A propósito do engenheiro Fernando Santos (artigo de Manuel Sérgio, 47)

Ética no Desporto 28-09-2014 17:55
Por Manuel Sérgio
Logo, no Secundário, na primeira aula de Filosofia, os alunos deitam ao professor um olhar que não se fica pela superfície “folclórica” das coisas e pretendem penetrar, descobrir qual a fecunda originalidade do que lhes é proposto. Demais, não lhes sai da cabeça a célebre definição que aprenderam, entre gargalhadas sadias: “A filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual a gente fica tal e qual”. Mas o professor, mesmo o de imaginação profundamente livre, não deixa de seguir por este caminho: a filosofia é o amor da sabedoria.

O filósofo portanto é um amante da sabedoria. E, como amante, tem a consciência que a não possui (só se ama o que não se possui, como se sabe). Donde se infere que o filósofo não é o que julga que sabe, mas aquele que busca, em lances mais ou menos arriscados, o saber. Platão n`O Banquete ensinou que oe deuses nem filosofam, nem desejam ser sábios. E porquê? Porque sabem tudo! Sócrates, o mestre do pensamento ocidental, chegou mesmo a dizer: só sei que nada sei! A sacerdotisa de Delfos, quando interrogada sobre quem seria o homem mais sábio da Grécia, afirmou com desembaraço: “Sócrates, o ateniense”. Ao saber da resposta da sacerdotisa, Sócrates fez a interpretação seguinte: “Eu só sei mais do que os outros, porque sei que não sei”. Posso portanto terminar esta introdução, adiantando que o filósofo não possui, nem comunica a verdade, suscita tão-só a necessidade, o desejo de a procurarmos.

No futebol, desdenhar um treinador que humildemente declarasse “só sei que nada sei” seria a reação normal dos apaixonados sócios e simpatizantes dos clubes e até o dirigente mais arguto, mais sereno não encontraria espaço para a sua contratação. Fernando Santos (60 anos de idade) é o novo selecionador nacional. Em tempo de crítica acerba e de grande contestação, ele reuniu e afeiçoou aplausos de todos os quadrantes. Jorge Nuno Pinto da Costa, em entrevista ao Porto Canal, disse muito, em poucas palavras: “Fernando Santos é um homem íntegro, de princípios e inteligente!”.

Manuel José não escondeu o seu aplauso: “Acho que o Fernando Santos reúne todas as qualidades, para poder fazer um bom trabalho e chegar ao Europeu, com 40% da seleção renovada” (Público, 2014/9/24). Paulo Curado, na mesma edição deste jornal, ao findar um artigo sobre o novo selecionador nacional, escreveu: “Fica portanto claro que Fernando Santos reúne um conjunto de qualidades e argumentos que o tornam numa escolha com poucos motivos para ser contestada”. Treinador desde 1987, no Estoril, no Estrela da Amadora, no F.C.Porto, no AEK-Atenas, no Panathinaikos, no Sporting, de novo no AEK-Atenas, no Benfica, no PAOK, na seleção grega; tendo conquistado, no seu país, 2 campeonatos nacionais, 1 Taça de Portugal, 2 Supertaças Cândido de Oliveira e, distante da sua terra, 1 Taça da Grécia – não lhe escasseiam nem experiência, nem competência, como se vê. E até um tipo de liderança que o castigo de oito jogos, aplicado pela FIFA, parece não avalizar.

Mas... a que liderança me refiro eu? Vem-me à memória, neste momento, a conversa que tive, em São Paulo, com o Dr. Sócrates, que a morte já ceifou, era ele jogador do Corinthians. E, para além de um fazedor de jogadas de inolvidável técnica, um cidadão que não virava a cara ao risco, em defesa dos ideais democráticos. Remergulhando em tema do seu interesse, disse-me, no hotel onde me hospedara: “Logo que cheire a democracia, a reação desperta e ataca”. E arriscou: “À democracia corinthiana confundem-na com grande bagunça, quando ela é um exemplo para um futebol praticado por gente culta e responsável”.

Carlos Alencar, no livro Juca Kfouri – o militante da notícia (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006) explica-nos o que se passava. “A imprensa mais conservadora não via com bons olhos jogador de futebol não ficar concentrado antes das partidas, cair na noite com um copo de cerveja nas mâos e conviver com o meio artístico. A cantora Rita Lee chegou a dividir o palco com Sócrates, Casagrande e Wladimir, em um dos seus shows. Além da revista Placar, somente Osmar Santos, o locutor titular da rádio Globo, empunhava o microfone, para defender a liberdade com responsabilidade para craques como Sócrates, Casagrande, Wladimir, Eduardo Amorim e companhia” (p. 69).

Na democracia corinthiana, todo o departamento de futebol (incluindo os jogadores), toda a direção do clube “tinham voto na matéria”. E continua Carlos Alencar. “Tudo era resolvido no voto. E os votos tinham o mesmo peso: do goleiro reserva ao presidente do clube” (p. 71). Mas o uso e o abuso da noite; as incursões pela vida artística; um ou outro comportamento desrespeitoso, em relação ao treinador; as poucas vitórias, nas competições oficiais (o que mais conta, para os adeptos) – tudo isto deitou por terra a democracia corinthiana e a utopia e o voluntarismo e até algum pedantismo inconsciente, com que se vestia.

A democracia não significa ausência de líder, porque o líder, o verdadeiro líder, é o que melhor sabe concretizar e comunicar um projeto de equipa, ou de clube, ou de vida, por cima dos conteúdos vários das opiniões e das inúmeras técnicas de persuasão. Democraticamente, o líder não o é pela força ou pelo autoritarismo, mas porque se reconhece nele o que é indispensável a um líder: a competência, a perspicácia na decisão rápida, a fidelidade a princípios e a facilidade de expressão verbal. E a serenidade, quando todos à sua volta estão perturbados ou perplexos! Descobrem-se nos campeões, se bem penso, quatro características: um objetivo bem definido. E, após determinar o objetivo, uma nítida estratégia, para transformar em resultados os seus desejos. A terceira característica do campeão é o trabalho sério, constante e metódico. E, por fim, a confiança e admiração pelo seu treinador. Na alta competição, não há alternativas – é tudo ou tudo! Por isso, treinador e atleta são um só.

E tendo por si uma organização clubística atualizada, ou seja, corporizada por especialistas, homens estudiosos, informados. Aliás, na alta competição, informação e estudo são, hoje, indispensáveis, como apoio, também indispensável, à equipa técnica. Salvo melhor opinião, a criação de um Gabinete de Inteligência Competitiva, na FPF e nos principais clubes, parece-me necessária e urgente. Para que a equipa técnica beneficie da informação certa, na hora certa, visando uma decisão certa. Liderar é cada vez menos repetir ou improvisar. A informação não o permite.

O treinador desportivo, um filósofo? No clima de inquietação e dúvida e, por vezes, de derrotismo, em que o treinador trabalha, um pouco de filosofia transforma-se em poderoso apoio à sua prática profissional. Convocar Ricardo Carvalho, Danny, Tiago e José Fonte manifesta um pensar filosófico. A vida é dialética. Tudo muda: os homens, as ideias, as instituições. Saudemos em Fernando Santos o líder que, porque se informou, é capaz de ser diferente.
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