O campeão observado a dois ângulos de visão (artigo de Manuel Sérgio, 46)

Ética no Desporto 22-09-2014 16:47
Por Manuel Sérgio
Foi na Rádio Renascença (e em meados de 1973) que os jornalistas Álvaro Guerra, Leite de Vasconcelos, ambos já falecidos, Carlos Albino (aposentado mas a colaborar, na companhia da Lídia Jorge, com a Câmara Municipal de Loulé) e Manuel Tomás, a trabalhar ainda na RTP, conseguiram criar o programa Limite, que com alguns ingredientes estilísticos ludibriava a censura e traçava, com mil cuidados mas sem parança, o seu itinerário radiofónico e... político!

Certo dia, o Carlos Albino, meu colega na redação do extinto Jornal do Comércio, confidenciou-me: “O Limite não tem ninguém que se ocupe de temas desportivos e lembrei-me de ti”. E na meia luz de frases incompletas acrescentou: “Somos todos, como sabes, do contra. Não importa que fales de futebol, mas de temas que agradem a um certo público ”. E com um sorriso malicioso: “Entendes?”. Rapidamente entendi o que me pediam e, de coração ao pé da boca, aceitei logo o convite. Não é de estranhar por isso que, na semana do “25 de Abril de 1974”, tenha lido aos microfones da Rádio Renascença o texto que passo a oferecer aos meus pacientes leitores:

“A sociedade conferiu prestígios novos ao desporto (como afinal ao erotismo, o que pressupõe, como dado a considerar, uma inovadora ideia de corpo) mas, espelhando o clima de radicalidade que a ensombra, vestiu-o de antagónicas concepções doutrinárias. Para uns, o campeão, o atleta-modelo, surge à guisa de complemento necessário de todo um desporto-de-massa, fruto da inserção do desporto no desenvolvimento, entendido este como conjunto unitário. Para outros, o campeão, o atleta-cartaz, é o resultado do treino intensivo e sistematicamente dirigido de um indivíduo superdotado, o qual, tecnicamente estimulado, brota à margem do estado geral da política, da economia, da pedagogia ambienciais. Nestas circunstâncias, encontramos, no segundo ponto de vista alguns erros que passo a condensar nas alíneas seguintes:

1. Cada país possui o seu conceito de prática do desporto, consoante se encontra subdesenvolvido, ou em vias de desenvolvimento, ou desenvolvido. O campeão que desponta à margem do desenvolvimento socioeconómico de um povo é a expressão de uma sociedade subdesenvolvida, ou seja, classista e hierárquica, onde só os privilegiados se aperfeiçoam, os mais dotados se educam. Sociedade portanto agressiva, porque limitativa dos direitos inalienáveis da pessoa humana, sociedade mágico-animista, porque sublima os estados de desigualdade social, com a criação de super-homens e semi-deuses (se há super-homens, há super-direitos, se há semi-deuses, há seres próximos do sobrenatural, a cultuar e a incensar).

2. Com uma descrição e avaliação do Mundo típica de estruturas arcaicas; com normas religiosas que desprezam a mulher e o corpo – o desporto educativo e recreativo não é sentido como necessidade primária das populações. Aqui, o desporto profissional ou de alta competição, porque gerador e mantenedor de proezas e mitos, leva a dianteira ao desporto-para-todos, o qual oferece os benefícios do exercício físico científico e criativo... a todos, indistintamente.

3. Em países fortemente classistas e por isso onde a saúde e a educação não foram efectivamente democratizadas, o apoio político e administrativo (autoritário e burocrata) esgota-se nas atenções e subsídios, concedidos ao espectáculo desportivo. O desporto-para-todos, por essa razão, carece de estrutura, de organização, de equipamento, de técnicos qualificados, de investigação e de verbas.

4. A falta de clubes desportivos escolares e de clubes para o lazer entrega o fomento do desporto educativo e recreativo a clubes, com modalidades profissionalizadas, os quais, por força das circunstâncias, o subalternizam, diante do espectáculo desportivo. Cabe aqui um esclarecimento: é uma ilusão pensar-se (e que radica na identificação plena do desporto com o espectáculo desportivo) que cabe aos clubes, com atletas profissionais, o fomento do desporto-educação e do desporto-lazer. As intenções que animam estes clubes-empresas não abrangem o jogo-desporto. A outros sectores da mesma sociedade deverá exigir-se a promoção e organização das actividades físicas, com finalidades pedagógicas, higiénicas e recreativas.

A matriz do desporto é, como se sabe, o progresso social. No “fenómeno social total” radicam os demais fenómenos parcelares. O espiritualismo angelista, por exemplo, que prega e “pobreza feliz”, a resignação incondicional diante dos absolutismos, religiosos e políticos, a fuga aos “problemas terrenos” e o refúgio numa religião platonizante, que não é fermento de uma sociedade mais justa e mais democrática, é o mesmo que origina o desprezo do desporto-para-todos, enquanto espaço para a liberdade e criatividade, enquanrt afirmação do homem-ser-incarnado.

Contudo, a causa imediata do progresso desportivo deverá centrar-se na explosão escolar, na democratização da cultura e simultaneamente no reconhecimento do desporto como elemento imprescindível do acto pedagógico (na escola e na educação continuada). E é então que da quantidade se pode chegar à qualidade. Estimulando aptidões, físicas e intelectuais e morais, em toda a juventude, naturalmente surgem os “campeões” em desporto, mas também em medicina, em literatura, em direito, em ciências, etc., aos quais são proporcionadas condições de especialização, nos diversos ramos do saber e podem assim renovar muito do que há de velho e caquético, na vida social.

Se a educação e a saúde são direitos de todos e não só de uma selecta minoria; se uma pedagogia válida não confunde educação com platonismo desvirilizante; se a educação física se refere ao homem todo e não unicamente ao que nele é biológico – se assim é, pode acreditar-se no campeão como coroa ou cúpula de um trabalho que se principiou pelos alicerces. O resto é fraude, se bem que aplaudida por muito intelectual obsoleto.

Antes de nos quedarmos embasbacados em face das vitórias espectaculares das “super-vedetas” de alguns países, que desprezam os ideais democráticos, importa que tenhamos presentes as exigências de um desporto factor de civilização e de cultura, ou melhor: as exigências de uma visão e acção humanistas do desporto, para uma invenção humanista da sociedade. Os campeões serão como tumores malignos de uma sociedade enfraquecida, se a qualidade dos seus feitos e das regalias, que lhes são dispensadas, contrastar com as carências e a subcultura dos seus concidadãos”.

Este texto já é velho de 41 anos! Há nele expressões e palavras até, que caíram em desuso, no mundo do desporto!...Entretanto, dois dias após a precatada leitura deste texto, durante o programa Limite escutaram-se as vozes de Paulo de Carvalho e Zeca Afonso, cantando, respetivamente, “E depois do adeus” e “Grândola, Vila Morena”. Renascia um tempo novo, não o “estado novo”, em Portugal! Deixo aqui um abraço ao Carlos Albino, pelo convite com que me distinguiu. Com a sua habitual simpatia contagiante.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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