Há falta de treinadores negros (artigo de Manuel Sérgio, 45)

Ética no Desporto 18-09-2014 00:24
Por Manuel Sérgio
A notícia saiu na edição de A Bola, de 2014/9/12: “Clarence Seedorf, de 38 anos, antigo jogador e internacional holandês, sem clube desde que no final da temporada passada foi despedido do Milan, sublinhou com críticas o preconceito racial que considera ainda existir no futebol: É triste ver que são pouquíssimos os treinadores negros.

Dos ex-jogadores de cor quantos se tornaram treinadores? É bem verdade que não devemos ver somente a côr da pele, mas isso é um dos aspetos do caso, diz Seedorf, citado pela Gazzetta dello Sport e no contexto de uma conferência promovida pela UEFA, em Roma, precisamente contra o preconceito no futebol. O holandês esclareceu que ainda tem contrato com o Milan e, ainda a propósito de melhorar o futebol, gostaria de ver implementado o costume do terceiro tempo, tradicional período de confraternização, entre os adversários, depois do jogo. A Fiorentina começou a fazer mas, não sei porquê, não continuou. Acho que deveria ser uma obrigação, com um protocolo diferente. Obrigaríamos a aceitar a derrota e, em três minutos, os adversários deveriam apertar as mãos. Seria uma evolução”.

De Seedorf, um jogador que a todos nos encantou pelos primores da sua técnica, só pode falar-se com um sentimento de infinito respeito. E, se não encontramos por aí muita gente que o recorda, tal se deve ao facto de, para muitos, o desporto continuar um espaço onde se movimentam “bestas esplêndidas”, ao serviço dos interesses do Capital e da alienação dos marginalizados. Se o desporto emerge tão-só como um dos subsistemas do sistema capitalismo, ele não passa de simples mercadoria, à imagem do que se vê, na sociedade toda. No desporto atual, de facto, o que mais se publicita são as qualidades físicas dos grandes jogadores e os seus volumosos vencimentos e os seus carros esplendorosos e as suas companheiras que a eles se referem com voz uterina. E ainda a multiplicação passional de um clubismo do gregarismo mais cego...

Ando a dizer, há muitos anos, isto mesmo: o desporto, o mais publicitado e propagandeado, demasiadas vezes reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista. Durante a minha vida, que já não é curta, convivi e fiz amizade com desportistas de admirável apego a valores de largo alcance antropológico, designadamente a partir de 1968, quando comecei a trabalhar no Instituto Nacional de Educação Física, a convite do Dr. Armando Rocha, diretor-geral da Educação Física, Desportos e Saúde Escolar (e, sobre o mais, amigo que não esquecerei nunca). E, pelo exemplo de desportistas autênticos e porque sou um estudioso desta área do conhecimento, descobri no Desporto uma prática salutar, uma dimensão intelectual e humana, que não deixo de apontar e enaltecer. Como saúde, educação, lazer, espetáculo – o Desporto revela virtualidades onde qualquer homem pode aprender a ser mais Homem (onde qualquer mulher pode aprender a ser mais Mulher). Pode, escrevi eu, porque o neoliberalismo triunfante, ao apoderar-se da sociedade toda, apoderou-se também do Desporto. E o Desporto, ao serviço do neoliberalismo, é um projeto necessariamente incompleto, porque a saúde, a educação, o lazer, o espetáculo, que ele, como servo do capitalismo, promove, mantêm, aprofundam o dualismo rico-pobre e, no âmbito das interações globais, a separação Norte-Sul. No Brasil, durante o século XIX, entre os escravos, índios e negros, 99,9% eram analfabetos. “Na segunda metade do século XIX, com a urbanização, a industrialização e o fim da escravidão, tanto a mão de obra servil, quanto a escrava (…), transformaram-se em proletariado. Aos índios (que formalmente foram libertados duas vezes, em 1750 e 1755) e aos negros, definitivamente libertados em 1888, substituíram-se ou uniram-se trabalhadores suíços, alemães, eslavos, japoneses, sírios, libaneses e chineses. No Brasil, pela primeira vez, a incitaçãode Marx e Engels – proletários de todos os países, uni-vos! - tornou-se realidade ”Domenico de Masi, O Futuro Chegou, Casa da Palavra Produção Editorial, Rio de Janeiro, 2014,. p. 645).

Folheio agora o livro de Norbert Elias, Envolvimento e Alienação (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1998) onde encontro o seguinte: “Não é difícil compreender que o conhecimento de qualquer ser individual específico depende do conhecimento disponível na sociedade onde se movimenta” (p. 240). Ora, qualquer colonizado carrega consigo o estigma do que de mais lamentável apresenta o colonialismo: é o colonizador quem pensa e manda e sabe fazer. O colonizado é singelo títere, ao serviço do império que o subjuga. Recordo, aqui, o primeiro jogo do Matateu, com a camisola do Belenenses. Corria o ano de 1950, se não estou em erro. Ganhámos 4-3 ao poderoso Sporting Clube de Portugal .O Matateu marcou dois golos e alcançou, a partir daí, mercê de uma exibição fulgurante, o estatuto de jogador “fora-de-série”. Findo o jogo, que se disputou nas Salésias, um numeroso grupo de adeptos do Belenenses, “invadiu o campo” e, com as costas de um rapagão que por ali andava e os braços de todos aqueles que queriam abraçar o novo ”craque”, passeou, em êxtase, o avançado do Belenenses, que foi, como poucos, uma associação prodigiosa de inteligência, de instinto e de imaginação. Nesse mesmo dia, à noite, a censura telefonava aos diretores dos vários jornais, proibindo quaisquer fotografias, com o Matateu às costas dos sócios do Belenenses! Era um escândalo que, na capital do império, um negro, com inusitado aparato, se cultuasse, como se um homem de cor branca se tratasse. João Ameal, um fervoroso estadonovista, escreveu uma História de Portugal (Livraria Tavares Martins, 1949) onde se lê: “A nossa História, nos seus primeiros setecentos anos, decorre à sombra de duas constantes fundamentais: a Fé Católica e a Realeza paternal. Porque somos um povo crente, afeto aos valores do Espírito, que desde o início acolhe com ardor o Verbo de Cristo e aceita depois a missão árdua e gloriosa de o propagar, em quatro Continentes – é que o nosso destino adquire a sua projeção ecuménica e deixamos os nossos passos fundamente gravados, na marcha da Civilização” (p. 685). Só que, ao propagarmos o Verbo de Cristo em quatro Continentes, colonizámos. E colonizar é sempre manipular, violentar, escravizar.

Tem razão Seedorf, quando lamenta a falta de treinadores negros. Mas faltam também médicos e professores e cientistas negros. O problema vai muito para além do futebol. Eusébio, com o seu talento ímpar e a sua personalidade de exceção, já beneficiou das ideias de um tempo que não aceitava o colonialismo. E que anunciava, com intensidade e relevo, o fim do Estado Novo...
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