Valdano: um homem que transporta uma frustração (artigo de Manuel Sérgio, 44)

Ética no Desporto 13-09-2014 01:06
Por Manuel Sérgio
Há quatro ou cinco anos, jantei, no Porto, com Jorge Valdano. Já o tinha lido nalguns dos seus escritos e, uma vez mais, pareceu-me um “agente do futebol” de penetrante lucidez e com uma linguagem donde emana uma certa elegância expositiva. Sobre o mais, um cavalheiro, com um modo pessoalíssimo, requintado de falar e de agir.

Argentino, foi um exímio praticante do “desporto-rei”, integrando uma seleção que venceu um Mundial de futebol. Mas do seu fino humor não raro surge uma antipatia, que não sabe esconder, por alguns nomes grandes da história do futebol, como Mourinho o é, indubitavelmente. No livro da sua autoria, que vem de publicar, «Los 11 poderes del líder», depois de minimizar Mourinho, em relação a Guardiola, comparando o treinador do Bayern a Mozart e Mourinho a Salieri, remata com sobranceira autoridade sine qua non: “Nunca ouvi Mourinho dizer uma frase sobre futebol, digna de ser recordada”. Demais, para Valdano, Mourinho não passa de um “personagem feito à medida destes tempos ruidosos e vazios”. Não é verdade, no entanto, que o ser humano se conhece, pela sua prática, pelo que faz? Jesus Cristo, no Evangelho, não deixa dúvidas: “Pelos seus frutos, os conhecereis”. Ser sujeito é ser agente, que o mesmo é dizer: alma, fonte e origem de uma atividade. Por isso, a ação é o modo-de-ser, um acontecimento do eu.

Ora, embora Valdano tarde tanto a avalizar o saber de Mourinho, como treinador de futebol, dado que detesta o futebol que o português implanta nas suas equipas, não lhe é lícito esconder que o currículo profissional do Mourinho é verdadeiramente invulgar. Aceito que o nível lexical, o artifício poético da sua prosa pudessem ser mais cuidados. Mas não compreendo como desdenhar o trabalho de um treinador que, quer o sr. Valdano queira quer não, o futuro há-de reter. Mesmo que, a partir de hoje, não voltasse aos treinos nem às competições, ninguém lhe retiraria já o lugar que de direito ocupa, entre os dois ou três primeiros grandes treinadores de futebol do seu tempo.
Há muitos anos já, o José Mourinho me escutou: “Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete”. Pretendia eu que os meus alunos considerassem a teoria e a prática, enquanto elementos constitutivos, em dialética incessante, da mesma totalidade. No conhecimento científico, não há teoria sem prática, nem prática sem teoria, se bem que (e volto a palavras minhas) a prática seja mais importante do que a teoria e a teoria só tenha valor, se for a teoria de uma determinada prática. A prova decisiva do que eu sou, ou do que eu penso, situa-se na prática. E assim (sem pôr em causa o comportamento ético de Jorge Valdano, pessoa que muito respeito) se associarmos, no treinador de futebol Jorge Valdano, a teoria à prática, podemos aplaudir a teoria, até o seu humanismo, mas a prática (como treinador de futebol, repito-me) rasa o sofrível.

Ao invés, o José Mourinho, arguto e inteligente, entrou no futebol sem a metafísica de um vasto trabalho especulativo, mas mostrou-se capaz de fazer, e com inexcedível brilho, o que Valdano ainda não alcançou (e não foi por falta de oportunidades). Peço vénia, para citar o Marx, no posfácio da segunda edição de O Capital. “O meu método dialético, quanto aos fundamentos, não é apenas diferente do hegeliano, mas o seu direto contrário. Para Hegel, o processo do pensamento, que ele transforma mesmo, sob o nome de Ideia, num sujeito autónomo, é o demiurgo do real, que não constitui senão o seu fenómeno exterior. Para mim, pelo contrário, o ideal não é outra coisa que o material transplantado e traduzido na cabeça do homem”. Dando primazia ao material, a dialética espírito(teoria)-matéria(prática) é evidente em Marx - dando a primazia à matéria, ou também à prática, porque é pela prática que eu posso tornar entendível o que faço e o que sou...

Vejamos agora, sem irmos até ao pormenor, o que de mais significativo fez José Mourinho: completou 100 jogos, na Liga dos Campeões; foi campeão em Itália, em Inglaterra, em Portugal e em Espanha; venceu duas vezes a Liga dos Campeões e uma vez a Taça UEFA (hoje, Liga Europa). E se consultarmos o livro Mourinho – a descoberta guiada, do prof. Luís Lourenço, aí encontraremos, na força expressiva das palavras, uma admiração incontida dos seus jogadores, pelo treinador e o homem que José Mourinho é.

Vítor Baía: “Ele mantém uma relação muito próxima com todos os que consigo trabalham mas, ao mesmo tempo, não existem dúvidas, para ninguém de que é a figura principal do grupo em que estamos inseridos. Sabemos que é ele quem manda mas, acima de tudo, sabemos que é a pessoa em quem nós confiamos”.

Didier Drogba: “Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. Ele ensinou-me, sim, a jogar em equipa, a estar com os outros colegas, o que é algo diferente. E é por isso que onde quer que ele se encontre atinge o sucesso”.

Pinto da Costa: “Naquela sua frase de apresentação aos jogadores (“para o ano, vamos ser campeões”) apresentou o seu melhor cartão de visita e o seu mais perfeito retrato. Confiança, determinação, vontade de transmitir a indómita vontade de vencer à sua gente – tudo estava sintetizado naquela frase”.

