O preparo físico dos nossos jogadores de futebol (1) (artigo de Manuel Sérgio, 49)

Ética no Desporto 11-10-2014 17:38
Por Manuel Sérgio
Hoje, começo com o livro Futebol: sol e sombra, de Eduardo Galeano: “Enganam-se redondamente os que acreditam que as medidas físicas e os índices de velocidade e de força determinam a eficácia de um jogador de futebol, tal como se enganam os que julgam que os testes de inteligência têm algo a ver com o talento, ou que existe alguma relação entre o tamanho do pénis e o prazer sexual. Os bons jogadores de futebol não são necessariamente titãs talhados por Miguel Ângelo. No futebol, a habilidade é mais determinante do que as condições atléticas e, em muitos casos, a habilidade consiste na arte de converter as limitações em virtudes. O colombiano Carlos Valderrama tinha os pés tortos e essa característica servia-lhe para prender a bola. O mesmo se passava com os pés tortos de Garrincha. Onde está a bola? Atrás da orelha? Dentro da boca? Para onde foi? O uruguaio Cococho Álvarez, que coxeava, tinha um pé que apontava para o outro e foi um dos poucos defesas que conseguiu controlar Pelé, sem recorrer à falta” (p. 139).

O bom jogador de futebol, como o bom artista, precisam, para completa afirmação das qualidades que os distinguem, de muitas mais qualidades, para além das físicas (sem prescindir das físicas, evidentemente). E, pelos estudos que faço e o convívio que venho mantendo com “agentes do futebol” (alguns deles deixaram mesmo sulco profundo na minha memória) posso referir que não são as causas físicas as determinantes, no futebol profissional dos nossos dias, de um resultado menos feliz, ou de uma temporada resplandecente de títulos. Os licenciados em Desporto, pelas nossas universidades, têm a informação biológica e fisiológica e até bioquímica suficientes, para um trabalho interdisciplinar, numa equipa técnica. Não é um fisiologista eminente o Dr. José Mourinho e disputa o primeiro lugar, no pódio de melhor treinador do mundo...

Há críticos desportivos que, parecendo embora inconformistas, fogem, como o diabo da cruz, de um estudo epistemológico do futebol. E, porque ainda vivem de uma noção de treino do tempo dos afonsinos, não têm em conta que a primeira das diferenças que se encontram entre os homens e os animais reside no facto de ser predominantemente instintiva e biológica a atividade dos animais. Por seu turno, a ação desportiva, humana, manifesta, antes de tudo, intencionalidade. Tudo o que se faz no futebol (no desporto) surge associado a anseios, a normas, a valores, a objetivos, que de facto não consentem que se possa atomizar o treino em parcelas. A ação desportiva é um aspeto da motricidade humana, ou seja, do “ser humano no movimento intencional da transcendência”. Tem como suporte uma estrutura biológica? Mas é a intencionalidade que lhe dá a significação e o sentido. Hoje, no desporto, onde está o físico, está a emocionalidade, a inteligência e a política mesmo. Está o homem todo! Hoje, o que fragiliza uma equipa não são tanto as lesões do foro biomédico, ou a ignorância do chamado “preparador físico” - o que mais agride uma equipa são problemas doutra ordem, que deixam os jogadores na desordem íntima de quem se sente ludibriado, dividido, burlado.

Poderia ainda aludir, aqui, os dirigentes que se mostram incapazes de tornar produtivos os conhecimentos dos especialistas que trabalham nos clubes. Nuno Espírito Santo, atual treinador do Valência, foi distinguido, en “la Liga”, com o título de “treinador do mês” de setembro. Porque, atualmente, sabe mais de preparação física do que sabia, há dois meses atrás? O André Gomes é jogador indispensável no “time” do Valência. Porque o preparo físico do Valência é cientificamente superior ao estabelecido por Jorge Jesus, no Benfica? Trabalhei um ano, no departamento de futebol deste clube, e o saber que o informa, no âmbito da fisiologia, do anátomo-fisiológico, não teme cotejo, assim o penso, com o que se faz no futebol, por esse mundo além. Sim, é verdade, que não sou fisiologista. Mas julgo saber como se concebe e estrutura um departamento de futebol, tantas foram as lições de que já beneficiei, desde os tempos remotos do José Maria Pedroto, passando pelo José Mourinho e chegando até hoje, ou seja, até ao Jorge Jesus...


O Prof. Luís Lourenço pesquisou o trabalho profissional de José Mourinho, com incomparável rigor. O livro Mourinho: porquê tantas vitórias?, de Bruno Oliveira, Nuno Resende, Nuno Amieiro e Ricardo Barreto também merece a consulta do estudioso atento do treinador de futebol, que o mundo todo conhece. Aliás, tanto no Prof. Luís Lourenço como nestes quatro jovens licenciados em Desporto, se encontra uma apurada lucidez sobre a filosofia que norteia a liderança, no treino e na competição, do Dr. José Mourinho.

Há portanto interrogações a fazer que ele responde com notável precisão: Terá a condição física a prioridade, no treino de uma equipa? Responde Mourinho: “Como não me canso de repetir, o mais importante é ter um modelo de jogo, um conjunto de princípios que proporcionem organização à equipa. A minha atenção centra-se aí, desde o primeiro dia”. E a forma é física? E ele: “A forma não é física. A forma é muito mais que isso. O físico é o menos importante, na globalidade da forma desportiva”. Ocorre agora esta pergunta: E os picos de forma?... Aqui, ele avança com veemente mas contida vibração: “Eu não quero que a minha equipa tenha picos de forma. Não posso querer que o desempenho da minha equipa oscile. Quero que se mantenha sempre em níveis de rentabilidade elevados”. Utiliza programas individuais de musculação? A sua recusa é terminante: “Não utilizo programas individuais de musculação com os meus jogadores, para manter ou melhorar as suas qualidades. Não acredito nisso. Tudo o que fazemos relaciona-se com o nosso modelo de jogo. O ginásio e as máquinas de musculação são para que o departamento médico, se considerar indicado, possa usá-los na reabilitação das lesões”. No futebol, a fadiga física é a mais importante? E ele que sabe que o futebol se movimenta, no âmbito das ciências hermenêutico-humanas, ensina (aos que gostam de aprender, é evidente): “No futebol, a fadiga mais importante não é a física. Qualquer equipa profissional, minimamente treinada do ponto de vista energético, acaba por resistir, com maior ou menor dificuldade, ao que é o jogo. O difícil reside na fadiga central, que resulta da capacidade de se estar permanentemente concentrado”.
A educação física vinga, no século XVIII, com preocupações médicas, antes do mais, utilizando indistintamente os termos educação física, educação médica e educação corporal. Portanto, uma teoria e uma prática, centradas no físico e no fisiológico. Ao mesmo tempo que a escola (uma escola descorporalizada) esquecia o corpo, com uma educação persistentemente intelectualista e livresca, o desporto, produto acabado de Descartes, nascia como um dos meios da educação física e portanto dando exagerada atenção aos aspetos físico e fisiológico do movimento. Só que, tanto a educação como o desporto, referem-se a valores. Nas sábias palavras do Prof. Roberto Carneiro: “Nesta época conturbada, o desporto é convocado a uma nova mediação do diferente. Como instância poderosa de socialização, ele é cada vez mais um espaço de aprendizagens comportamentais, de construção de capital social e de confiança, de afirmação do primado da coesão sobre o da fragmentação social. O desporto é escola, uma escola para aprender a viver juntos” (Brotéria, Lisboa, 1999). E onde portanto a motricidade surge como extensão e manifestação de valores de grande significado antropológico. Ora, estes valores (como a coragem, a generosidade, a solidariedade, o respeito pelos adversários e por nós mesmos, a busca pela excelência, etc.) são tão importantes no desporto escolar, como no desporto de alta competição. Assim se compreende a sensata afirmação de José Mourinho: “A minha grande preocupação é a equipa, o desenvolvimento coletivo”. E assim o treino tático e o treino físico são simultâneos e com iguais objetivos. Uma equipa, preparada por especialistas, hoje, não pode estar bem taticamente e mal fisicamente.

Ocorre-me agora uma afirmação de Marx, na Introdução à Crítica da Economia Política: “O concreto é concreto, porque é a reunião de muitas determinações e portanto unidade da diversidade”. Assim, só há treino físico quando simultaneamente se tem em conta o tático e o técnico e o psicológico e o moral e só há treino tático quando dialeticamente se estabelece uma inequívoca relação com as dimensões físicas e técnicas e psicológicas e morais da equipa e de cada um dos jogadores. Mas voltarei a este tema, no próximo artigo.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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