Mais Platão, menos Prozac! (Artigo de Manuel Sérgio, 42)

Ética no Desporto 03-09-2014 18:36
Por Manuel Sérgio
Há cinco anos atrás, o livro deu que falar. Recupera-se o título: Mais Platão, menos Prozac! O autor é Lou Marinoff, professor de Filosofia no City College of New York. No meu primeiro ano, na Faculdade de Letras, a disciplina de História da Filosofia Antiga obrigou-me a estudar Platão. Recordo que este filósofo nasceu em 427, antes de Cristo, de uma das mais aristocráticas e ricas famílias atenienses e faleceu, de morte súbita, com oitenta anos, encontrava-se ele num ruidoso banquete nupcial. A tradição, sempre fecunda em engenhosas e mirabolantes interpretações, compraz-se em atribuir à largura dos ombros e ao porte atlético a comutação do seu primitivo nome de Arístocles para Platão (em grego, platús: largo). A influência de Sócrates é evidentíssima, nos diálogos platónicos. O seu nome figura, em todos eles, com exceção das Leis. Mas o problema gnoseológico de Platão gravita, em torno da Teoria das Ideias. Segundo Platão, as Ideias existem num tempo, fora do tempo e do espaço, habitado pelas almas, antes destas se terem precipitado no cárcere corpóreo. Daí que as Ideias sejam divinas por essência e o mundo das Ideias o verdadeiro mundo dos deuses. Por isso, só em estado de absoluta pureza pode entrar-se em contacto com o mundo sagrado e divino. E isso consegue-se tão-só pela libertação do corpo corruptor. “A purificação, escreveu ele no Fédon, consiste em separar, o mais possível, a alma do corpo e acostumá-la a recolher-se em si mesma e a viver, quanto lho permitam as circunstâncias presentes, isolada, inteiramente liberta dos laços que a prendem ao corpo”. Portanto, para Platão, a alma racional é substância completa, espírito puro, anterior ao corpo, com o qual vive acidentalmente.

Para o filósofo das Leis, a alma é um ser puramente espiritual. No ser humano, está unida ao corpo, mas é mais antiga do que ele. O corpo não passa de lôbrego cárcere, que a arrebatou à sua existência espiritual e a arrastou para o mundo material onde vive contrafeita, dirigindo o corpo, sem dele precisar, nem a ele se sentir subordinada em coisa alguma!... Ora, poucos filósofos terão exercido tão profunda influência, nas várias correntes do pensamento, como Platão. De facto, Plotino, S. Agostinho, S. Boaventura, Descartes, Leibniz, Schopenhauer, Bergson, Blondel, etc. manifestam uma nítida afinidade ideológica com o mestre da academia. Há universais concretos, ou valores, de que nos devemos aproximar, para sermos felizes e, sendo felizes, podermos ser saudáveis. Viktor Frankl, antigo professor de Neurologia, da Universidade de Viena, tem uma afirmação que merece ser refletida: ”Nós, médicos, passamos a vida a dizer aos nossos doentes faça exercício físico, não coma açúcar, não coma sal, etc. e esquecemo-nos de lhes dizer que o primeiro fator de saúde é que a vida tenha sentido para nós”. Portanto, para o médico Viktor Frankl, não se concorre a uma boa saúde só porque se palmilham quilómetros atrás de quilómetros, mas quando esse esforço físico se integra numa existência que nos traz a felicidade possível. Inverter a prevalente taxa de sedentarismo bem é, conquanto não se pense que o ser humano é uma simples máquina, sem razão nem espírito, os quais podem também adoecer, no meio do treino físico mais sistemático, e transformarem-se assim em iniludíveis fatores de risco. A promoção da actividade física e desportiva não pode ser tão empírica que esqueça ser o desportista uma complexidade ou uma realidade multidimensional onde deverão ter-se em conta o corpo, o desejo, a mente, a natureza, a sociedade e não tão-só o corpo, cartesianamente entendido como físico apenas. Porque, segundo Viktor Frankl, o sentimento de felicidade é (não sendo o único) o primeiro fator de saúde. Podemos voltar ao livro Will to meaning, de Viktor Frankl, “tomar posição diante dos fenómenos somáticos e psíquicos implica o alçar-se para além destes níveis e abrir-se a uma nova dimensão, a dimensão do fenómeno noético, ou dimensão noológica, como distinta das dimensões biológica e psicológica. É nesta dimensão que os fenómenos mais marcadamente humanos se situam e donde, mais de perto, se divisa a saúde”.

A atividade física já foi reconhecida como o instrumento mais barato de saúde pública. Mas há valores que devem presidir à atividade física para que se alcance mais rapida e solidamente a saúde. Com mais Platão, isto é, com valores verdadeiramente humanizantes, dispensa-se a ingestão de Prozac. E até o Desporto se modifica... para melhor! Muita atividade física e desportiva, sem valores de referência, sem ética, sem modelos desmitificadores, gera um vazio espiritual, que leva inevitavelmente a frustrações sem conta. Ou seja, a actividade física, por si só, pode não “dar saúde”, se não promover o humano, na sua integralidade. A biologia, a fisiologia afirmaram-se, como elementos decisivos de progresso, na história do treino desportivo. Surgiu mesmo, entre os treinadores, com incomparável dinâmica, uma nova mentalidade, em que o biológico explicava o homem todo e, a partir daí, a biologia se impunha ao treino como sua dimensão essencial. Só, que, por detrás dos desempenhos físicos, escondem-se experiências mentais interiores de agrado ou desagrado. No rendimento desportivo, a problemática dos valores e da motivação é de importância inapagável. Há muito a fazer, no treino desportivo, para além da preparação física. O ser humano (e portanto o desportista) é um animal axiológico, porque beneficia de um cérebro que lhe permite atribuir qualidades às perceções. Uma vida, com valores de forte caráter antropológico, é (a ciência assim o confirma) o principal fator de saúde! Digamos sem receio, portanto: ser feliz dá saúde!
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