Jorge Costa: “Ele é direto e eficaz na forma como comunica, sente-se a segurança o seu discurso, a forma segura como produz o discurso”.

Deco: “Éramos um grupo muito forte, mas também muito coeso e não éramos só bons jogadores, mas também tínhamos grandes qualidades humanas”. Não me ocupo do requinte formal das frases. Sublinho tão-só que o Mourinho é, para a grande maioria dos seus jogadores, um treinador inigualável.
Avolumar defeitos, carências, ou fraquezas, num ser humano, é tarefa demasiado fácil. Difícil é saber admirar, sem ressentimentos, sem inveja, sem introversões avaras, um treinador de futebol, com a comunicabilidade, com a autenticidade, com a genialidade de Mourinho. Tão difícil que nem Jorge Valdano o sabe fazer...
Ler Mais
18:39  -  08-09-2014
A grande revolução a fazer no futebol (artigo de Manuel Sérgio, 43)
18:36  -  03-09-2014
Mais Platão, menos Prozac! (Artigo de Manuel Sérgio, 42)
14:57  -  28-08-2014
Fiel ao Belenenses e... aos amigos! (artigo de Manuel Sérgio, 41)
18:38  -  17-08-2014
O Deus dos filósofos e os deuses do futebol (artigo de Manuel Sérgio, 40)
18:34  -  10-08-2014
O olho das rãs e o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 39)
21:47  -  04-08-2014
“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
16:52  -  26-07-2014
“Preparar para Ganhar”: um livro de José Neto (artigo Manuel Sérgio, 37)
22:24  -  15-07-2014
O Futebol na Sociedade Pós-Capitalista ou a vitória da Alemanha (artigo Manuel Sérgio, 36)
00:43  -  07-07-2014
Código de Ética Desportiva (artigo Manuel Sérgio, 35)
16:35  -  02-07-2014
A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
20:53  -  27-06-2014
O Futebol e os Escritores (artigo Manuel Sérgio, 33)
22:45  -  22-06-2014
As dúvidas do Doutor Eduardo Barroso: as dele e as minhas! (artigo Manuel Sérgio, 32)
16:17  -  08-06-2014
Carta Aberta ao Ministro do Desporto do Brasil (artigo Manuel Sérgio, 31)
18:08  -  01-06-2014
Da poesia ao futebol (artigo Manuel Sérgio, 30)
18:57  -  27-05-2014
Factos e valores (artigo Manuel Sérgio, 29)
18:50  -  19-05-2014
Parabéns ao Benfica: na vitória e na derrota (artigo Manuel Sérgio, 28)
16:35  -  12-05-2014
Marco Silva: um grande treinador, com toda a certeza! (artigo Manuel Sérgio, 27)
21:07  -  01-05-2014
A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
00:52  -  24-04-2014
O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
18:33  -  11-04-2014
Os mitos fundadores da Modernidade (artigo Manuel Sérgio 24)
23:56  -  06-04-2014
Os cem anos da FPF: em Portugal também há progresso? (artigo Manuel Sérgio 23)
20:01  -  30-03-2014
Nova Teoria do Sebastiano e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio 22)
23:11  -  23-03-2014
José Medeiros Ferreira: o desportisra, o político, o intelectual (artigo Manuel Sérgio 21)
17:26  -  18-03-2014
Nossos contemporâneos (artigo Manuel Sérgio 20)
21:39  -  03-03-2014
Há necessidade de uma utopia (artigo Manuel Sérgio 19)
00:49  -  22-02-2014
“Filosofia e Futebol: troca de passes” - um livro de grande atualidade ( artigo Manuel Sérgio 18)
22:28  -  16-02-2014
A Inteligência Competitiva e o Espectáculo Desportivo (artigo Manuel Sérgio 17)
18:50  -  12-02-2014
Plano Nacional de Ética no Desporto (artigo Manuel Sérgio 16)
21:08  -  02-02-2014
Porque sou belenenses... (artigo Manuel Sérgio 15)
00:04  -  28-01-2014
Aurélio Pereira ou um projeto antropológico (artigo Manuel Sérgio 14)
00:19  -  23-01-2014
O nome da rosa (artigo Manuel Sérgio 13)
00:11  -  15-01-2014
Cristiano Ronaldo: agilidade física ou intelectual? (artigo Manuel Sérgio 12)
00:38  -  13-01-2014
Eusébio tem lugar indiscutível no panteão nacional (artigo Manuel Sérgio 11)
23:59  -  03-01-2014
Ciência no Futebol e outras coisas mais... (artigo Manuel Sérgio 10)
00:04  -  30-12-2013
O Desporto nem sempre educa... (artigo de Manuel Sérgio 9)
00:37  -  23-12-2013
Carta Aberta aos jogadores do Bom Senso F.C. (artigo de Manuel Sérgio 8)
00:14  -  10-12-2013
Os golos do Ronaldo e a ética da palavra (artigo de Manuel Sérgio 7)
22:14  -  03-12-2013
Cristiano Ronaldo: - um herói da cultura! (artigo de Manuel Sérgio 6)
21:39  -  20-11-2013
Os erros dos árbitros e os erros dos outros... (artigo de Manuel Sérgio 5)
11:56  -  28-10-2013
«O Desporto (o Futebol) não é violência» (artigo de Manuel Sérgio 4)
22:58  -  18-10-2013
«O Desporto e o Desafio do Sentido» (artigo de Manuel Sérgio 3)
22:45  -  06-10-2013
«O pensamento ético contemporâneo e o Desporto» (artigo de Manuel Sérgio 2)
18:40  -  27-09-2013
«O Desporto em que eu acredito» (artigo de Manuel Sérgio 1)
Comentários (0)

Destaques

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais