-01-2014
Eusébio tem lugar indiscutível no panteão nacional (artigo Manuel Sérgio 11)
23:59  -  03-01-2014
Ciência no Futebol e outras coisas mais... (artigo Manuel Sérgio 10)
00:04  -  30-12-2013
O Desporto nem sempre educa... (artigo de Manuel Sérgio 9)
00:37  -  23-12-2013
Carta Aberta aos jogadores do Bom Senso F.C. (artigo de Manuel Sérgio 8)
00:14  -  10-12-2013
Os golos do Ronaldo e a ética da palavra (artigo de Manuel Sérgio 7)
22:14  -  03-12-2013
Cristiano Ronaldo: - um herói da cultura! (artigo de Manuel Sérgio 6)
21:39  -  20-11-2013
Os erros dos árbitros e os erros dos outros... (artigo de Manuel Sérgio 5)
11:56  -  28-10-2013
«O Desporto (o Futebol) não é violência» (artigo de Manuel Sérgio 4)
22:58  -  18-10-2013
«O Desporto e o Desafio do Sentido» (artigo de Manuel Sérgio 3)
22:45  -  06-10-2013
«O pensamento ético contemporâneo e o Desporto» (artigo de Manuel Sérgio 2)
18:40  -  27-09-2013
«O Desporto em que eu acredito» (artigo de Manuel Sérgio 1)
Comentários (0)

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais