Eduardo Monteiro: perfil de um dirigente! (artigo de Manuel Sérgio, 48)

Ética no Desporto 03-10-2014 22:14
Por Manuel Sérgio
Nasci e fui criado numa família pobre, católica, apostólica, romana e com um pai, primeiro cabo da GNR e adepto fervoroso do Belenenses. As amigas de minha mãe salivavam pai-nossos e avé-marias, na igreja paroquial da Ajuda, que eu frequentava, quase diariamente, para salvação da minha alma.

Os amigos do meu pai eram salazaristas e belenenses. Portanto, o Doutor Salazar, o Cardeal Cerejeira, o prior da Ajuda e os jogadores do Belenenses eram, no meu cérebro de criança, as pessoas mais importantes do nosso Portugalzinho de então: obediente, conservador e temente a Deus.

A importância do dirigente desportivo não era tema que me interessasse sobremaneira. Para mim, dirigente havia um - o Salazar e mais nenhum! Nesse tempo, eu poderia fazer minhas as palavras de Santo Anselmo: “Não procuro compreender para acreditar, mas acredito para procurar compreender”. Só vinte anos mais tarde, em convívio fraterno com o Acácio Rosa, eu entendi a necessidade imperiosa do dirigente, como líder experiente, como presença unificadora de um ideal, como pensamento diligentemente interrogador e de uma exemplaridade admirável na sua vida desportiva.

Tudo o que o “velho Acácio” foi, tudo o que (sobre este assunto) aprendi com ele, tudo o que passei a exigir a um dirigente desportivo! Por isso, ao saber que se aproximam as eleições à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) e que o dr. Eduardo Augusto Pires de Vilar Monteiro, licenciado em Desporto, mestre em Gestão do Desporto, é um dos candidatos – enfrento com alguma coragem os discordes, mas não escondo que o Eduardo Monteiro é, para mim, o candidato ideal para suceder ao atual presidente Mário Saldanha. Pela sua constante afirmação de entusiástico amor ao desporto em geral e ao basquetebol em particular; pela informação que procura sem cansaço e pelo seu “currículum vitae” inigualável – a sua presença na FPB será um sinal seguro, um poderoso estímulo às transformações inadiáveis de que o nosso basquetebol precisa e deseja.

Não é fácil esboçar o perfil do Eduardo Monteiro, pela extensão do seu currículo e pela extrema variedade das funções que já exerceu e ainda pela invulgar sobreposição dos traços que o caracterizam. Sempre como jogador de basquetebol: foi internacional universitário e federado; jogou 5 épocas na equipa senior do Belenenses e 2 na equipa senior da Associação Académica de Coimbra. Como treinador de basquetebol, liderou as equipas de iniciados, juvenis e juniores, no Benfica e no Belenenses; orientou as equipas seniores feminina e masculina do Benfica e coordenou a “Escola de Basquetebol” do Belenenses. Selecionou e treinou equipas nacionais de juniores, esperanças e seniores e lecionou e foi diretor, em vários cursos de treinadores. Colaborou no jornal do Belenenses, dirigiu as revistas “Basket” e “Açoresports” e ainda o Seminário “Desporto e Comunicação Social”, nos Açores, em 1987. Presidente, nomeado pelo ministro da Educação, do Curso de Auditores da Informação Desportiva (Lisboa-1990).

Exerceu os seguintes cargos, no âmbito da Administração Pública: coordenador nacional do Plano de Desenvolvimento de Basquetebol, na Direção-Geral dos Desportos; diretor regional da Educação Física e Desportos da Região Autónoma dos Açores (1982-1989); adjunto do ministro da Educação (o Doutor Roberto Carneiro) para a Educação Física e Desportos; vice-presidente do Instituto do Desporto e diretor do Estádio 1º de Maio (Inatel). Desempenhou ainda funções inúmeras e relevantes, no Movimento Olímpico. Escrevi eu acima que “não é fácil esboçar o perfil de Eduardo Monteiro”. Mas não só pelo número e diversidade de cargos que assumiu, mas também pela força íntima e pela informação atualizada que põe em tudo o que faz. Por isso, em todos os domínios onde trabalhou, a sua atividade foi inconfundível, fecundíssima, sempre marcada por uma ética e uma competência indesmentíveis.
Além do que venho de salientar (porque muito mais havia para escrever) será de relevar também a sua tónica presença, pela simpatia contagiante de uma grande simplicidade convivencial. Depois dos 6 mandatos de Mário Saldanha (os últimos vítimas de uma rotina entediante, que empurrou o basquetebol português a um evidente subdesenvolvimento) – depois dos 6 mandatos de Mário Saldanha, ninguém melhor do que Eduardo Monteiro, para a revolução científica e a prática transformadora de que o nosso basquetebol anda carente, incluindo aqui uma união mais sólida entre todos os amantes e estudiosos do basquetebol. Entre nós, no pensar de Eduardo Monteiro, “as associações de basquetebol e as associações profissionais são muito passivas, porque têm sido pouco chamadas a participar. No nosso país, não existe uma cultura de participação. É necessário alterar o sistema e as novas tecnologias de comunicação são hoje muito propícias à participação das pessoas. Estou convencido que serei capaz de liderar um projeto para o basquetebol, sustentado na mobilização e participação de todos os agentes da modalidade”. E insiste de olhar húmido, embaciado de emoção: “Com a colaboração de todos os agentes do basquetebol, estou empenhado em construir uma alternativa que volte a colocar a modalidade, no patamar de notoriedade e de desenvolvimento a que está obrigada e a que tem direito”.

Assim como não se pode imaginar o desporto português dos últimos 25 anos, sem as marcas que lhe imprimiu o Ministro Roberto Carneiro (que teve, como muito próximos colaboradores, Eduardo Monteiro e Gustavo Pires) dir-se-á o mesmo do Eduardo Monteiro e da sua equipa diretiva, daqui a alguns (poucos) anos, se eles, modelos e espelhos de desportistas autênticos, assumirem funções que possam dar ao basquetebol nacional firme, fecunda e vigorosa segurança.

Conheço, há 50 anos, o dr. Eduardo Monteiro: conheci-o, em primeiro lugar, como jogador e treinador, de basquetebol, do Belenenses e ainda como colaborador do jornal deste querido clube, de que era eu o diretor. Acompanhei-o depois, de longe, tão-só como seu admirador e amigo, em muitos dos cargos que ocupou. Pela sua experiência e lucidez e ética, posso afirmar, sem receio de erro, ele poderá ser o presidente de que precisa, neste momento difícil da sua existência, a Federação Portuguesa de Basquetebol. A veemência renovadora do Eduardo Monteiro, mais uma vez, triunfará. Termino, afirmando que, neste artigo, não quero esquecer o muito que Mário Saldanha deu ao basquetebol português, em ciência e consciência. Reafirmo, no entanto, salvo melhor opinião, que esta é a hora de Eduardo Monteiro...
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